segunda-feira, 25 de junho de 2012


RIFÃO QUOTIDIANO


Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
 

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
 

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece


Mário-Henrique Leiria (1994). Novos Contos do Gin (4ª Ed.). Lisboa: Editorial Estampa. p.31. [Publicado pela primeira vez em 1973]
Páginas Paralelas

"Rifão Quotidiano" dito por Mário Viegas


e por Pedro Abrunhosa

sexta-feira, 15 de junho de 2012


Sophia de Mello Breyner Andresen

Liberdade

O poema é
A liberdade

Um poema não se programa
Porém a disciplina
—Sílaba por sílaba —
O acompanha.

Sílaba por sílaba
O poema emerge
—Como se os deuses o dessem
O fazemos

Fonte: Sophia de Mello Breyner Andresen (2004). Cem Poemas de Sophia. Paço de Arcos: Visão / JL, p. 98.

quinta-feira, 14 de junho de 2012


Fernando Pessoa

O Livro do Desassossego

A ideia de viajar nauseia-me.
Já vi tudo que nunca tinha visto.
Já vi tudo que ainda não vi.

O tédio do constantemente novo, o tédio de descobrir, sob a falsa diferença das coisas e das ideias, a perene identidade de tudo, a semelhança absoluta entre a mesquita, o templo e a igreja, a igualdade da cabana e do castelo, o mesmo corpo estrutural a ser rei vestido e selvagem nu, a eterna concordância da vida consigo mesma, a estagnação de tudo que vivo só de mexer-se está passando.
Paisagens são repetições. Numa simples viagem de comboio divido-me inútil e angustiadamente entre a inatenção à paisagem e a inatenção ao livro que me entreteria se eu fosse outro. Tenha da vida uma náusea vaga, e o movimento acentua-ma.
Só não há tédio nas paisagens que não existem, nos livros que nunca lerei. A vida, para mim, é uma sonolência que não chega ao cérebro. Esse conservo eu livre para que nele possa ser triste.
Ah, viajem os que não existem! Para quem não é nada, como um rio, o correr deve ser vida. Mas aos que pensam e sentem, aos que estão despertos, a horrorosa histeria dos comboios, dos automóveis, dos navios não os deixa dormir nem acordar.

De qualquer viagem, ainda que pequena, regresso como de um sono cheio de sonhos – uma confusão tórpida, com as sensações coladas umas às outras, bêbado do que vi.
Para o repouso falta-me a saúde da alma. Para o movimento falta-me qualquer coisa que há entre a alma e o corpo; negam-se-me, não os movimentos, mas o desejo de os ter.
Muita vez me tem sucedido querer atravessar o rio, estes dez minutos do Terreiro do Paço a Cacilhas. E quase sempre tive como que a timidez de tanta gente, de mim mesmo e do meu propósito. Uma ou outra vez tenho ido, sempre opresso, sempre pondo somente o pé em terra de quando estou de volta.
Quando se sente de mais, o Tejo é Atlântico sem número, e Cacilhas outro continente, ou até outro universo.

Fonte: Fernando Pessoa (2000). Livro do Desassossego. Linda-a-Velha: Biblioteca Visão, p. 86.