Luís Fernando Veríssimo
Sexa
- Pai…
- Hmmm?
- Como é o feminino de sexo?
- O quê?
- O feminino de sexo.
- Não tem.
- Sexo não tem feminino?
- Não.
- Só tem sexo masculino?
- É. Quer dizer, não. Existem dois sexos. Masculino e feminino.
- E como é o feminino de sexo?
- Não tem feminino. Sexo é sempre masculino.
- Mas tu mesmo disse que tem sexo masculino e feminino.
- O sexo pode ser masculino ou feminino. A palavra "sexo" é masculina. O sexo masculino, o sexo feminino.
- Não devia ser "a sexa"?
- Não.
- Por que não?
- Porque não! Desculpe. Porque não. "Sexo" é sempre masculino.
- O sexo da mulher é masculino?
- É. Não! O sexo da mulher é feminino.
- E como é o feminino?
- Sexo mesmo. Igual ao do homem.
- O sexo da mulher é igual ao do homem?
- É. Quer dizer… Olha aqui. Tem o sexo masculino e o sexo feminino, certo?
- Certo.
- São duas coisas diferentes.
- Então como é o feminino de sexo?
- É igual ao masculino.
- Mas não são diferentes?
- Não. Ou, são! Mas a palavra é a mesma. Muda o sexo, mas não muda a palavra.
- Mas então não muda o sexo. É sempre masculino.
- A palavra é masculina.
- Não. "A palavra" é feminino. Se fosse masculina seria "O pal…"
- Chega! Vai brincar, vai.
O garoto sai e a mãe entra. O pai comenta:
- Temos que ficar de olho nesse guri…
- Por quê?
- Ele só pensa em gramática.
Luís Fernando Veríssimo (2002). Comédias para se Ler na Escola. Lisboa: Publicações Dom Quixote (também disponível em: http://www.ciberduvidas.com/articles.php?rid=679, consultado a 23 de novembro de 2012).
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
"Fever"
Jacek Yerka
Ilustração de Jacek Yerka que acompanha o conto "Fever" de Harlan Ellison para Mind Fields: The Art of Jacek Yerka, the Fiction of Harlan Ellison (1994). Disponível em http://yerka.org.ru/mind_fields/fever.html.
"Fever" parte da ideia de que Ícaro, a conhecida figura mitológica grega, não morre na queda e, sofrendo embora de amnésia, prossegue a sua vida, atormentado por uma febre nocturna e sonhos estranhos, em que vê inexplicáveis rostos nas nuvens.
Ver também "The Surreal Paintings that Inspired Harlan Ellison".
Jacek Yerka
Ilustração de Jacek Yerka que acompanha o conto "Fever" de Harlan Ellison para Mind Fields: The Art of Jacek Yerka, the Fiction of Harlan Ellison (1994). Disponível em http://yerka.org.ru/mind_fields/fever.html.
"Fever" parte da ideia de que Ícaro, a conhecida figura mitológica grega, não morre na queda e, sofrendo embora de amnésia, prossegue a sua vida, atormentado por uma febre nocturna e sonhos estranhos, em que vê inexplicáveis rostos nas nuvens.
Ver também "The Surreal Paintings that Inspired Harlan Ellison".
Páginas Paralelas:
O mito de Ícaro: GreekMyths& Greek Mythology
"Icarus", a poem by Edward Field, que parte também da ideia da sobrevivência de Ícaro.
Yerkaland: visite o mundo do artista polaco Jacek Yerka.
O mito de Ícaro: GreekMyths& Greek Mythology
"Icarus", a poem by Edward Field, que parte também da ideia da sobrevivência de Ícaro.
Yerkaland: visite o mundo do artista polaco Jacek Yerka.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Regresso à Ilha
Romana Petri
Desta vez não é propriamente Verão, é uma Primavera avançada
de fim de Maio. Nem sequer devia ir ao Pico, devia ir apenas ao Faial
apresentar o livro que te dediquei. Mas depois aconteceu aquela coisa estranha
na Feira do Livro, em Lisboa. Sentei-me à mesa de apresentação e, na primeira
fila, estava uma rapariga a olhar para mim. Eu também olhei para ela e então
ela levantou-se, aproximou-se de mim e disse, Aproveito antes que comece a sua
apresentação. Chamo-me Marta, sou prima do João Freitas.
O
resto do dia já não fez muito sentido, nem tão-pouco sei como correu aquela
apresentação, pois durante o tempo todo só tu estiveste no meu pensamento. Tu a
caminhares pela estrada de Arcos, com aquelas cores a mudarem constantemente o
céu, o cigarro entre os lábios e o boné azul do costume na cabeça, com a
inscrição já desbotada. Falava com as poucas pessoas que estavam lá, mas via-te
a cambalear um pouco por causa do álcool, as tuas faces mal barbeadas, aqueles
tiques de solitário que apanhaste depois da morte da Telma. Sabes bem como
fazes, de súbito, pões-te a falar sozinho e imediatamente depois paras porque
te apercebes disso e sentes vergonha. Explicaste-me uma vez como isso te
acontece, disseste-me, Acontece que ouço a minha voz falar alto dentro da minha
cabeça, troco os pensamentos com a voz, e por isso ponho-me a responder. Mas
isso acontece quando bebo de mais. E depois ao ouvir a minha voz verdadeira
responder aos meus pensamentos penso que estou a enlouquecer e paro.
Sei
como fazes quando te dás conta. Tiras o boné, sacode-lo com raiva numa coxa,
passas a mão na testa suada. E ficas assim por um pouco, sob aquele céu que
corre. Depois voltas a pô-lo e continuas a caminhar batendo os pés com força no
chão, levantando a terra vermelha de Arcos. Chegas ao poço, sentas-te no
beiral, pegas no copo de lata amarrado à corda, lança-lo à água, puxa-lo para
cima quando está cheio para beber apenas um gole. Com o resto lavas a cara, e,
o copo, deixa-lo a baloiçar no beiral do poço, agitado pelo vento que te pões a
olhar. Porque sei que tu, o vento, olha-lo e vê-lo, apercebo-me disso pela
expressão com que ficas nos olhos. Sei o que pensas, pensas ser o único que o
consegues ver. Uma vez até te perguntei: João, como é o vento? E tu respondeste-me:
Faz o que quer. E de repente fizeste um gesto com a mão a imitar a corrida do
vento. Mas depois sorriste-me, porque sabias que isso não era o que eu queria
saber, eu queria saber como eram os olhos e os cabelos do
vento, qual era o timbre da sua voz e quantos anos lhe davas. E à minha
expressão, que ainda interrogava, respondeste com uma das tantas leituras
velozes que nós dois fazemos dentro da nossa cabeça. E para te fazer perceber
que tinha entendido pus-me também a olhar todas aquelas corridas desenfreadas
da Telma.
Romana Petri (2006). Regresso à
Ilha. Lisboa: Cavalo de Ferro Editores, Lda. pp. 5-6.
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