sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Odisseia
Homero
RAPSÓDIA XII
Sereias, Cila, Caribdes e Vacas do Sol
[Excerto]
Logo que a nau, depois der deixar a corrente do rio Oceano, chegou às ondas do mar de vastos rumos e à ilha de Eeia, onde a madrugadora Aurora tem a sua habitação com os seus coros e o Sol enceta o seu curso, nós aportámos sobre a areia, saímos para fora na ressaca e deitámo-nos a dormir, à espera da Aurora divina. Quando apareceu a madrugadora Aurora de róseos dedos, eu enviei os meus companheiros ao palácio de Circe, em busca do cadáver de Elpenor. Em seguida, depois de cortar pedaços de madeira, queimámo-lo, onde a costa se eleva mais, ao mesmo tempo que derramávamos, entristecidos, copiosas lágrimas. Apenas o cadáver tinha sido queimado com as armas do defunto, erigimos-lhe um túmulo com uma estela sobreposta, no cimo da qual pusemos um remo de fácil manejo.
        Enquanto nos ocupávamos destas coisas, Circe, que não desconhecia a nossa chegada do Hades, apressou-se a vir trazer-nos, em companhia das suas criadas, pão, grande abundância de carne e rutilante vinho tinto. A deusa preclara, de pé, no meio de nós, disse:
        – Infelizes, que em vida baixastes à casa de Hades! Vós morrestes duas vezes, ao passo que os outros homens morrem apenas uma. Mas tomai alimento e bebei vinho, durante este dia, enquanto aqui estais. Depois, amanhã com o despontar da alva fareis viagem. Eu mostrar-vos-ei o caminho e darei todas as indicações, para que não venhais a sofrer trabalhos no mar ou na terra, por alguma funesta cilada.
        Isto disse ela; e o nosso ânimo deixou-se persuadir. Assim, pois, durante todo o dia, até ao pôr do Sol, estivemos assentados a banquetear-nos com a grande abundância de carne e com vinho saboroso; mas, logo que se pôs o Sol e a noite sobreveio, os meus companheiros deitaram-se junto das amarras da nau. A deusa, porém, tomando-me pela mão, fez-me assentar longe deles e, reclinada à minha beira, interrogou-me sobre a viagem; e eu respondi-lhe, como convinha. A veneranda Circe disse-me, então, estas palavras:
        – Foi, portanto, assim que se realizou essa viagem. Agora escuta o que te vou dizer e que um deus há-de recordar-te, um dia.
        Encontrarás, primeiro, as Sereias, que encantam a todos os homens que se aproximam delas. Aquele que, sem saber, for ao seu encontro e lhes ouvir a voz, esse não voltará a casa, nem a mulher e os inocentes filhos o rodearão, alegres; mas será encantado pelo seu canto sonoro. Elas estão assentadas num prado, junto de um grande monte de ossos de homens em putrefacção, cujas carnes vão desaparecendo. Passa de lado e tapa os ouvidos dos teus companheiros com cera amolecida, para que nenhum deles as oiça. Tu ouve-as, se quiseres, depois de te prenderem os pés e as mãos, erecto, junto ao mastro, e de teres sido ligado com cordas a ele, para que te possas deleitar com a voz das Sereias. Se, porém, pedires e ordenares aos companheiros que te soltem, prendam-te, então, com mais ligaduras ainda.
        Depois de teres passado pelas Sereias, não te direi com clareza qual de dois caminhos deverás seguir; decide isso tu próprio no teu coração, que eu só quero falar-te a respeito de um e doutro. […]
Homero  (1964). Odisseia (6ª Ed.). (E. Dias Palmeira e M. Alves Correia, Trad. do grego). Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora. pp. 167-168.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O Barco Bêbado
Jean-Arthur Rimbaud
[excerto]


Mais doce que à criança as ácidas maçãs,
De água verde se inundava o meu casco de pinho
E nódoas de vinho azuis e vomições malsãs
Me lavou levando, âncora e leme, de caminho.

E desde logo fui banhado dentro deste Poema
De Mar infuso em estrelas, e tão latescente,
Devorador da imensa lazulita verde; onde, suprema,
Flutua uma afogada forma, às vezes descendente.



                                               Plus douce qu’aux enfants la chair des pommes sûres
                                               L’eau verte penetra ma coque de sapin
Et des taches de vins bleus et des vomissures
Me lava, dispersant gouvernail et grappin.

Et dès lors, je me suis baigné dans le Poème
De la Mer, infusé d’astres, et lactescent,
Dévorant les azurs verts; où, flottaison blême
Et ravie, un noyé pensif parfois descend.



Jean-Arthur Rimbaud (1985), O Braco Bêbado / Le Bateau Ivre. (Edição Bilingue; Pedro José Leal, Tad.). Lisboa, Hiena Editora. s/p.
Leia todo o poema em francês e conheça mais sobre este autor.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Nau Catrineta
(Lenda recolhida  por Almeida Garrett)

Lá vem a nau Catrineta
Que tem muito que contar!
Ouvide, agora, senhores,
Uma história de pasmar.

Passava mais de ano e dia
Que iam na volta do mar
Já não tinham que comer,
Já não tinham que manjar.

Deitaram sola de molho
Para o outro dia jantar;
Mas a sola era tão rija
Que a não puderam tragar.

Deitaram sorte à ventura
Qual se havia de matar;
Logo foi cair a sorte
No capitão general.

Sobe, sobe, marujinho,
Àquele mastro real,
Vê se vês terras de Espanha,
As praias de Portugal.

"Não vejo terras de Espanha,
Nem praias de Portugal;
Vejo sete espadas nuas
Que estão para te matar".

Acima, acima gajeiro,
Acima ao tope real!
Olha se enxergas Espanha,
Areias de Portugal

"Alvíssaras, capitão,
Meu capitão general!
Já vejo terra de Espanha,
Areias de Portugal.

Mais enxergo três meninas
Debaixo de um laranjal:
Uma sentada a coser,
Outra na roca a fiar,
A mais formosa de todas
Está no meio a chorar".

--Todas três são minhas filhas,
Oh! quem mas dera abraçar!
A mais formosa de todas
Contigo a hei-de casar.

"A vossa filha não quero,
Que vos custou a criar".
-- Dar-te-ei tanto dinheiro,
Que o não possas contar.

"Não quero o vosso dinheiro,
pois vos custou a ganhar!
-- Dou-te o meu cavalo branco,
Que nunca houve outro igual.

"Guardai o vosso cavalo,
Que vos custou a ensinar".
--Dar-te-ei a nau Catrineta
Para nela navegar.

"Não quero a nau Catrineta
Que a não sei governar".
Que queres tu, meu gajeiro,
Que alvíssaras te hei-de dar?
"Capitão, quero a tua alma
Para comigo a levar".

Renego de ti, demónio,
Que me estavas a atentar!
A minha alma é só de Deus,
O corpo dou eu ao mar.

Tomou-o um anjo nos braços,
Não o deixou afogar.
Deu um estouro o demónio,
Acalmaram vento e mar;
E à noite a nau Catrineta
Estava em terra a varar.

Disponível em http://web.educom.pt/~pr2003/2000/decc/lendas/nau_catrineta.htm

Página paralela:
Fausto, A Nau Catrineta, do álbum “Histórias de Viageiros” (1979).

terça-feira, 18 de setembro de 2012

O barco vai de saída
Fausto

O barco vai de saída
Adeus ao cais de Alfama
Se agora ou de partida
Levo-te comigo ó cana verde
Lembra-te de mim ó meu amor
Lembra-te de mim nesta aventura
P'ra lá da loucura
P'ra lá do Equador

Ah mas que ingrata ventura
Bem me posso queixar
da Pátria a pouca fartura
Cheia de mágoas ai quebra-mar
Com tantos perigos ai minha vida
Com tantos medos e sobressaltos
Que eu já vou aos saltos
Que eu vou de fugida

Sem contar essa história escondida
Por servir de criado essa senhora
Serviu-se ela também tão sedutora
Foi pecado
Foi pecado
E foi pecado sim senhor
Que vida boa era a de Lisboa


Gingão de roda batida
corsário sem cruzado
ao som do baile mandado
em terra de pimenta e maravilha
com sonhos de prata e fantasia
com sonhos da cor do arco-íris
desvaira se os vires
desvairas magias

Já tenho a vela enfunada
marrano sem vergonha
judeu sem coisa nem fronha
vou de viagem ai que largada
só vejo cores ai que alegria
só vejo piratas e tesouros
são pratas, são ouros,
são noites, são dias

Vou no espantoso trono das águas
vou no tremendo assopro dos ventos
vou por cima dos meus pensamentos
arrepia
arrepia
e arrepia sim senhor
que vida boa era a de Lisboa


O mar das águas ardendo
o delírio do céu
a fúria do barlavento
arreia a vela e vai marujo ao leme
vira o barco e cai marujo ao mar
vira o barco na curva da morte
e olha a minha sorte
e olha o meu azar

e depois do barco virado
grandes urros e gritos
na salvação dos aflitos
estala, mata, agarra, ai quem me ajuda
reza, implora, escapa, ai que pagode
rezam tremem heróis e eunucos
são mouros são turcos
são mouros acode!

Aquilo é uma tempestade medonha
aquilo vai p'ra lá do que é eterno
aquilo era o retrato do inferno
vai ao fundo
vai ao fundo
e vai ao fundo sim senhor
que vida boa era a de Lisboa

In “Por este rio acima” (1982). Disponível em http://natura.di.uminho.pt/~jj/musica/html/fausto-barcoVaiDeSaida.html.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Aventuras e Desventuras de um Abiador na Lusolândia
de José A. Teixeira

Aproveitamos para divulgar mais uma obra da autoria de um aluno do Instituto Politécnico de Beja, do curso de Turismo, também ela ligada às viagens…

Trata-se de Aventuras e Desventuras de um Abiador na Lusolândia, de José A. Teixeira, lançado no passado dia 8 de setembro, em Lisboa.


A crónica confere ao autor a ligeireza e o à-vontade da comunicação.
Neste livro são narrados de forma despretensiosa algumas das histórias que o autor vivenciou durante mais de trinta anos como Controlador de Tráfego Aéreo. No meio do stress diário que compõe esta profissão, existe o imprevisto, o sentido do dever e também a componente da nossa vida que não podemos esquecer: a boa disposição. Uma profissão tão exigente também pode ser um foco de histórias e desacertos. Nos tempos difíceis que correm, um sorriso ainda relaxa os músculos da face e contribui para diminuir o stress, melhora a circulação sanguínea e ajuda a sacudir o tédio.
Os portugueses, os americanos, os egípcios, os marroquinos, todos diferentes e juntos nas mesmas histórias, dão um tom colorido a este mundo cada vez mais cinzento.
Texto disponível no site da Editora.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A propósito de outras viagens...

Frédéric Kelzank Ravach foi aluno do Instituto Politécnico de Beja onde se licenciou em Artes Plásticas e Multimédia, tendo prosseguido os seus estudos de Animação na Bélgica.

Agora vem propor-vos a participação na sua primeira curta-metragem, pelo processo de crowdfunding de que já aqui falámos.

Colabore! Veja como...

Kelzang présente

Shua

SHUA, the boy who was never born, est le premier court-métrage écrit et réalisé par Kelzang Ravach. Shua est un petit garçon de 7 ans qui gambade dans les rues d’une grande métropole, il s’imagine orchestrer la ville, les portes automatiques, les escaliers roulants, les ascenseurs , mais voila qu’un jour, un train prend son envol devant ses yeux! Le petit garçon est entrainé dans un voyage sans dessus-dessous, au coeur d’un monde aux antipodes du sien. Il va y rencontrer une ribambelle de personnages loufoques et se trouvera confronté au paradoxe, à l’absurde et à l’étrange…