quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Super-Homem

Nova capa da autoria de Jim Lee, inspirada em O Beijo de Gustav Klimt


Jim Lee (2012). DC Comics.


Páginas Paralelas:
Gustav Klimt, O Beijo
























Der Kuss 1908
180 x 180 cm
Oil on canvas
Österreichische Galerie Belvedere, Vienna

quarta-feira, 21 de novembro de 2012


Mário-Henrique Leiria (1994). Novos Contos do Gin (4ª Ed.). Lisboa:
Editorial Estampa. p. 159. [Publicado pela primeira vez em 1973]

terça-feira, 20 de novembro de 2012


Regresso à Ilha

Romana Petri

Desta vez não é propriamente Verão, é uma Primavera avançada de fim de Maio. Nem sequer devia ir ao Pico, devia ir apenas ao Faial apresentar o livro que te dediquei. Mas depois aconteceu aquela coisa estranha na Feira do Livro, em Lisboa. Sentei-me à mesa de apresentação e, na primeira fila, estava uma rapariga a olhar para mim. Eu também olhei para ela e então ela levantou-se, aproximou-se de mim e disse, Aproveito antes que comece a sua apresentação. Chamo-me Marta, sou prima do João Freitas.

         O resto do dia já não fez muito sentido, nem tão-pouco sei como correu aquela apresentação, pois durante o tempo todo só tu estiveste no meu pensamento. Tu a caminhares pela estrada de Arcos, com aquelas cores a mudarem constantemente o céu, o cigarro entre os lábios e o boné azul do costume na cabeça, com a inscrição já desbotada. Falava com as poucas pessoas que estavam lá, mas via-te a cambalear um pouco por causa do álcool, as tuas faces mal barbeadas, aqueles tiques de solitário que apanhaste depois da morte da Telma. Sabes bem como fazes, de súbito, pões-te a falar sozinho e imediatamente depois paras porque te apercebes disso e sentes vergonha. Explicaste-me uma vez como isso te acontece, disseste-me, Acontece que ouço a minha voz falar alto dentro da minha cabeça, troco os pensamentos com a voz, e por isso ponho-me a responder. Mas isso acontece quando bebo de mais. E depois ao ouvir a minha voz verdadeira responder aos meus pensamentos penso que estou a enlouquecer e paro.

         Sei como fazes quando te dás conta. Tiras o boné, sacode-lo com raiva numa coxa, passas a mão na testa suada. E ficas assim por um pouco, sob aquele céu que corre. Depois voltas a pô-lo e continuas a caminhar batendo os pés com força no chão, levantando a terra vermelha de Arcos. Chegas ao poço, sentas-te no beiral, pegas no copo de lata amarrado à corda, lança-lo à água, puxa-lo para cima quando está cheio para beber apenas um gole. Com o resto lavas a cara, e, o copo, deixa-lo a baloiçar no beiral do poço, agitado pelo vento que te pões a olhar. Porque sei que tu, o vento, olha-lo e vê-lo, apercebo-me disso pela expressão com que ficas nos olhos. Sei o que pensas, pensas ser o único que o consegues ver. Uma vez até te perguntei: João, como é o vento? E tu respondeste-me: Faz o que quer. E de repente fizeste um gesto com a mão a imitar a corrida do vento. Mas depois sorriste-me, porque sabias que isso não era o que eu queria saber, eu queria saber como eram os olhos e os cabelos do vento, qual era o timbre da sua voz e quantos anos lhe davas. E à minha expressão, que ainda interrogava, respondeste com uma das tantas leituras velozes que nós dois fazemos dentro da nossa cabeça. E para te fazer perceber que tinha entendido pus-me também a olhar todas aquelas corridas desenfreadas da Telma.

Romana Petri (2006). Regresso à Ilha. Lisboa: Cavalo de Ferro Editores, Lda. pp. 5-6.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012


Sombra

José Vítor Malheiros

Quando eu era pequeno, era normal ler na instrução primária textos de louvor. Louvor às mais diversas coisas. Vinham nos livros de leitura, em folhinhas avulsas, nos livros a sério que havia na biblioteca da escola, nos livrinhos da Catequese. Havia textos de propaganda política que louvavam a Pátria, o Chefe, a Mocidade ou a Igreja. Textos de fervor nacionalista que louvavam a História, a gesta heróica dos Lusitanos, os Descobrimentos. Textos de exaltação moral que louvavam as virtudes cardinais ou teologais, às vezes com bonitas histórias exemplares. E havia os textos romântico-económicos, de louvor à Natureza e às riquezas naturais, dos animais domésticos aos rios, do mar às serras. Um desses textos – e não sei se me recordo de um texto em particular ou se amalgamo vários num só – era sobre “a árvore”.

“A árvore” era um manancial de benesses e fartava-se de nos dar coisas: dava-nos a nobre madeira, com a qual se faziam móveis e alfaias diversas (não se falava de celulose nem de papel nessa altura); dava-nos a lenha, com a qual nos aquecíamos nas longas noites de inverno; dava-nos o azeite, com que nos alumiávamos na noite escura (o azeite era mais para alumiar que para pôr na salada, ainda que uma candeia fosse para mim algo com uma exclusiva existência literária); dava-nos a cortiça benfazeja, com a qual se faziam rolhas para as garrafas e tarros para transportar comida e uma quantidade de outros objectos; dava-nos os seus frutos suculentos e refrescantes, que nos saciavam a sede e apaziguavam a fome; dava-nos a sua seiva generosa, com a qual se faziam colas e borracha e rebuçados para a tosse; dava-nos a beleza incomparável dos seus ramos em flor e, no final, em jeito de clímax, oferecia-nos a sua sombra aprazível, espraiando-a debaixo dos seus ramos e convidando-nos ao doce descanso no calor das tardes de Verão.

Eu percebia que o autor do texto tinha querido estender-se ao máximo para dizer bem da árvore e que tinha ido buscar tudo aquilo de que se tinha podido lembrar e mais um par de botas. E eu achava que a madeira e a fruta até eram coisas boas, que se percebia que estivessem na lista. E até percebia que se falasse das flores, ainda que me parecesse uma coisa um bocado efeminada. Mas a sombra? A sombra? Dizer que as árvores eram boas porque davam sombra? Para mim era como elogiar a suavidade ao tacto do manto celeste ou a música perfeita dos sólidos geométricos.

O que era a sombra? A sombra não era nada e se era preciso elogiar a sombra para dizer bem das árvores era a prova de que as árvores, afinal, não davam assim tantas coisas como isso. Mas é claro que, se a ocasião se apresentasse, numa redacção, por exemplo, eu não deixava de fazer a lista completa das contribuições da árvore para a nossa felicidade, sem esquecer a malfadada sombra, não fosse a professora pôr-me “incompleto” ou acrescentar a vermelho um daqueles irritantes comentários cheios de enormes pontos de exclamação e interrogação: “E a sombra??!! Esqueceste-te da SOMBRA!!??”

Quando eu era pequeno, não sabia o que era a sombra. Quando estávamos na praia, às vezes a minha mãe dizia-me para eu ir para a sombra, que era o sítio onde estava mais escuro, mas nunca tinha percebido bem o que era, nem por que era preciso ir para lá, nem por que razão era boa, nem sabia que existia pessoas que genuinamente gostavam dela e a procuravam. A única vantagem que eu via em ir para a sombra era poder ir brincar com os meus amigos para aquele espaço secreto entre as barracas de praia e o paredão de pedra, onde estávamos protegidos dos olhares dos adultos.

A preocupação dos adultos pela sombra era algo tão misterioso para mim como o facto de o meu pai nunca atender o telefone quando estava a jantar. Qual era o problema de interromper o jantar? Qual era o problema de se levantar e ir falar ao telefone? Não percebia como é que isso lhe podia desagradar tanto. Era tão giro falar ao telefone.

Não me lembro quando comecei genuinamente a apreciar a sombra, mas foi já bem entrado na idade adulta. E, previsivelmente, com o passar dos anos, o meu gosto pela sombra foi aumentando.

Há dias dei por mim a desviar-me do meu caminho para aproveitar uns dez metros da sombra que um enorme pinheiro lançava no passeio da Rua Marquês de Fronteira e a abrandar o passo para prolongar o gozo da frescura do ar, no meio dos 38 graus inclementes desse dia de Julho. E lembrei-me daquela misteriosa sombra dos meus textos da instrução primária e pensei quantos anos tiveram de passar até que eu conseguisse perceber perfeitamente, finalmente, o que queria dizer algo tão simples e importante como isto.

José Vítor Malheiros. Sombra. Público. 31.07.2012. p. 45.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

José Saramago: 90º aniversário de nascimento



Dia do Desassossego – Manifesto

“Escrevo para desassossegar, não quero leitores conformados, passivos, resignados”, disse José Saramago pelos cantos do mundo Continuar a ler




Mais informações sobre o 90º aniversário de José Saramago neste endereço.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Manuel da Fonseca, Excerto de "O Largo"

     "Antigamente, o Largo era o centro do mundo. Hoje, é apenas um cruzamento de estradas, com casas em volta e uma rua que sobre para a Vila. O vento dá nas faias e a ramaria farfalha num suave gemido, o pó redemoinha e cai sobre o chão deserto. Ninguém. A vida mudou-se para o outro lado da Vila.
     O comboio matou o Largo. Sob o rumor do rodado de ferro morreram homens que eu supunha eternos. O senhor Palma Branco, alto, seco, rodeado de respeito. Os três irmãos Montenegro, espadaúdos e graves. Badina fraco e repontão. O Estróina, bêbado, trocando as pernas, de navalha em punho. O Má Raça, rangendo os dentes, sempre enraivecido contra tudo e todos. O lavrador de Alba Grande, plantado ao meio do Largo com a sua serena valentia. Mestre Sobral, Ui Cotovio, rufião, de caracol sobre a testa. O Acácio, o bebedola do Acácio, tirando retratos, curvado debaixo do grande pano preto. E lá no cimo da rua, esgalgado, um homem que eu nunca soube quem era e que aparecia subitamente à esquina, olhando cheio de espanto para o Largo.
     Nesse tempo, as faias agitavam-se, viçosas. Acenavam rudemente os braços e eram parte de todos os grandes acontecimentos. À sua sombra, os palhaços faziam habilidades e dançavam ursos selvagens. À sua sombra batiam-se os valentes; junto do trnco de uma faia caiu morto António Valmorim, temido pelos homens e amado pelas mulheres.
     Era o centro da Vila. Os viajantes apeavam-se da diligência e contavam novidades. Era através do Largo que o povo comunicava com o mundo. Também, à falta de notícias, era aí que se inventava alguma coisa que se parecesse com a verdade. Nada a destruía: tinha vindo do Largo. Assim, o Largo era o centro do mundo.
     Quem lá dominasse, dominava toda a Vila. [...]"
Manuel da Fonseca (1981) "O Largo", in O Fogo e as Cinzas. Lisboa: Caminho: pp.23-24

Aguarela de Leonel Borrela