terça-feira, 12 de junho de 2012

B Fachada

Os discos do Sérgio Godinho



Fonte: B Fachada (2010). "Os discos do Sérgio Godinho". Há Festa na Moradia. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=Vs2FbXC8WyQ (acedido a 8 de Junho de 2012).




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segunda-feira, 11 de junho de 2012


Nuno Júdice
RECEITA PARA FAZER O AZUL 

Se quiseres fazer azul, 
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande, 
que possas levar ao lume do horizonte; 
depois mexe o azul com um resto de vermelho 
da madrugada, até que ele se desfaça; 
despeja tudo num bacio bem limpo, 
para que nada reste das impurezas da tarde. 
Por fim, peneira um resto de ouro da areia 
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal. 
Se quiseres, para que as cores se não desprendam 
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado. 
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez 
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre 
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor 
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico. 
Ambas a s cores te parecerão semelhantes, sem que 
possas distinguir entre uma e outra. 
Assim o fiz – eu, Abraão ben Judá Ibn Haim, 
iluminador de Loulé – e deixei a receita a quem quiser, 
algum dia, imitar o céu. 

Fonte: Nuno Júdice (2000). «Receita para fazer o azul», in: Poesia Reunida 1967-2000. Lisboa: Publicações Dom Quixote, p. 600.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Nação valente e imortal

António Lobo Antunes
Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida. Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento. Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos. Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos. Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade.
O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade às vezes é hereditário, dúzias deles.
Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão. O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal. Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito.
Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade. As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente.
Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente, indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos. Vale e Azevedo para os Jerónimos, já! Loureiro para o Panteão, já! Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já! Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha. Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram.
Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito. Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos por, como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis. Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair. Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar de D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano.
Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos.
Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam este solzinho.
Agradeçam a Linha Branca. Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar.
Abaixo o Bem-Estar. Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval. Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros.
Proíbam-se os lamentos injustos. Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender, o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto.
Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar? O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos um aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.


António Lobo Antunes (12.04.2012). Visão. Disponível em

quinta-feira, 7 de junho de 2012

O que te peço, Senhor, é a graça de ser.
Não te peço mapas, peço-te caminhos
O gosto dos caminhos recomeçados,
com as suas surpresas, as suas mudanças, a sua beleza.
Não te peço coisas para segurar,
mas que as minhas mãos vazias
se entusiasmem na construção da vida.
Não te peço que pares o tempo na minha imagem predilecta,
mas que ensines os meus olhos a encarar cada tempo
como uma nova oportunidade.
Afasta de mim palavras,
que servem apenas para evocar cansaços, desânimos, distâncias.
Que eu não pense saber já tudo acerca de mim e dos outros.
Mesmo quando eu não posso ou quando não tenho,
sei que posso ser, ser simplesmente.
É isso que te peço, Senhor:
a graça de ser de novo.

José Tolentino de Mendonça

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Museu italiano queima obras em protesto por falta de verbas
RIO - O museu italiano "The Casoria Contemporary Art Museum", que fica na cidade de Casoria (na província de Nápoles), começou a queimar obras de arte nesta terça-feira. O objetivo do ato é protestar contra os cortes de orçamento do governo.
A primeira obra a que a instituição ateou fogo foi uma pintura de Severine Bourguignon. A artista francesa é a favor do protesto e acompanhou a movimentação por Skype.
"Nossas obras estão indo para a destruição de qualquer forma por causa da indiferença do governo", disse o diretor do museu Antonio Manfredi. Ele planeja queimar três obras de arte em uma semana em uma iniciativa chamada de "Art War" (ou "Guerra de Arte", em tradução livre).
Em 2011, Manfredi fez um pedido formal de "asilo artístico" à chanceler da Alemanha, Angela Merkel, para abrigar sua equipe e obras do acervo. Na época, ele afirmou ser ameaçado pela máfia e criticou a incapacidade do governo de proteger a rica herança cultural do país. No entanto, nunca recebeu uma resposta das autoridades alemãs.
O museu tornou-se conhecido por suas exposições ousadas contra o grupo mafioso de Nápoles, o Camorra. A instituição chegou a receber intimidações por causa das mostras.

PParalelas

Página de Antonio Manfredi

terça-feira, 5 de junho de 2012

Sonhar ao Longe...


Jorge Serafim [2012]. Sonhar ao Longe... (José Francisco, Ilustração). s/l: Opera Omnia.