segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Fred T. Wilhelms, "A mais nobre necessidade"



No mínimo, uma vez por dia, o nosso velho gato preto vem junto de nós, de uma forma que todos passamos a ver isso como um pedido especial. Não quer ser alimentado, ou que o deixem sair ou algo do género. A sua necessidade é de algo bem diferente.
Se tem um colo acessível, ele saltará para ele; se não, é provável que permaneça ali, de pé, olhando-o suplicante, até que você liberte o colo para ele. Uma vez ali, ele começa a vibrar, quase antes de lhe afagar o dorso, coçar o queixo e repetir várias vezes que ele é um bom gatinho.
Então, o seu motor entra em rotação de verdade; contorce-se para ficar confortável; esparrama-se. De vez em quando, um dos seus ronrons foge-lhe ao controlo e transforma-se num ronco. Ele olha-nos com olhos bem abertos de adoração e lança aquela longa e demorada piscadela de confiança definitiva, própria dos gatos.
Ao fim de algum tempo, aos poucos, aquieta-se. Se achar que pode, talvez fique no colo para uma soneca aconchegante. Mas é igualmente provável que salte para o chão e vá perambular por aí e cuidar dos seus afazeres. Em qualquer das hipóteses, está a sentir-se bem.
A nossa filha resume tudo isso numa frase simples: «O Blackie precisa de ser afagado.»
No nosso lar ele não é o único que tem essa necessidade: eu partilho dela e a minha mulher também. Sabemos que essa necessidade não é exclusiva de nenhuma faixa etária. Ainda assim, uma vez que sou professor e pai, associo-a especialmente aos jovens, com sua rápida e impulsiva necessidade de um abraço, de um colo quente, uma mão segura, uma coberta bem aconchegada, não porque algo esteja errado, não porque algo precise ser feito, apenas porque este é o seu jeito de ser.
Há uma porção de coisas que eu gostaria de fazer por todas as crianças. Se eu pudesse realizar apenas uma, seria esta: garantir a cada criança em todos os lugares, pelo menos um bom afago todos os dias.
As crianças, como os gatos, precisam de tempo para serem afagadas.
Fred T. Wilhelms

Canfield, Jack, & Hansen, Mark V. (2002). Canja de Galinha para a Alma
(3ª ed.). Mem Martins: Lyon Edições. pp. 59-60.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Alexandre O'Neill, "Um Adeus Português"



Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada


Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor


Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver


Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual



Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal


Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser


Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal


Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O’Neill (2000). Um Adeus Português.
In: Poesias Completas. Lisboa: Assírio & Alvim, pp. 52-53.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Happiness

Raymond Carver


So early it's still almost dark out.
I'm near the window with coffee,
and the usual early morning stuff
that passes for thought.

When I see the boy and his friend
walking up the road
to deliver the newspaper.

They wear caps and sweaters,
and one boy has a bag over his shoulder.
They are so happy
they aren't saying anything, these boys.

I think if they could, they would take
each other's arm.
It's early in the morning,
and they are doing this thing together.

They come on, slowly.
The sky is taking on light,
though the moon still hangs pale over the water.

Such beauty that for a minute
death and ambition, even love,
doesn't enter into this.

Happiness. It comes on
unexpectedly. And goes beyond, really,
any early morning talk about it.


Carver, Raymond (2000). All of Us: The Collected Poems. New York: Vintage Books. Disponível em http://plagiarist.com/poetry/7454/