quinta-feira, 19 de julho de 2012

Páginas Paralelas:

Porque as férias se aproximam, e porque as férias convidam ao ócio... e à leitura...

The Idler, a revista criada pelo britânico Tom Hodgkinson em 1993

Tom Hudgkinson on idleness (video)

Some essays from The Idler, by Samuel Johnson (1709-1784)

Bertrand Russell (1932). “In Praise of Idleness” (audio)

Bertrand Russell (1932). “In Praise of Idleness” – transcript

Excerpt: “In a world where no one is compelled to work more than four hours a day, […] teachers will not be exasperatedly struggling to teach by routine methods things which they learnt in their youth, which may, in the interval, have been proved to be untrue.”

And he finishes his reflection this way: “Modern methods of production have given us the possibility of ease and security for all; we have chosen, instead, to have overwork for some and starvation for others. Hitherto we have continued to be as energetic as we were before there were machines; in this we have been foolish, but there is no reason to go on being foolish forever.”
[this in 1932…]

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Lindstrom.“65% das marcas que compramos em adulto foram decididas aos 6 anos”

Por Vanda Marques,
ionline, 3 Jul 2012

Investigador, marketeer, consultor e um dos maiores gurus do branding, o dinamarquês Martin Lindstrom foi considerado pela revista “Time” uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. O autor tem um novo livro e conversou com o i sobre como as marcas nos fazem lavagem ao cérebro
Aditivos na comida, nos batons e sentimentos de culpa. Vale tudo. O marketing é um assunto sério e Martin Lindstrom, publicitário dinamarquês, que trabalhou na Disney, PepsiCo, McDonalds e Microsoft, conta como é que as marcas nos andam a dar a volta. O livro “Brandwashed – Os Truques de Marketing que as Empresas usam para Manipular as Mentes” pode assustá-lo, mas é uma chamada de atenção para a forma como consumimos. Depois de ter estado um ano em celibato de marcas, Martin Lindstrom, eleito em 2009 uma das 100 pessoas mais influentes no mundo pela revista “Time”, quer tornar-nos mais conscientes. Em entrevista ao i explicou que é fácil reduzir as compras irreflectidas. Podemos começar por coisas tão simples como usar dinheiro e não o cartão e ouvir música que não gostamos: vai comprar menos 19%.

No livro diz que as nossas preferências por marcas surgem quando somos crianças. Como é possível?
Há algumas marcas que nos influenciam até quando estamos na barriga da mãe?

Isso acontece porque somos influenciados pelo sabor da comida ou pelos sons quando ainda estamos no útero. Estes sons criam-nos predisposições para certas coisas, como por exemplo música e até preferências de sabores. As marcas vão se tornando cada vez mais sofisticadas e começamos a ver como criam sons e sabores para chegarem ao útero. Assustador. Não são muitas as que fazem isto, mas há algumas que revelo no meu livro.
Quer dizer que somos viciados em marcas?

Sim, somos. As marcas dão-nos uma sensação de confiança e quanto mais pressionados nos sentimentos, mais confiamos nas marcas. Hoje sabemos que os jovens ficam mais viciados em marcas quanto menor é a sua autoconfiança e pelo caminho vão comprar ainda mais. Cerca de 70% dos miúdos sentem pressão na escola para vestir as marcas certas. É como um uniforme, ou usas o cool ou não fazes parte da tribo.
Como é que as empresas nos fazem uma lavagem ao cérebro?

Este é o meu sexto livro, depois de trabalhar durante 25 anos com marcas em todo o mundo, penso que é importante que os consumidores saibam o que se passa nos bastidores das empresas e ao mesmo tempo pressioná-las para que ponham a casa em ordem. Podemos dizer que todos achamos que somos imunes à publicidade, mas descobri – em parte porque fiz as minhas próprias experiências quando estive na desintoxicação de marcas – que não conseguimos viver sem marcas. Ainda mais importante é que quando acreditamos que somos imunes é quando estamos mais susceptíveis. A mensagem do meu livro é para que as pessoas tomem consciência do que se passa e se tornem consumidores informados e não ingénuos.
Quais são os principais truques utilizados pelas marcas para nos manipular?

Medo e culpa. Ao incutir medo em todas as mensagens somos 10 vezes mais capazes de escolher qualquer oferta que haja por aí. O medo de envelhecermos, engordarmos, ficarmos sozinhos, ser impopulares, ter uns filhos falhados. A culpa é um vírus em crescimento, principalmente entre as mulheres. Como forma de remover alguma dessa culpa, as marcas oferecem “soluções” – muitas vezes soluções que não resolvem nada. A culpa pode ser desde “não sou uma boa mãe”, a ter “problemas com o meu corpo”, a “não sou uma boa mulher”. E a ideia é: compra a marca X e vais ser feliz.
Mas como é que se mantém essa relação com a marca? Uma coisa é um impulso, uma vez.

Ao copiar o consumidor e as suas necessidades e ao criar uma imagem aspiracional, da qual gostaríamos de fazer parte. Deixa-me explicar: quando sentimos que a pessoa com quem estamos a falar realmente nos entende, vamos ouvi-la e aceitar os seus conselhos. Em segundo lugar, se for alguém que admiramos que queremos ser como ela ou segui-la. Estes são os fundamentos das marcas.
As marcas também criam necessidades que não temos, objectos que nem precisamos. Como é que o conseguem?

Vêm-me à cabeça uma tonelada de formas, umas boas e outras menos apelativas. Por exemplo, a Apple. Muitas pessoas amam a marca, é fácil de usar, tem um design incrível e é inovadora. No entanto, nos bastidores há muito mais a acontecer. Quando compras um produto da Apple ficas, de certa forma, preso. A Apple só funciona com a Apple. Só o iTunes funciona, só um staff autorizado da Apple pode abrir e mudar a bateria do teu iPod. Além disso, a marca cria uma segunda camada de necessidade, ou seja, precisamos de estar sempre a comprar o último modelo. Se não tens o iPhone 4S sentimo-nos um fracassado. Uma necessidade pode ser criada de várias maneiras.
Para o livro estudou várias marcas. Qual foi a que mais o surpreendeu?

De longe, a Carmex. É uma marca de batons que tem aditivos. Claro que a empresa argumenta que é mentira mas depois de inúmeras investigações e entrevistas com especialistas é óbvio que tem de existir um pouco de verdade aqui, porque quem começa a usar batons da Carmex não consegue parar.
No livro fala ainda de snacks e chocolates que têm substâncias viciantes. As empresas não acham que isso é ir longe de mais?

Algumas sim, outras não. Não preciso de dar exemplos como os cigarros, o álcool, talvez a moda, os produtos farmacêuticos, sem esquecer a moda dos upgrades dos gadgets. O vício tem dimensões muito diferentes.
Na publicidade aparecem muitas celebridades. Isso ajuda a vender?

Claro, e cada vez mais porque precisamos de líderes na nossa sociedade. Como já não confiamos nos políticos e as famílias reais são limitadas – a próxima geração de famílias reais são celebridades – precisamos de alguém em quem confiar, seguir e admirar para ganharmos autoconfiança.
Então quer dizer que sempre que compramos não o fazemos de forma racional?

Sabemos hoje que 85% das nossas decisões são tomadas inconscientemente, ou seja, feitas sem a nossa percepção. As marcas vivem nesse espaço, porque resumem-se a sentimentos.
Como é podemos ser consumidores mais inteligentes e menos ingénuos?

Arrisco-me a dizer, fora de brincadeiras, que será ao lerem “Brandwashed”. Mesmo assim, aqui ficam alguns conselhos:
1. Pagar em dinheiro. Ao pagar em dinheiro garantimos um relacionamento seguro e real com o dinheiro e dessa forma gastas menos. Na nossa experiência houve uma redução de 11%

2. Usar o iPod (ou outro gadget parecido) com música muito alta, de preferência uma que não gostes. Isto vai ajudar a cortar o lado mais sedutor das compras e assim compras menos coisas, cerca de 19%
3. Nunca leves as crianças às compras, elas fazem com que compres mais, um aumento de cerca de 26%

4. Deves comer antes de ir às compras, vai fazer com que compres muito menos, não apenas comida. Reduz cerca de 22%.
5. Nunca uses um carrinho de compras, é preferível carregares as compras nos braços. Nos últimos cinco anos o tamanho dos carrinhos de compras duplicou, o que gerou um aumento de 40% nas compras.

Porque decidiu trabalhar em marketing?
Adoro marketing. Trabalho em publicidade desde os 12 anos, quando comecei a minha própria publicidade. Quando tinha 8 anos só via anúncios televisivos e apagava a televisão quando os programas começavam.

O que o atrai na publicidade?
A psicologia e a capacidade incrível para fazer alguma coisa boa de forma poderosa. Por exemplo, uma campanha anti-tabagismo ou contra a condução sob o efeito de álcool.

Trabalhou com a McDonalds para criar uma imagem mais saudável na Europa, como a mudança para a cor verde. Como foi?
Uma das minhas condições para aceitar trabalhar com a McDonalds foi a criação de um novo e mais saudável Happy Meal. Criámos alguns conceitos incríveis que ainda hoje existem.

Durante um ano viveu sem marcas. Como correu a experiência?
Foi estranho, duro e divertido. Deixei de consumir marcas simplesmente porque... bem, estava viciado. Preciso de dizer mais alguma coisa? Quero dizer, sou um brand guy viciado no meu próprio medicamento. Irónico, não?

terça-feira, 17 de julho de 2012

Na fila de supermercado

José Vítor Malheiros

[…]
Uma fila de supermercado é uma colecção de histórias e há umas que parecem mais prometedoras do que outras. Mas nem todas são agradáveis. Nos últimos meses, as filas de supermercado contam histórias tristes.
A fila que escolhi hoje é pequena. À minha frente, está uma mulher de uns 30 ou 40 anos, elegante, com um olhar vivaz e um sorriso inteligente […] que leva meia dúzia de compras na mão […]. Está vestida com um tailleur saia-e-casaco e sapatos pretos de salto, formais, certamente por necessidade profissional. Pousa as compras no tapete e murmura qualquer coisa à empregada. Percebo que lhe pede para ir fazendo subtotais, à medida que vai registando as compras. Há vários iogurtes mas estão separados, em vez de estarem num conjunto de quatro, como na prateleira. A caixa passa várias compras e quando o subtotal atinge 3 euros e 73 cêntimos a cliente diz “está bem assim”. No tapete fica um iogurte natural e um pacote de bolachas da marca do supermercado que a caixa põe de lado num gesto rápido, numa pilha heteróclita onde há outros restos de compras. A mulher paga os 3,73 euros com Multibanco.
Esta história é sobre uma mulher elegante de 30 ou 40 anos, com um sorriso inteligente, que trabalho num sítio onde lhe exigem que vista com alguma formalidade e que só tem quatro euros no banco.

José Vítor Malheiros (03 julho 2012). Na fila de supermercado. Público. p. 49. [excerto]


segunda-feira, 16 de julho de 2012

Há-de experimentar, se fizer favor, fazer um chá como fazem os ingleses

Miguel Esteves Cardoso
Na ponta da língua

[…]
Falo do chá à inglesa. O chá é preto e pode ser tomado com leite. A altura ideal é o afternoon tea, entre as três e meia e as cinco da tarde, conforme a hora a que se almoçou.

É a refeição mais encantadora porque é roubada ao dia. Sentamo-nos à volta de uma mesa e bebemos chá acompanhado consecutivamente por sanduíches delicadas, scones com nata grossa e compotas e fatias de bolos simples, como Madeira cake.
Continue a fazer o chá como faz. Mas um dia, para variar, experimente fazê-lo como fazem os ingleses que sabem fazer chá. Beberá um chá como nunca bebeu antes. Até pode ser que goste e nunca mais seja capaz de beber o outro.

Em 1946, Orwell publicou os onze mandamentos do chá – ponha “a nice cup of tea by George Orwell” no Google que vai logo lá dar – dos quais nove ainda se recomendam.
O chá tem de ser ortodoxo, solto, de folha inteira e puro, sem aromatizantes de qualquer espécie. […] Não pode ser o chá triturado e esmigalhado, chamado CTC (“Crush, Tear, Curl” diz tudo), que é pulverizado para caber em saquetas e para fazer pseudo-chá mais depressa e barato.

[…]
Há bons chás ortodoxos de Ceilão de folha inteira (sem a inicial B de broken, a seguir ao nome). […]

Se quiser fazer a experiência por custo mínimo, compre um pacote do agradável chá Gorreana, produzido sem pesticidas na ilha de São Miguel. Tem dois de folha inteira: o Orange Pekoe e o Gorreana preto. […]
Agora já tem o chá. Falta fazê-lo e servi-lo. É aqui que tem de fazer tudo direitinho.

Precisa de um bule de porcelana, de uma peneira e de um jarro para a água quente. Precisa também de chávenas de chá, de pires e de uma leiteira.
A água tem de ser filtrada: a da torneira tem calcário a mais. O melhor sistema é o da Brita. Encha a chaleira eléctrica (a mais inglesa é de alumínio, com tampa preta, da Morphy Richards) de água filtrada. Tenha, mesmo ao lado, o bule, a medida de chá (duas colheres de sopa, bem cheias, para um bule de litro) e – a maior inglesice de todas – um jarro para a água fervida.

Quando a água estiver quase a ferver (tem de aprender a tocar de ouvido), escalde o bule. Deite-lhe água e espere até o bule queimar-lhe os dedos. Entorne-a para o jarro de água quente. Quando a chaleira der o clique que diz que “já ferveu”, deite-a imediatamente, logo a seguir ao chá que acaba de verter para o bule.
Marque três minutos. Ao fim de três minutos, deite um pouco de leite nas chávenas (antes e não depois, ao contrário do que diz Orwell, erradamente, por julgar que deitamos sempre leite de mais), dê uma volta no bule com uma colher comprida e sirva o chá através de uma peneira.  Mal tenha acabado de servir as primeiras chávenas, destape o bule e deite-lhe o equivalente em água quente, dando mais uma volta com a colher.

É este o segredo inglês […].  Sem a água acrescida, o chá “foge”, tornando-se adstringente e volátil. A água quente prende o chá e fixa-o durante mais meia hora: a meia hora do lanche, necessária para lanchar como deve ser. Se beber menos de três chávenas, é porque não fez bem o chá.
[…]

O bom chá inglês é mesmo assim: bom chá, boa água, bom resultado.
O resto é extravagância, trabalho escusado e despesa estúpida.

Miguel Esteves Cardoso (17 março 2012). Há-de experimentar, se fizer favor, fazer um chá como fazem os ingleses. Fugas – Público, p. 3.









quarta-feira, 11 de julho de 2012

Carlos Drummond de Andrade, "Poema-orelha"

Esta é a orelha do livro
por onde o poeta escuta
se dele falam mal
ou se o amam.
Uma orelha ou uma boca
sequiosa de palavras?
São oito livros velhos
e mais um livro novo
de um poeta ainda mais velho
que a vida viveu
e contudo provoca
a viver sempre e nunca.
Oito livros que o tempo
empurrou para longe
de mim
mais um livro sem tempo
em que o poeta se contempla
e se diz boa-tarde
(ensaio de bom-noite,
variante de bom-dia,
que tudo é o vasto dia
em seus compartimentos
nem sempre respiráveis
e todos habitados
enfim.)
Não me leias se buscas
flamante novidade
ou sopro de Camões.
Aquilo que revelo
e o mais que segue oculto
em vítreos alçapões
são notícias humanas,
simples estar-no-mundo,
e brincos de palavra,
um não-estar-estando,
mas que tal jeito urdidos
o jogo e a confissão
que nem ditongo eu mesmo
o vivido e o inventado.
Tudo vivido? Nada.
Nada vivido? Tudo.
A orelha pouco explica
de cuidados terrenos;
e a poesia mais rica
é um sinal de menos. 

Fonte: http://www.astormentas.com/PT/poema/10952/Poema-orelha