terça-feira, 17 de julho de 2012

Na fila de supermercado

José Vítor Malheiros

[…]
Uma fila de supermercado é uma colecção de histórias e há umas que parecem mais prometedoras do que outras. Mas nem todas são agradáveis. Nos últimos meses, as filas de supermercado contam histórias tristes.
A fila que escolhi hoje é pequena. À minha frente, está uma mulher de uns 30 ou 40 anos, elegante, com um olhar vivaz e um sorriso inteligente […] que leva meia dúzia de compras na mão […]. Está vestida com um tailleur saia-e-casaco e sapatos pretos de salto, formais, certamente por necessidade profissional. Pousa as compras no tapete e murmura qualquer coisa à empregada. Percebo que lhe pede para ir fazendo subtotais, à medida que vai registando as compras. Há vários iogurtes mas estão separados, em vez de estarem num conjunto de quatro, como na prateleira. A caixa passa várias compras e quando o subtotal atinge 3 euros e 73 cêntimos a cliente diz “está bem assim”. No tapete fica um iogurte natural e um pacote de bolachas da marca do supermercado que a caixa põe de lado num gesto rápido, numa pilha heteróclita onde há outros restos de compras. A mulher paga os 3,73 euros com Multibanco.
Esta história é sobre uma mulher elegante de 30 ou 40 anos, com um sorriso inteligente, que trabalho num sítio onde lhe exigem que vista com alguma formalidade e que só tem quatro euros no banco.

José Vítor Malheiros (03 julho 2012). Na fila de supermercado. Público. p. 49. [excerto]


segunda-feira, 16 de julho de 2012

Há-de experimentar, se fizer favor, fazer um chá como fazem os ingleses

Miguel Esteves Cardoso
Na ponta da língua

[…]
Falo do chá à inglesa. O chá é preto e pode ser tomado com leite. A altura ideal é o afternoon tea, entre as três e meia e as cinco da tarde, conforme a hora a que se almoçou.

É a refeição mais encantadora porque é roubada ao dia. Sentamo-nos à volta de uma mesa e bebemos chá acompanhado consecutivamente por sanduíches delicadas, scones com nata grossa e compotas e fatias de bolos simples, como Madeira cake.
Continue a fazer o chá como faz. Mas um dia, para variar, experimente fazê-lo como fazem os ingleses que sabem fazer chá. Beberá um chá como nunca bebeu antes. Até pode ser que goste e nunca mais seja capaz de beber o outro.

Em 1946, Orwell publicou os onze mandamentos do chá – ponha “a nice cup of tea by George Orwell” no Google que vai logo lá dar – dos quais nove ainda se recomendam.
O chá tem de ser ortodoxo, solto, de folha inteira e puro, sem aromatizantes de qualquer espécie. […] Não pode ser o chá triturado e esmigalhado, chamado CTC (“Crush, Tear, Curl” diz tudo), que é pulverizado para caber em saquetas e para fazer pseudo-chá mais depressa e barato.

[…]
Há bons chás ortodoxos de Ceilão de folha inteira (sem a inicial B de broken, a seguir ao nome). […]

Se quiser fazer a experiência por custo mínimo, compre um pacote do agradável chá Gorreana, produzido sem pesticidas na ilha de São Miguel. Tem dois de folha inteira: o Orange Pekoe e o Gorreana preto. […]
Agora já tem o chá. Falta fazê-lo e servi-lo. É aqui que tem de fazer tudo direitinho.

Precisa de um bule de porcelana, de uma peneira e de um jarro para a água quente. Precisa também de chávenas de chá, de pires e de uma leiteira.
A água tem de ser filtrada: a da torneira tem calcário a mais. O melhor sistema é o da Brita. Encha a chaleira eléctrica (a mais inglesa é de alumínio, com tampa preta, da Morphy Richards) de água filtrada. Tenha, mesmo ao lado, o bule, a medida de chá (duas colheres de sopa, bem cheias, para um bule de litro) e – a maior inglesice de todas – um jarro para a água fervida.

Quando a água estiver quase a ferver (tem de aprender a tocar de ouvido), escalde o bule. Deite-lhe água e espere até o bule queimar-lhe os dedos. Entorne-a para o jarro de água quente. Quando a chaleira der o clique que diz que “já ferveu”, deite-a imediatamente, logo a seguir ao chá que acaba de verter para o bule.
Marque três minutos. Ao fim de três minutos, deite um pouco de leite nas chávenas (antes e não depois, ao contrário do que diz Orwell, erradamente, por julgar que deitamos sempre leite de mais), dê uma volta no bule com uma colher comprida e sirva o chá através de uma peneira.  Mal tenha acabado de servir as primeiras chávenas, destape o bule e deite-lhe o equivalente em água quente, dando mais uma volta com a colher.

É este o segredo inglês […].  Sem a água acrescida, o chá “foge”, tornando-se adstringente e volátil. A água quente prende o chá e fixa-o durante mais meia hora: a meia hora do lanche, necessária para lanchar como deve ser. Se beber menos de três chávenas, é porque não fez bem o chá.
[…]

O bom chá inglês é mesmo assim: bom chá, boa água, bom resultado.
O resto é extravagância, trabalho escusado e despesa estúpida.

Miguel Esteves Cardoso (17 março 2012). Há-de experimentar, se fizer favor, fazer um chá como fazem os ingleses. Fugas – Público, p. 3.









quarta-feira, 11 de julho de 2012

Carlos Drummond de Andrade, "Poema-orelha"

Esta é a orelha do livro
por onde o poeta escuta
se dele falam mal
ou se o amam.
Uma orelha ou uma boca
sequiosa de palavras?
São oito livros velhos
e mais um livro novo
de um poeta ainda mais velho
que a vida viveu
e contudo provoca
a viver sempre e nunca.
Oito livros que o tempo
empurrou para longe
de mim
mais um livro sem tempo
em que o poeta se contempla
e se diz boa-tarde
(ensaio de bom-noite,
variante de bom-dia,
que tudo é o vasto dia
em seus compartimentos
nem sempre respiráveis
e todos habitados
enfim.)
Não me leias se buscas
flamante novidade
ou sopro de Camões.
Aquilo que revelo
e o mais que segue oculto
em vítreos alçapões
são notícias humanas,
simples estar-no-mundo,
e brincos de palavra,
um não-estar-estando,
mas que tal jeito urdidos
o jogo e a confissão
que nem ditongo eu mesmo
o vivido e o inventado.
Tudo vivido? Nada.
Nada vivido? Tudo.
A orelha pouco explica
de cuidados terrenos;
e a poesia mais rica
é um sinal de menos. 

Fonte: http://www.astormentas.com/PT/poema/10952/Poema-orelha