quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Homenagem a Carlos Alberto Bau (fotógrafo)

Foto disponível em Fotothing 

Carlos Alberto Bau era um fotógrafo amador argentino, falecido em fevereiro de 2010, quando a avionete em que viajava se despenhou. Deixamos aqui alguns dos seus trabalhos.
 
 

Fotos disponíveis em:
 Ver Tributo a Carlos Alberto Bau no Club Photo de Pornichet

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

2013 – The Year of Quinoa

The More You Love Quinoa, The More You Hate Bolivians

by Judy Molland
Care2, January 18, 2013
 
Quinoa, once familiar only to hard-core vegans, has become so popular that the United Nations has made 2013 The Year of Quinoa.

Pronounced keen-wa, quinoa has an ancient origin, in the Andes Mountains of South America, where it was one of the three staple foods of the Inca civilization, along with corn and potatoes. The Incas called it “the mother grain,” and today the quinoa seed is considered a super-food, valued for its high protein content, fiber, essential amino acids and overall great nutritional value.

You can eat it as a side dish or a main dish for lunch or dinner, have it for breakfast in place of oatmeal, bake cookies with it, or even use it in drinks. It’s light, tasty, and easy to digest and tastes great!

For all these reasons, sales of quinoa have exploded, and this increased demand means that the basic price of this seed has tripled since 2006, while the more unusual black, red and “royal” types come at an even greater cost.

But there’s a dark side to this popularity. From The Guardian:

There is an unpalatable truth to face for those of us with a bag of quinoa in the larder. The appetite of countries such as ours for this grain has pushed up prices to such an extent that poorer people in Peru and Bolivia, for whom it was once a nourishing staple food, can no longer afford to eat it. Imported junk food is cheaper. In Lima, quinoa now costs more than chicken. Outside the cities, and fuelled by overseas demand, the pressure is on to turn land that once produced a portfolio of diverse crops into quinoa monoculture.

The idea that it’s cheaper to buy imported junk food in Bolivia and Peru than to purchase a pound of healthy quinoa is a frightening one. In the U.S., there are numerous studies showing how eating junk food contributes to our soaring obesity rates. And as American junk food spreads to other countries, with McDonalds, Burger King and Pizza Hut, among others, opening up franchises in Vietnam, China and Japan, so the obesity rates start growing there too. In El Salvador, there’s been a dramatic increase in rotten teeth, the result of an influx of American soft drinks.

That’s one disastrous aspect of this situation.

Another is the notion that with all our well-intentioned nutritious eating habits, by consuming so much quinoa, we are driving up poverty rates in Bolivia and Peru.

The Guardian article goes on to compare quinoa to other imported produce such as asparagus and soy, and reports that in both cases, increased exportation of these foods has led to environmental destruction and poverty in parts of South America.

Should we all cut back on our consumption of quinoa to stabilize the market and make sure it’s available to everyone at a fair price? Will that solve the problem?

Obviously, it’s not as simple as that. If we all stop buying quinoa, then farmers in Bolivia and Peru will lose their jobs, and they won’t have money to buy any quinoa. A better solution is to begin growing quinoa in other parts of the world.

Every crop originally came from a specific place, so quinoa production will spread, given demand, as has the production of corn and potatoes, the two other staples of the Inca diet.

What do you think?

Fonte: Care2



Páginas Paralelas:

Blythman, Joanna (2013, 16 January). Can vegans stomach the unpalatable truth about quinoa? The Guardian.


Quinoa recipes at BBC Good Food
 
Care 2 WebPage: for good causes and healthy habits!

 
 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013


RECEITA DE ANO NOVO

Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Andrade, C.D. (s/d). Receita de Ano Novo. Disponível em http://pensador.uol.com.br/frase/MTM0MDQ5/

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013


José Saramago | Ensaio sobre a Cegueira

O disco amarelo iluminou-se. Dois dos automóveis da frente aceleraram antes que o sinal vermelho aparecesse. Na passadeira de peões surgiu o desenho do homem verde. A gente que esperava começou a atravessar a rua pisando as faixas brancas pintadas na capa negra do asfalto, não há nada que menos se pareça com uma zebra, porém assim lhe chamam. Os automobilistas, impacientes, com o pé no pedal da embraiagem, mantinham em tensão os carros, avançando, recuando, como cavalos nervosos que sentissem vir no ar a chibata. Os peões já acabaram de passar, mas o sinal de caminho livre para os carros vai tardar ainda alguns segundos, há quem sustente que esta demora, aparentemente tão insignificante, se a multiplicarmos pelos milhares de semáforos existentes na cidade e pelas mudanças sucessivas das três cores de cada um, é uma das causas mais consideráveis dos engorgitamentos da circulação automóvel, ou engarrafamentos, se quisermos usar o termo corrente.
O sinal verde acendeu-se enfim, bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que não tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do meio está parado, deve haver ali um problema mecânico qualquer, o acelerador solto, a alavanca da caixa de velocidades que se encravou, ou uma avaria do sistema hidráulico, blocagem dos travões, falha do circuito eléctrico, se é que não se lhe acabou simplesmente a gasolina, não seria a primeira vez que se dava o caso. O novo ajuntamento de peões que está a formar-se nos passeios vê o condutor do automóvel imobilizado a esbracejar por trás do pára-brisas, enquanto os carros atrás dele buzinam frenéticos. Alguns condutores já saltaram para a rua, dispostos a empurrar o automóvel empanado para onde não fique a estorvar o trânsito, batem furiosamente nos vidros fechados, o homem que está lá dentro vira a cabeça para eles, a um lado, a outro, vê-se que grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, uma não, duas, assim é realmente, consoante se vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma porta, Estou cego.
Ninguém o diria. Apreciados como neste momento é possível, apenas de relance, os olhos do homem parecem sãos, a íris apresenta-se nítida, luminosa, a esclerótica branca, compacta como porcelana. As pálpebras arregaladas, a pele crispada da cara, as sobrancelhas de repente revoltas, tudo isso, qualquer o pode verificar, é que se descompôs pela angústia. Num movimento rápido, o que estava à vista desapareceu atrás dos punhos fechados do homem, como se ele ainda quisesse reter no interior do cérebro a última imagem recolhida, uma luz vermelha, redonda, num semáforo. Estou cego, estou cego, repetia com desespero enquanto o ajudavam a sair do carro, e as lágrimas, rompendo, tornaram mais brilhantes os olhos que ele dizia estarem mortos. Isso passa, vai ver que isso passa,  às vezes são nervos, disse uma mulher. O semáforo já tinha mudado de cor, alguns transeuntes curiosos aproximavam-se do grupo, e os condutores lá de trás, que não sabiam o que estava a acontecer, protestavam contra o que julgavam ser um acidente de trânsito vulgar, farol partido, guarda-lamas amolgado, nada que justificasse a confusão, Chamem a polícia, gritavam, tirem daí essa lata. O cego implorava, Por favor, alguém que me leve a casa. A mulher que falara de nervos foi de opinião que se devia chamar uma ambulância, transportar o pobrezinho ao hospital, mas o cego disse que isso não, não queria tanto, só pedia que o encaminhassem até à porta do prédio onde morava, Fica aqui muito perto, seria um grande favor que me faziam. E o carro, perguntou uma voz. Outra voz respondeu, A chave está no sítio, põe-se em cima do passeio. Não é preciso, interveio uma terceira voz, eu tomo conta do carro e acompanho este senhor a casa. Ouviram-se murmúrios de aprovação. O cego sentiu que o tomavam pelo braço, Venha, venha comigo, dizia-lhe a mesma voz. Ajudaram-no a sentar-se no lugar ao lado do condutor, puseram-lhe o cinto de segurança, Não vejo, não vejo, murmurava entre o choro, Diga-me onde mora, pediu o outro. Pelas janelas do carro espreitavam caras vorazes, gulosas da novidade. O cego ergueu as mãos diante dos olhos, moveu-as, Nada, é como se estivesse no meio de um nevoeiro, é como se tivesse caído num mar de leite, Mas a cegueira não é assim, disse o outro, a cegueira dizem que é negra, Pois eu vejo tudo branco, Se calhar a mulherzinha tinha razão, pode ser coisa de nervos, os nervos são o diabo, Eu bem sei o que é, uma desgraça, sim, uma desgraça, Diga-me onde mora, por favor, ao mesmo tempo ouviu-se o arranque do motor. Balbuciando, como se a falta de visão lhe tivesse enfraquecido a memória, o cego deu uma direcção, depois disse, Não sei como lhe hei-de agradecer, e o outro respondeu, Ora, não tem importância, hoje por si, amanhã por mim, não sabemos para o que estamos guardados, Tem razão, quem me diria, quando saí de casa esta manhã, que estava para me acontecer uma fatalidade como esta. Estranhou que continuassem parados, Por que é que não andamos, perguntou, O sinal está no vermelho, respondeu o outro, Ah, fez o cego, e pôs-se a chorar outra vez. A partir de agora deixara de poder saber quando o sinal estava vermelho.


José Saramago (1995). Ensaio sobre a Cegueira (8.ª ed.). Lisboa: Caminho: pp. 11-13.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013






Banksy (s/d). [mural]. Disponível em: http://www.banksy.co.uk/outdoors/bb2.html
(acedido a 19 de Janeiro de 2013)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013


Carlos de Oliveira

Uma Abelha na Chuva


O escritório do Medeiros, diretor da  Comarca, era escuro e desconfortável; uma vulgar secretária de pinho, dois ou três cadeirões com almofadas de palha, um quebra-luz de missanga na lâmpada do teto e montes de jornais aos cantos; cheirava a pó como num caminho de estio.
– Sente-se, faz favor.
O visitante sentou-se e, abrindo a carteira, tirou uma folha de papel cuidadosamente dobrada:
– Para sair no próximo número do jornal, se puder ser. Pago o que for preciso.
O Medeiros desdobrou o papel, desfez-lhe os vincos um a um com a unha enorme do polegar, a unha da viola, e pôs-se a ler. Daí a nada, erguia os olhos assombrado:
– E quer o senhor que eu lhe estampe uma coisa destas na Comarca?
O outro baixou o rosto inexpressivo:
– Exatamente.
Afastou a papelada da secretária para os lados como se lhe faltasse o ar, afeiçoou melhor os óculos ao nariz afilado, e na esperança de ter confundido as coisas começou a ler o documento outra vez. Mas não. Ali estava de facto exarada a tinta verde, numa caligrafia de mão pouco segura, a confissão pasmosa:

Eu, Álvaro Rodrigues Silvestre, comerciante e lavrador no Montouro, freguesia de S. Caetano, concelho de Corgos, juro por minha honra que tenho passado a vida a roubar os homens na terra e a Deus no céu, porque até quando fui mordomo da Senhora do Montouro sobrou um milho das esmolas dos festeiros que despejei nas minhas tulhas. Para alguma salvaguarda juro também que foi a instigações de D. Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho Silvestre, minha mulher, que andei de roubo em roubo, ao balcão, nas feiras, na soldada dos trabalhadores e na legítima de meu irmão Leopoldino, de quem sou procurador, vendendo-lhe os pinhais sem conhecimento do próprio, e agora aí vem ele de África para minha vergonha, que lhe não posso dar contas fiéis.
A remissão começa por esta confissão ao mundo. Pelo Padre, pelo Filho, pelo Espírito Santo, seja eu perdoado e por quem mais mo puder fazer.

Saiu da segunda leitura como da primeira. De boca aberta. Que um sujeito arredondasse um tanto os preços de balcão, percebia; que descesse a extorquir uns alqueires de milho aos sobejos dum santo, percebia também; que enfim, dando o real valor a uma procuração, vendesse meia dúzia de pinhais alheios, porque é que não havia de perceber se as tentações, com mil demónios, são tentações para isso mesmo? Mas lá vir confessá-lo em público, na primeira página dum jornal, francamente, entender semelhante coisa era para o Medeiros como teimar com a cabeça numa aresta de granito.
Encarou de novo o rosto gordo do lavrador do Montouro. Feições paradas, sonolentas. Havia porém um ar de seriedade naqueles olhos pouco ágeis, na linha branda da boca, no beiço levemente caído, na cinza das têmporas, que impedia o jornalista de concluir no íntimo, decisivamente: é um imbecil; e contudo seria difícil avaliar o caso de outro ângulo; claro que não ia imprimir a declaração sem mais nem menos: a coisa tem a sua gravidade, envolve terceiros, o homem é capaz de ser de facto parvo e pode a família aparecer-me depois com exigências, desmentidos, trapalhadas.


C. Oliveira (1994). Uma Abelha na Chuva. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora. pp. 5-8.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013


Sons últimos e água para as árvores

«Como é estúpido fazer planos para uma longa vida quando não se é sequer senhor do dia seguinte.»
Senéca

Últimas palavras

Um dilema moderno. O dilema que, por paradoxo, existe nas cidades mais desenvolvidas: sem cuidados paliativos domiciliários, como ter uma boa morte? Como ter uma boa morte em Lisboa, por exemplo? Voltemos à definição.
«Boa morte: 1. Morte tranquila, com o mínimo da dor. 2. Morte em que até ao último momento de vida se conserva a dignidade e a identidade. 3. Morte em que o moribundo tem os familiares junto dele.»  («Agora e na hora da nossa morte», Susana Moreira Marques)
O ponto 1 - «Boa morte: 1. Morte tranquila, com o mínimo de dor.»
Por norma, este mínimo de dor (pensando por agora só na dor física) é garantido por meios técnicos que habitam um espaço definido — o hospital. Como conjugar, então, esta dor mínima com o ponto 2 — manter a identidade? Como é que um doente mantém a sua identidade num quarto de hospital; afastado do seu espaço, dos seus objetos?
Muitas vezes o terrível dilema dos familiares é precisamente este: a) manter o doente no hospital — local que permite, em princípio, que ele viva mais tempo — ou b) tirá-lo dali e levá-lo para sua própria casa para assim poder ter a tal «morte em que o moribundo tem os familiares junto dele»? Mais tempo de vida ou morte mais tranquila, com mais salvaguarda da identidade e da memória afetiva — morte mais individual, personalizada, junto de familiares a quem possa dar o último conselho e de quem possa receber as últimas atenções. Os dois momentos-limite (morte, nascimento) em que o ser humano precisa de outro — de, pelo menos, mais um outro; e, nessas alturas, que terrível estender o braço e não tocar em nada a não ser em coisas metálicas! O último toque de um moribundo, pensemos nele, como tal é decisivo. Qual foi a última coisa em que o moribundo tocou? — eis uma pergunta relevante. Em que matéria, em que material ou: em que pessoa? A primeira pessoa que nos pega quando nascemos e a última em que tocamos, como tal é relevante. E, no segundo caso, pode resultar de uma escolha consciente, clara: quem escolhes para o último toque? Eis uma das decisões mais sérias. O moribundo, além do mais, quer falar e ouvir — como todos os humanos.
Dizer as últimas palavras para uma máquina, contar o último segredo de família a uma sala vazia, escutar ruídos metálicos em vez de frases e respirações — esta é uma das mais terríveis paisagens em 2013, para alguém que está muito próximo da morte.  E eis, enfim, o pedido básico desde que nascemos até ao instante último: querer ouvir alguém que fale, querer falar para alguém que ouça. […]


Gonçalo M. Tavares (2013). «Sons últimos e água para as árvores».
Visão, 1037, 17-23 de janeiro de 2013, 8.