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terça-feira, 26 de junho de 2012
segunda-feira, 25 de junho de 2012
RIFÃO QUOTIDIANO
Uma nêspera
estava na camadeitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disseolha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperasque ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece
Mário-Henrique
Leiria (1994). Novos Contos do Gin (4ª
Ed.). Lisboa: Editorial Estampa. p.31. [Publicado pela primeira vez em 1973]
terça-feira, 19 de junho de 2012
segunda-feira, 18 de junho de 2012
José Saramago (16.11.1922 - 18.06.2010)
“Na verdade, ninguém sabe para o que nasce. Nem as pessoas, nem os livros”
Ver citação na fonte, a partir de Ciberescritas.
Exposição José Saramago. A Consistência dos Sonhos
Coleção José Saramago na Biblioteca Nacional
Fundação José Saramago
sexta-feira, 15 de junho de 2012
Sophia de Mello Breyner Andresen
Liberdade
O poema é
A liberdade
Um poema não se programa
Porém a disciplina
—Sílaba por sílaba —
O acompanha.
Sílaba por sílaba
O poema emerge
—Como se os deuses o dessem
O fazemos
Fonte: Sophia de Mello Breyner Andresen (2004). Cem Poemas de Sophia. Paço de Arcos: Visão / JL, p. 98.
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Fernando Pessoa
O Livro do
Desassossego
A ideia de viajar nauseia-me.
Já vi tudo que nunca tinha
visto.
Já vi tudo que ainda não vi.
O tédio do constantemente novo,
o tédio de descobrir, sob a falsa diferença das coisas e das ideias, a perene
identidade de tudo, a semelhança absoluta entre a mesquita, o templo e a
igreja, a igualdade da cabana e do castelo, o mesmo corpo estrutural a ser rei
vestido e selvagem nu, a eterna concordância da vida consigo mesma, a
estagnação de tudo que vivo só de mexer-se está passando.
Paisagens são repetições. Numa
simples viagem de comboio divido-me inútil e angustiadamente entre a inatenção
à paisagem e a inatenção ao livro que me entreteria se eu fosse outro. Tenha da
vida uma náusea vaga, e o movimento acentua-ma.
Só não há tédio nas paisagens
que não existem, nos livros que nunca lerei. A vida, para mim, é uma sonolência
que não chega ao cérebro. Esse conservo eu livre para que nele possa ser
triste.
Ah, viajem os que não existem!
Para quem não é nada, como um rio, o correr deve ser vida. Mas aos que pensam e
sentem, aos que estão despertos, a horrorosa histeria dos comboios, dos
automóveis, dos navios não os deixa dormir nem acordar.
De qualquer viagem, ainda que
pequena, regresso como de um sono cheio de sonhos – uma confusão tórpida, com
as sensações coladas umas às outras, bêbado do que vi.
Para o repouso falta-me a saúde
da alma. Para o movimento falta-me qualquer coisa que há entre a alma e o
corpo; negam-se-me, não os movimentos, mas o desejo de os ter.
Muita vez me tem sucedido querer
atravessar o rio, estes dez minutos do Terreiro do Paço a Cacilhas. E quase
sempre tive como que a timidez de tanta gente, de mim mesmo e do meu propósito.
Uma ou outra vez tenho ido, sempre opresso, sempre pondo somente o pé em terra
de quando estou de volta.
Quando se sente de mais, o Tejo
é Atlântico sem número, e Cacilhas outro continente, ou até outro universo.
Fonte: Fernando Pessoa (2000). Livro do Desassossego. Linda-a-Velha: Biblioteca Visão, p. 86.
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