sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Viagens
Marco Polo
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A cidade de Zaitun.
            Ora sabei que quando se parte de Fugiu e se passa o rio e se continua durante cinco jornadas em direcção a sudeste, continua-se a encontrar muitos castelos e cidades, onde há muita abundância de todas as coisas. Há montes, vales e planícies, bosques e muitas árvores que produzem a cânfora; e há pássaros e muitos animais. Vivem do comércio e das artes; são idólatras como os referidos mais acima. Ao fim das cinco jornadas, encontra-se uma cidade chamada Zaitun, muito grande e nobre. Aqui é o porto onde chegam todos os barcos da Índia com muitas mercadorias de pedras preciosas e outras coisas, como de pérolas grandes e boas. Este é o porto dos mercadores do Mangi, e em redor deste porto existem tantos barcos de mercadores que é uma beleza; e desta cidade vão depois para toda a província do Mangi. Por um barco carregado de pimenta, que vem de Alexandria para vir para a Cristandade, chegam a esta cidade cinquenta, porque este é um dos bons portos do mundo onde chega mais mercadoria.
            Sabei que o Grande Cã tira grande rendimento deste porto, porque de todas as coisas que aí chegam é obrigatório ter dez por cento, isto é, uma de cada dez partes de todas as coisas. Os barcos levam, pelo frete marítimo do comércio miúdo, trinta por cento, pelo da pimenta quarenta e quatro por cento, pelo comércio da madeira aloés e do sândalo e de outras mercadorias grandes, quarenta por cento; de maneira que os mercadores pagam para os barcos e para o Grande Cã, a metade de todas as coisas. Porém, o Grande Cã ganha uma grande fortuna nesta cidade.
            São adoradores de ídolos. A terra tem, em abundância, tudo o que é necessário para viver. Nesta província há uma cidade chamada Tiungiu, onde se fazem os mais belos pratos de porcelana do mundo; não se fazem em qualquer outro lugar do mundo, razão por que se levam para toda a parte. Por um grosso veneziano compram-se três, os mais belos e diversos do mundo.
            Acabámos de falar de três reinos do Mangi, isto é, Janciu, Chinsai e Fugiu; dos outros reinos não falo, porque seria longo trabalho. Mas falarei da Índia, onde existem coisas lindíssimas para recordar e eu, Marco Polo, estive aí tanto tempo que as saberei contar ordenadamente.

Marco Polo (2006). Viagens. Lisboa: Assírio & Alvim. pp. 150-151.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012


Algumas figuras do Portugal do século XX “desfilam”, desde a passada terça-feira, na nova estação de Metro do Aeroporto.
A responsabilidade é do cartoonista António, a quem o Metropolitano de Lisboa encomendou a decoração artística da nova estação.
Para a caricatura, este é sem dúvida um momento empolgante. Muitos artistas a usaram em trabalhos decorativos, numa vertente quase sempre efémera, mas é a primeira vez que ela ocupa um lugar de destaque num espaço público, com esta dimensão e de carácter permanente.
Consciente da importância deste momento, o Museu Bordalo Pinheiro considerou oportuno associar-se expondo, a partir do próximo dia 27, alguns dos estudos que o autor desenvolveu para chegar às representações definitivas que uma vez passadas à pedra deram lugar aos painéis, agora distribuídos pelo novo espaço.
Para além dos estudos de António, são também apresentados na Exposição um conjunto de fotografias que documentam os vários momentos técnicos da execução dos painéis, ou seja, todo o processo técnico que se seguiu ao processo criativo.
Por fim, são apresentados também alguns documentos utilizados neste trabalho. São fontes de inspiração a que o artista recorreu, que compreendem um conjunto diverso de suportes gráficos e permitem uma melhor percepção de todo o itinerário feito pelo caricaturista.
Disponível no site do museu: http://museubordalopinheiro.pt/0402.htm

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Viagem à roda do meu quarto
Xavier de Maistre

Capítulo I
Como é glorioso iniciar uma nova carreira, e aparecer subitamente no mundo culto, com um livro de descobertas na mão, tal um cometa inesperado que fulge no espaço!
     Não, não mais guardarei o meu livro in petto; ei-lo, senhores, leiam-no. Iniciei e terminei uma viagem de quarenta e dois dias à roda do meu quarto. As observações interessantes que recolhi e o prazer contínuo que experimentei ao longo do caminho fizeram com que desejasse torná-la pública; a certeza de ser útil conduziu-me a esta decisão. […]

Capítulo  IV
O meu quarto situa-se a quarenta e cinco graus de latitude, segundo as medições do padre Beccaria; está orientado na direcção levante-poente; forma um quadrilongo de trinta e seis passos em volta, bem rentes à parede. A minha viagem, todavia, comportará mais, pois irei atravessá-lo muitas vezes dum lado para o outro, ou então diagonalmente, sem seguir regra ou método. – Farei mesmo ziguezagues e todas as linhas possíveis em geometria, se necessidade houver. Não gosto das pessoas que são muito donas dos seus passos e das suas ideias, e que dizem: “Hoje vou fazer três visitas, escrever quatro cartas, acabar esta tarefa que comecei.” – A minha alma está largamente aberta a toda a espécie de ideias, de gostos e sentimentos; recebe muito avidamente tudo quanto se lhe apresente!... – E porque recusaria ela os prazeres espalhados ao longo do difícil caminho da vida? São tão raros, tão dispersos, que era preciso ser-se louco para não parar, desviar até o caminho para recolher todos os que estão ao nosso alcance. Em minha opinião, não há nenhum mais atraente do que andar no encalço das próprias ideias, tal como o caçador persegue a caça, sem procurar manter um dado caminho. Além disso, quando viajo no meu quarto, raramente percorro uma linha recta: vou da mesa até junto dum quadro que se encontra colocado num canto; daí parto obliquamente até à porta; mas embora ao partir a minha intenção seja a de me dirigir para ali, caso encontre a poltrona no caminho não faço cerimónia e instalo-me nela imediatamente. – Uma poltrona é um excelente móvel; sobretudo da maior utilidade para qualquer homem meditativo. […]

Capítulo XXVII
As estampas e os quadros de que acabo de falar somem-se e desaparecem ao primeiro olhar que lançamos sobre o quadro seguinte: as obras imortais de Rafael, de Corrège e de toda a escola italiana não suportariam o paralelo. Por isso o guardo sempre para o fim, como peça de reserva, quando ofereço a alguns curiosos o prazer de viajarem comigo; e posso garantir que, depois de mostrar este quadro sublime aos conhecedores e aos ignorantes, à sociedade, aos artesãos, às mulheres e às crianças, e até aos animais, vi sempre qualquer um dos espectadores manifestar, cada qual à sua maneira, sinais de prazer e espanto: tão admiravelmente ali está representada a natureza!
     Ah! que quadro vos poderíamos apresentar, senhores, que espectáculo poderíamos oferecer aos vossos olhos, senhoras, mais seguro de merecer o vosso sufrágio do que a representação fiel de vós próprios? O quadro de que vos falo consiste num espelho, e até agora ninguém ousou criticá-lo; para todos quantos o miram, é um quadro perfeito a que nada há a opor.
     […]
     Este privilégio tinha-me feito desejar a invenção de um espelho moral, onde todos os homens pudessem ver-se com os seus vícios e virtudes. Sonhava mesmo propor a qualquer academia um prémio para tal descoberta, quando reflexões mais maduras me demonstraram a sua inutilidade.
     Ai! é tão raro que a fealdade se reconheça e quebre o espelho! Em vão os espelhos se multiplicam à nossa volta e reflectem com geométrica exactidão a luz e a verdade; no momento em que os raios penetram o nosso olho e nos mostram tal como somos, o amor-próprio introduz o seu prisma enganador entre nós e a nossa imagem, e apresenta-nos uma divindade.
     […]
Xavier de Maistre (2002). Viagem à Roda do meu Quarto seguido de O Leproso da Cidade de Aosta. (Célia Henriques Trad.). Lisboa: & etc. pp. 19/25-26/71-72. [Viagem à Roda do meu Quarto foi publicado pela primeira vez em 1795]

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Almeida Garrett, Excerto de "Viagens na Minha Terra"

De como o autor deste erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter  viajado no seu quarto; e como resolveu imortalizar-se escrevendo estas suas viagens. — Parte para Santarém. — Chega ao Terreiro do Paço, embarca no vapor de Vila Nova; e o que aí Ihe sucede. — A Dedução Cronológica e a Baixa de Lisboa. — Lord Byron e um bom charuto[...]

     Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até ao quintal.
     Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de Estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei-de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica.
     Era uma ideia vaga, mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas. Abalam-me as instâncias de um amigo, decidem-me as tonterias de um jornal, que por mexeriquice quis encabeçarem desígnio político determinado a minha visita.
     Pois por isso mesmo vou: — pronunciei-me.
     São 17 deste mês de Julho, ano de graça de 1843, uma segunda-eira, dia sem nota e de boa estreia. Seis horas da manhã a dar em S. Paulo, e eu a caminhar para o Terreiro do Paço. Chego muito a horas, envergonhei os mais madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se prezam de mais matutinos homens que eu. Já vou quase no fim da praça, quando oiço o rodar grave mas pressuroso de uma carroça d’ancien régime: é o nosso chefe e comandante, o capitão da empresa, o Sr. C. da T. que chega em estado. Também são chegados os outros companheiros: o sino dá o último rebate. Partimos.
     Numa regata de vapores o nosso barco não ganhava decerto o prémio. E se, no andar do progresso, se chegarem a instituir alguns ístmicos ou olímpicos para este género de carreiras — e, se para elas houver algum Píndaro ansioso de correr, em estrofes e antístrofes e epodos atrás do vencedor que vai coroar de seus hinos imortais — não cabe nem um triste minguado epodo a este cansado corredor de Vila Nova. É um barco sério e sisudo que se não mete nessas andanças.
     Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e pitoresco anfiteatro de Lisboa oriental, que é, vista de fora, a mais bela e grandiosa parte da cidade, a mais característica, e onde, aqui e ali, algumas raras feições se percebem, ou mais exactamente se adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das crónicas. Da Fundição para baixo tudo é prosaico e burguês, chato, vulgar e sensabor como um período da Dedução Cronológica, aqui e ali assoprado numa tentativa ao grandioso do mau gosto como alguma oitava menos rasteira do Oriente.
     Assim o povo, que tem sempre melhor gosto e mais puro do que essa escuma descorada que anda ao de cima das populações, e que se chama a si mesma por excelência a Sociedade, os seus passeios favoritos são a Madre de Deus e o Beato e Xabregas e Marvila e as hortas de Chelas. A um lado a imensa majestade do Tejo em sua maior extensão e poder, que ali mais parece um pequeno mar mediterrâneo; do outro a frescura das hortas e a sombra das árvores, palácios, mosteiros, sítios consagrados todos a recordações grandes ou queridas. Que outra saída tem Lisboa que se compare em beleza com esta? Tirado Belém, nenhuma. E ainda assim, Belém é mais árido.
     Já saudámos Alhandra, a toireira; Vila Franca, a que foi de Xira, e depois da Restauração, e depois outra vez de Xira, quando a tal restauração caiu, como a todas as restaurações sempre sucede e há-de suceder, em ódio e execração tal que nem uma pobre vila a quis para sobrenome.
     — «A questão não era de restaurar nem de não restaurar, mas de se livrar a gente de um governo de patuscos, que é o mais odioso e engulhoso dos governos possíveis.»
     É a reflexão com que um dos nossos companheiros de viagem acudiu ao princípio de ponderação que eu ia involuntariamente fazendo a respeito de Vila Franca.
     Mas eu não tenho ódio nenhum a Vila Franca, nem a esse famoso círio que lá foi fazer a velha monarquia. Era uma coisa que estava na ordem das coisas, e que por força havia de suceder. Este necessário e inevitável reviramento por que vai passando o mundo, há-de levar muito tempo, há-de ser contrastado por muita reacção antes de completar-se...
     No entretanto vamos acender os nossos charutos, e deixemos os precintos aristocráticos da ré: à proa, que é país de cigarro livre.
     Não me lembra que lord Byron celebrasse nunca o prazer de fumar a bordo. É notável esquecimento no poeta mais embarcadiço, mais marujo que ainda houve, e que até cantou o enjoo, a mais prosaica e nauseante das misérias da vida! Pois num dia destes, sentir na face e nos cabelos a brisa refrigerante que passou por cima da água, enquanto se aspiram molemente as narcóticas exalações de um bom cigarro da Havana, é uma das poucas coisas sinceramente boas que há neste mundo.
     Fumemos!
[...]
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Páginas paralelas:

Propomos agora que conheça as "VIAGENS NA TERRA DELES", um blog de Hélder Beja.

Pode ainda embarcar noutras VIAGENS no Nº 4 da Revista BLIMUNDA (Setembro de 2012), publicada pela Fundação José Saramago.