terça-feira, 24 de julho de 2012

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Desejamos aos nossos leitores umas boas férias e dedicamos esta última semana às viagens.

“Viajar serve para encontrar o que não se procura.”
(Gonçalo Cadilhe)


Até Setembro!


Viagem a Portugal
de

José Saramago
[excerto]

DE NORDESTE A NOROESTE, DURO E DOURADO

O sermão aos peixes

De memória de guarda da fronteira, nunca tal se viu. Este é o primeiro viajante que no meio do caminho pára o automóvel, tem o motor já em Portugal, mas não o depósito da gasolina, que ainda está em Espanha, e ele próprio assoma ao parapeito naquele exacto centímetro por onde passa a invisível linha da fronteira. Então, sobre as águas escuras e profundas, entre as altas escarpas que vão dobrando os ecos, ouve-se a voz do viajante, pregando aos peixes do rio:
«Vinde cá, peixes, vós da margem direita que estais no rio Douro, e vós da margem esquerda que estais no rio Duero, vinde cá todos e dizei-me que língua é a que falais quando aí em baixo cruzais as aquáticas alfândegas, e se também lá tendes passaportes e carimbos para entrar e sair. Aqui estou eu, olhando para vós do alto desta barragem, e vós para mim, peixes que viveis nessas confundidas águas, que tão depressa estais duma banda como da outra, em grande irmandade de peixes que uns aos outros só se comem por necessidade de fome e não por enfados de pátria. Dais-me vós, peixes, uma clara lição, oxalá não a vá eu esquecer ao segundo passo desta minha viagem a Portugal, convém a saber: que de terra em terra deverei dar muita atenção ao que for igual e ao que for diferente, embora ressalvando, como humano é, e entre vós igualmente se pratica, as preferências e as simpatias deste viajante, que não está ligado a obrigações de amor universal, nem isso lhe pediu. De vós, enfim, me despeço, peixes, até um dia, ide à vossa vida enquanto por aí não vêm os pescadores, nadai felizes, e desejai-me boa viagem, adeus, adeus.»

José Saramago [1981]. Viagem a Portugal. Lisboa: Editorial Caminho. p. 7.
Páginas Paralelas:

Nestas férias, voltemos à Fundação José Saramago a ver o que lá se passa.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Graffiti “em baixo relevo”

[se nos é permitida a designação, e apenas para que se perceba a técnica utilizada]
ou “arqueologia” mural, como alguém lhe chamou


Hoje damos uma vista de olhos ao trabalho deste original artista português:

Alexandre Farto ou Vhils



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quinta-feira, 19 de julho de 2012


Os Prazeres do Ócio

Gosto de companhia, gosto de tagarelar e que tagarelem comigo. Adoro deixar-me ficar sentado à volta de uma mesa e de me deixar envolver de tal forma no momento, que perco a noção do tempo, até alguém dizer com surpresa: já são duas!!

Tom Hodgkinson (2005). Os Prazeres do Ócio

Fonte: escrito numa das paredes do Restaurante/Bar/Bistro Quotidiano (Alcântara, Lisboa)
Páginas Paralelas:

Porque as férias se aproximam, e porque as férias convidam ao ócio... e à leitura...

The Idler, a revista criada pelo britânico Tom Hodgkinson em 1993

Tom Hudgkinson on idleness (video)

Some essays from The Idler, by Samuel Johnson (1709-1784)

Bertrand Russell (1932). “In Praise of Idleness” (audio)

Bertrand Russell (1932). “In Praise of Idleness” – transcript

Excerpt: “In a world where no one is compelled to work more than four hours a day, […] teachers will not be exasperatedly struggling to teach by routine methods things which they learnt in their youth, which may, in the interval, have been proved to be untrue.”

And he finishes his reflection this way: “Modern methods of production have given us the possibility of ease and security for all; we have chosen, instead, to have overwork for some and starvation for others. Hitherto we have continued to be as energetic as we were before there were machines; in this we have been foolish, but there is no reason to go on being foolish forever.”
[this in 1932…]

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Lindstrom.“65% das marcas que compramos em adulto foram decididas aos 6 anos”

Por Vanda Marques,
ionline, 3 Jul 2012

Investigador, marketeer, consultor e um dos maiores gurus do branding, o dinamarquês Martin Lindstrom foi considerado pela revista “Time” uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. O autor tem um novo livro e conversou com o i sobre como as marcas nos fazem lavagem ao cérebro
Aditivos na comida, nos batons e sentimentos de culpa. Vale tudo. O marketing é um assunto sério e Martin Lindstrom, publicitário dinamarquês, que trabalhou na Disney, PepsiCo, McDonalds e Microsoft, conta como é que as marcas nos andam a dar a volta. O livro “Brandwashed – Os Truques de Marketing que as Empresas usam para Manipular as Mentes” pode assustá-lo, mas é uma chamada de atenção para a forma como consumimos. Depois de ter estado um ano em celibato de marcas, Martin Lindstrom, eleito em 2009 uma das 100 pessoas mais influentes no mundo pela revista “Time”, quer tornar-nos mais conscientes. Em entrevista ao i explicou que é fácil reduzir as compras irreflectidas. Podemos começar por coisas tão simples como usar dinheiro e não o cartão e ouvir música que não gostamos: vai comprar menos 19%.

No livro diz que as nossas preferências por marcas surgem quando somos crianças. Como é possível?
Há algumas marcas que nos influenciam até quando estamos na barriga da mãe?

Isso acontece porque somos influenciados pelo sabor da comida ou pelos sons quando ainda estamos no útero. Estes sons criam-nos predisposições para certas coisas, como por exemplo música e até preferências de sabores. As marcas vão se tornando cada vez mais sofisticadas e começamos a ver como criam sons e sabores para chegarem ao útero. Assustador. Não são muitas as que fazem isto, mas há algumas que revelo no meu livro.
Quer dizer que somos viciados em marcas?

Sim, somos. As marcas dão-nos uma sensação de confiança e quanto mais pressionados nos sentimentos, mais confiamos nas marcas. Hoje sabemos que os jovens ficam mais viciados em marcas quanto menor é a sua autoconfiança e pelo caminho vão comprar ainda mais. Cerca de 70% dos miúdos sentem pressão na escola para vestir as marcas certas. É como um uniforme, ou usas o cool ou não fazes parte da tribo.
Como é que as empresas nos fazem uma lavagem ao cérebro?

Este é o meu sexto livro, depois de trabalhar durante 25 anos com marcas em todo o mundo, penso que é importante que os consumidores saibam o que se passa nos bastidores das empresas e ao mesmo tempo pressioná-las para que ponham a casa em ordem. Podemos dizer que todos achamos que somos imunes à publicidade, mas descobri – em parte porque fiz as minhas próprias experiências quando estive na desintoxicação de marcas – que não conseguimos viver sem marcas. Ainda mais importante é que quando acreditamos que somos imunes é quando estamos mais susceptíveis. A mensagem do meu livro é para que as pessoas tomem consciência do que se passa e se tornem consumidores informados e não ingénuos.
Quais são os principais truques utilizados pelas marcas para nos manipular?

Medo e culpa. Ao incutir medo em todas as mensagens somos 10 vezes mais capazes de escolher qualquer oferta que haja por aí. O medo de envelhecermos, engordarmos, ficarmos sozinhos, ser impopulares, ter uns filhos falhados. A culpa é um vírus em crescimento, principalmente entre as mulheres. Como forma de remover alguma dessa culpa, as marcas oferecem “soluções” – muitas vezes soluções que não resolvem nada. A culpa pode ser desde “não sou uma boa mãe”, a ter “problemas com o meu corpo”, a “não sou uma boa mulher”. E a ideia é: compra a marca X e vais ser feliz.
Mas como é que se mantém essa relação com a marca? Uma coisa é um impulso, uma vez.

Ao copiar o consumidor e as suas necessidades e ao criar uma imagem aspiracional, da qual gostaríamos de fazer parte. Deixa-me explicar: quando sentimos que a pessoa com quem estamos a falar realmente nos entende, vamos ouvi-la e aceitar os seus conselhos. Em segundo lugar, se for alguém que admiramos que queremos ser como ela ou segui-la. Estes são os fundamentos das marcas.
As marcas também criam necessidades que não temos, objectos que nem precisamos. Como é que o conseguem?

Vêm-me à cabeça uma tonelada de formas, umas boas e outras menos apelativas. Por exemplo, a Apple. Muitas pessoas amam a marca, é fácil de usar, tem um design incrível e é inovadora. No entanto, nos bastidores há muito mais a acontecer. Quando compras um produto da Apple ficas, de certa forma, preso. A Apple só funciona com a Apple. Só o iTunes funciona, só um staff autorizado da Apple pode abrir e mudar a bateria do teu iPod. Além disso, a marca cria uma segunda camada de necessidade, ou seja, precisamos de estar sempre a comprar o último modelo. Se não tens o iPhone 4S sentimo-nos um fracassado. Uma necessidade pode ser criada de várias maneiras.
Para o livro estudou várias marcas. Qual foi a que mais o surpreendeu?

De longe, a Carmex. É uma marca de batons que tem aditivos. Claro que a empresa argumenta que é mentira mas depois de inúmeras investigações e entrevistas com especialistas é óbvio que tem de existir um pouco de verdade aqui, porque quem começa a usar batons da Carmex não consegue parar.
No livro fala ainda de snacks e chocolates que têm substâncias viciantes. As empresas não acham que isso é ir longe de mais?

Algumas sim, outras não. Não preciso de dar exemplos como os cigarros, o álcool, talvez a moda, os produtos farmacêuticos, sem esquecer a moda dos upgrades dos gadgets. O vício tem dimensões muito diferentes.
Na publicidade aparecem muitas celebridades. Isso ajuda a vender?

Claro, e cada vez mais porque precisamos de líderes na nossa sociedade. Como já não confiamos nos políticos e as famílias reais são limitadas – a próxima geração de famílias reais são celebridades – precisamos de alguém em quem confiar, seguir e admirar para ganharmos autoconfiança.
Então quer dizer que sempre que compramos não o fazemos de forma racional?

Sabemos hoje que 85% das nossas decisões são tomadas inconscientemente, ou seja, feitas sem a nossa percepção. As marcas vivem nesse espaço, porque resumem-se a sentimentos.
Como é podemos ser consumidores mais inteligentes e menos ingénuos?

Arrisco-me a dizer, fora de brincadeiras, que será ao lerem “Brandwashed”. Mesmo assim, aqui ficam alguns conselhos:
1. Pagar em dinheiro. Ao pagar em dinheiro garantimos um relacionamento seguro e real com o dinheiro e dessa forma gastas menos. Na nossa experiência houve uma redução de 11%

2. Usar o iPod (ou outro gadget parecido) com música muito alta, de preferência uma que não gostes. Isto vai ajudar a cortar o lado mais sedutor das compras e assim compras menos coisas, cerca de 19%
3. Nunca leves as crianças às compras, elas fazem com que compres mais, um aumento de cerca de 26%

4. Deves comer antes de ir às compras, vai fazer com que compres muito menos, não apenas comida. Reduz cerca de 22%.
5. Nunca uses um carrinho de compras, é preferível carregares as compras nos braços. Nos últimos cinco anos o tamanho dos carrinhos de compras duplicou, o que gerou um aumento de 40% nas compras.

Porque decidiu trabalhar em marketing?
Adoro marketing. Trabalho em publicidade desde os 12 anos, quando comecei a minha própria publicidade. Quando tinha 8 anos só via anúncios televisivos e apagava a televisão quando os programas começavam.

O que o atrai na publicidade?
A psicologia e a capacidade incrível para fazer alguma coisa boa de forma poderosa. Por exemplo, uma campanha anti-tabagismo ou contra a condução sob o efeito de álcool.

Trabalhou com a McDonalds para criar uma imagem mais saudável na Europa, como a mudança para a cor verde. Como foi?
Uma das minhas condições para aceitar trabalhar com a McDonalds foi a criação de um novo e mais saudável Happy Meal. Criámos alguns conceitos incríveis que ainda hoje existem.

Durante um ano viveu sem marcas. Como correu a experiência?
Foi estranho, duro e divertido. Deixei de consumir marcas simplesmente porque... bem, estava viciado. Preciso de dizer mais alguma coisa? Quero dizer, sou um brand guy viciado no meu próprio medicamento. Irónico, não?