quarta-feira, 25 de julho de 2012

As Cidades Invisíveis
Italo Calvino

Diomira, Doroteia, Zaira, Anastácia, Tamara, Maurília, Fedora, Olívia, Aglaura, Ersília, Bauci, Melânia, Adelma, Trude, Raissa, Teodora, Berenice… não… não são nomes de mulheres… são as cidades invisíveis que Marco Polo descreve a Kublai Kan… as visões que Italo Calvino nos passa de ambientes deste e do outro mundo.
“Chegando a qualquer nova cidade o viajante reencontra o seu passado que já não sabia que tinha: a estranheza do que já não somos ou já não possuímos espera-nos ao caminho nos lugares estranhos e não possuídos.”
(p. 30)

As cidades e a memória.    2.
O homem que cavalga longamente por terrenos bravios sente o desejo de uma cidade. Finalmente chega a Isidora, cidade onde os prédios têm escadas de caracol encrustadas de búzios marinhos, onde se fabricam artísticos óculos e violinos, onde quando o forasteiro está indeciso entre duas mulheres encontra sempre uma terceira, onde as lutas de galos degeneram em brigas sangrentas entre os apostantes. Era em todas estas coisas que ele pensava quando desejava uma cidade. Assim Isidora é a cidade dos seus sonhos: com uma diferença. A vida sonhada continha-o jovem; a Isidora chega em idade tardia. Na praça há um paredão dos velhos que vêem passar a juventude; ele está sentado em fila com eles. Os desejos já são recordações. (p. 12)
As cidades e os sinais.    2.
Da cidade de Zirma os viajantes tornam com recordações bem distintas: um negro cego a gritar no meio da multidão, um louco a debruçar-se do terraço de um arranha-céus, uma rapariga a passear com um puma pela trela. Na realidade muitos dos cegos que batem as bengalas nas calçadas de Zirma são negros, em cada arranha-céus há sempre alguém que enlouquece, todos os loucos passam horas nos terraços, não há puma que não seja criado por um capricho de rapariga. A cidade é redundante: repete-se para que haja qualquer coisa que se fixe na mente.
Eu também estou de regresso de Zirma: A minha recordação compreende dirigíveis que voam em todos os sentidos á altura das janelas, ruas de lojas onde desenham tatuagens na pele aos marinheiros, comboios subterrâneos apinhados de mulheres obesas cheias de calor. Em contrapartida, os companheiros que estavam comigo na viagem juram que viram um único dirigível pairar por entre os pináculos da cidade, um único tatuador colocar na banca agulhas e tintas e desenhos perfurados, uma única mulher-canhão a abanar-se na plataforma de uma carruagem. A memória é redundante: repete os sinais para que a cidade comece a existir. (p. 23)
As cidades e o desejo.    5.
Dali, ao cabo de seis dias e sete noites o homem chega a Zobaida, cidade branca, bem exposta à lua, com ruas que se viram sobre si próprias como num cotovelo. Conta-se isto da sua fundação: homens de nações diferentes tiveram um sonho igual, viram uma mulher correr de noite por uma cidade desconhecida, por trás, de cabelos compridos, e estava nua. Sonharam que a seguiam. Ora um ora outro, todos a perderam. Depois do sonho andaram à procura dessa cidade. Não a descobriram mas encontraram-se uns aos outros; decidiram construir uma cidade como a do sonho. Na disposição das ruas cada um refez o percurso da sua perseguição; no ponto que tinha perdido o rasto da fugitiva ordenou diferentemente do sonho os espaços e as paredes de modo que ela já não lhe pudesse fugir.
Esta passou a ser a cidade de Zobaida em que se estabeleceram à espera de que uma noite se repetisse aquela cena. Nenhum deles, nem em sonhos nem acordado, voltou a ver essa mulher. As ruas da cidade eram as mesmas em que eles iam para o trabalho todos os dias, já sem nenhuma relação com a perseguição sonhada. Que de resto já tinha sido esquecida hà muito tempo.
Chegaram mais homens de outros países, que haviam tido um sonho como o deles, e na cidade de Zobaida reconheciam algo das ruas do sonho, e mudavam de lugar pórticos e escadas para que se parecessem mais com o caminho da mulher perseguida e para que no ponto em que desaparecera já não tivesse saída.
Os primeiros chegados não compreendiam o que atraía esta gente a Zobaida, a esta feia cidade, a esta ratoeira. (pp. 47-48)
As cidades e as trocas.    3.
Entrado no território que tem Eutrópia por capital, o viajante vê não uma cidade mas muitas, de igual grandeza e não diferentes umas das outras, espalhadas por um vasto e ondulado planalto. Eutrópia é não uma mas sim todas estas cidades juntas; uma só é habitada, as outras estão vazias; e isto faz-se por rotação. Vou contar como. No dia em que os habitantes de Eutrópias se sentem atacados por cansaço, e já ninguém suporta o seu ofício, os parentes, a casa e a rua, as dívidas, a gente que deve cumprimentar ou que o cumprimenta, então todos estes cidadãos decidem transferir-se para a cidade vizinha que está ali à espera, vazia e como nova, onde cada um tomará outro ofício, outra mulher, verá outra paisagem ao abrir a janela, passará as noites com outros passatempos amizades maledicências. Assim a sua vida renova-se de mudança em mudança, entre cidades que devido às exposição ou ao declive ou aos cursos de água ou aos ventos se apresenta cada uma com qualquer diferença das outras. Sendo a sua sociedade ordenada sem grandes diferenças de riqueza ou de autoridade, as passagens de uma função para outra dão-se quase sem abalos; a variedade é assegurada pelas múltiplas incumbências, de tal modo que no espaço de uma vida raramente se regressa a um ofício que já tenah sido o seu.
Assim a cidade repete a sua vida sempre igual deslocando-se para baixo e para cima sobre o seu tabuleiro de xadrez vazio. Os habitantes voltam a representar as mesmas cenas com actores mudados; tornam a dizer as mesmas frases com entoações diferentes combinadas: abrem boiças alternadas em iguais bocejos. Sozinha entre todas as cidades do império, Eutrópia permanece idêntica a si própria. Mercúrio, deus dos volúveis, ao qual é consagrada a cidade, fez este ambíguo milagre. (pp. 66-67)
As cidades e os olhos.    2.
É o humor de quem a olha que dá à cidade de Zemrude a sua forma. Se passarmos por ela a assobiar de nariz no ar atrás do assobio, conhecê-la-emos de baixo para cima: sacadas, tendas a ondular, repuxos. Se caminharmos através dela de queixo contra o peito, com as unhas espetadas nas palmas das mãos, os nossos olhares prender-se-ão ao chão, aos regos de água, aos esgotos, à tripas de peixe, ao papel velho. Não se pode dizer que um aspecto da cidade seja mais verdadeiro do que o outro, mas de Zemrude de cima ouve-se falar sobretudo a quem se lembra dela afundando-se na Zemrude de baixo, percorrendo todos os dias os mesmos caminhos e reencontrando de manhã o mau humor da véspera incrustado nas paredes. Para todos mais tarde ou mais cedo chega o dia em que baixaremos os olhos ao longo dos canos dos algerozes e já não conseguiremos afastá-los da calçada. Não está excluído o caso inverso, mas +e mais raro: por isso continuamos a andar pelas ruas de Zemrude com os olhos que agora já escavam por baixo das caves, dos alicerces, dos poços. (p. 68)
As cidades subtis.    5.
Se quiserem acreditar, muito bem. Agora vou contar como é Octávia, cidade teia de aranha. Há um precipício no meio de duas montanhas escarpadas: a cidade está situada sobre o vácuo, ligada aos dois cumes por teleféricos e correntes e passarelas. Caminha-se sobre as travessas de madeira, com cuidado para não meter os pés nos intervalos, ou agarrados à malhas de cânhamo. Por baixo não há nada por centenas e centenas de metros; corre uma ou outra nuvem; entrevê-se mais abaixo o fundo do precipício.
Esta é a base da cidade: uma rede que serve de passagem e de apoio. Tudo o resto, em vez de se elevar por cima, está pendurado por baixo: escadas de corda, camas de rede, tendas suspensas, cabides,  terraços com barcas, odres de água, bicos de gás, espetos, cestos pendurados por cordéis, monta-cargas, duches, trapézios e aros para os jogos, teleféricos, candelabros, vasos com plantas de folhagens pendulares.
Suspensa sobre o abismo, a vida dos habitantes de Octávia é menos incerta que noutras cidades. Sabem que mais do que um certo ponto a rede não aguenta. (p. 77)

[Marco Polo em conversa com Kublai Kan, no final da obra] O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar. (p. 166 – último parágrafo)

Italo Calvino (2006). As Cidades Invisíveis (6ª Ed.). (José Colaço Barreiros, Trad.). Lisboa: Teorema.
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Now travel to Malbork or just Outside the town of Malbork and take a look at a wide array of information on Italo Calvino (enough to keep you busy the whole summer).

terça-feira, 24 de julho de 2012

Três Mochileiros em Huahine
Gonçalo Cadilhe
(…)
Cheguei num cargueiro à ilha de Huahine. Saímos ao fim da manhã do porto de Papeete. Não tinha uma hora precisa de saída, era chegar cedo e sentar-se nas docas à espera. Foi aí que conheci o Peter, o americano. Viajava também para Huahine, onde chegámos já noite avançada. Tomo, o japonês, conhecemo-lo mais tarde, já instalados na pensão para mochileiros da Guynette. Ficámos amigos: alugámos um carro juntos, cozinhámos a quatro mãos e partilhámos o mesmo dormitório. Reparo agora com um sorriso: cada um de nós representava uma forma particular de enfrentar o mundo. Se uma qualquer enciclopédia apresentasse uma tipologia do viajante, cada um de nós ia parar a uma entrada diferente.
Peter tinha trabalhado largos anos num projecto de uma obra pública na Califórnia do Sul. Era engenheiro civil e tinha ganhado bom dinheiro com esse contrato. Quando terminou, não procurou emprego de imediato. Decidiu viajar por um ano à volta do mundo, escolhendo alguns destinos que lhe interessavam particularmente. Já estava na recta final da sua viagem, ali no meio do Pacífico. Tinha dado a sua volta ao mundo seguindo para leste e o próximo voo que iria apanhar seria já directo a Los Angeles, à vidinha de todos os dias. Havia uma sofreguidão no seu olhar que deve ser a do condenado à morte quando se atira à sua última refeição. Peter andava inquieto, nervoso, inconformado.
Tomo era o oposto do Peter: seráfico, imperturbável, introspectivo e sem voo de regresso marcado. Tal como o Peter, caminhava para leste: só que leste, para o Tomo, era a direcção contrária à da sua casa. Enquanto Peter acumulara um bolo monetário e ao longo de um ano gastara-o, estando já nas migalhas, o Tomo viajava com migalhas. Trazia um cartaz consigo e um banco. O cartaz dizia: «Massagens shiatsu, dez dólares – vinte minutos.» O banco era onde os clientes se sentavam. Tomo estacionava nas praças centrais das aldeias do mundo e esperava pelos clientes. Quando tinha migalhas suficientes, Tomo prosseguia mais uns quilómetros. Sem pressas.
Eu estava no meio destes dois modos de viajar. Tinha bilhete de regresso, mas cada regresso era também uma nova partida. Viajava não pela viagem em si, como eles, mas pelo projecto de trabalho que ela proporcionava: na altura, uma reportagem para uma revista; anos depois, a biografia de um navegador para um livro; actualmente, um documentário para a RTP2. O Peter tinha o horizonte fechado, o Tomo tinha-o aberto. Eu tinha de abrir horizontes com cada novo projecto de viagem, cada nova reportagem, cada novo livro ou documentário. O Peter era o destino, o Tomo era a viagem. Eu era a viagem com destino.
Tantos anos depois, quem sabe por onde andará cada um deles? Terá Peter partido para uma nova viagem? Terá Tomo encontrado uma chegada? Eu continuo a dar significado a cada partida com a chegada, a dar uma razão a cada viagem com o seu destino, a financiar cada errância geográfica com uma severa rotina profissional. Três entradas possíveis numa qualquer enciclopédia com a tipologia do viajante.
Gonçalo Cadilhe (2011). Três Mochileiros em Huahine. Encontros Marcados. Lisboa: Clube do Autor. pp. 37-38.
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Vá ao Site Oficial de Gonçalo Cadilhe e faça boas viagens na sua companhia.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Desejamos aos nossos leitores umas boas férias e dedicamos esta última semana às viagens.

“Viajar serve para encontrar o que não se procura.”
(Gonçalo Cadilhe)


Até Setembro!


Viagem a Portugal
de

José Saramago
[excerto]

DE NORDESTE A NOROESTE, DURO E DOURADO

O sermão aos peixes

De memória de guarda da fronteira, nunca tal se viu. Este é o primeiro viajante que no meio do caminho pára o automóvel, tem o motor já em Portugal, mas não o depósito da gasolina, que ainda está em Espanha, e ele próprio assoma ao parapeito naquele exacto centímetro por onde passa a invisível linha da fronteira. Então, sobre as águas escuras e profundas, entre as altas escarpas que vão dobrando os ecos, ouve-se a voz do viajante, pregando aos peixes do rio:
«Vinde cá, peixes, vós da margem direita que estais no rio Douro, e vós da margem esquerda que estais no rio Duero, vinde cá todos e dizei-me que língua é a que falais quando aí em baixo cruzais as aquáticas alfândegas, e se também lá tendes passaportes e carimbos para entrar e sair. Aqui estou eu, olhando para vós do alto desta barragem, e vós para mim, peixes que viveis nessas confundidas águas, que tão depressa estais duma banda como da outra, em grande irmandade de peixes que uns aos outros só se comem por necessidade de fome e não por enfados de pátria. Dais-me vós, peixes, uma clara lição, oxalá não a vá eu esquecer ao segundo passo desta minha viagem a Portugal, convém a saber: que de terra em terra deverei dar muita atenção ao que for igual e ao que for diferente, embora ressalvando, como humano é, e entre vós igualmente se pratica, as preferências e as simpatias deste viajante, que não está ligado a obrigações de amor universal, nem isso lhe pediu. De vós, enfim, me despeço, peixes, até um dia, ide à vossa vida enquanto por aí não vêm os pescadores, nadai felizes, e desejai-me boa viagem, adeus, adeus.»

José Saramago [1981]. Viagem a Portugal. Lisboa: Editorial Caminho. p. 7.
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Nestas férias, voltemos à Fundação José Saramago a ver o que lá se passa.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Graffiti “em baixo relevo”

[se nos é permitida a designação, e apenas para que se perceba a técnica utilizada]
ou “arqueologia” mural, como alguém lhe chamou


Hoje damos uma vista de olhos ao trabalho deste original artista português:

Alexandre Farto ou Vhils



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