quinta-feira, 31 de maio de 2012

Soeiro Pereira Gomes, "Esteiros"

Verão
     [...]
     Como bando de pardais, a malta assaltou o vale, que era então, todo ele, frutescente pomar. Já as nespereiras, tempos antes, haviam sofirdo grave desbaste, e as cerejeiras também. Mas eram as uvas que, a todas as horas, mitigavam o apetite dos garotos. Dizia-se até que a vinha velha do Antunes, desmurada, nunca chegava a ser vindimada por ele.
     Gineto preferia, porém, as quintas frondosas do Castro e de outros, que tinham uvas de casta,  doces como o mel. Vestiu um casacão velho que lhe dava pelos joelhos, roubado ao pai, e escalou o muro, deixando os outros à espera na estrada.
     Sor Miguel, dê-me um cachinho de uvas... – gritou ele, empoleirado. Uma pausa e de novo a lamúria: – Sor Miguel...
     Ninguém respondeu. O silêncio e as portas encerradas da moradia indicavam que o caseiro devia estar longe, ou fora da quinta. Saguí informou que também o canzarrão estava preso no jardim.
     Saltaram à vinha. Gineto correu por entre as cepas, rojando o casaco, em busca de uvas moscatel. Primeiro, comeu; depois, pôs-se a encher as pregas da camisa, mantendo o casaco vazio, para não lhe tolher os movimentos.
     Junto ao muro, os companheiros depenicavam e riam, uns sentados, de cócoras outros, mas todos à vontade, como se a quinta lhes pertencesse. Naquele dia, julgavam-se donos do mundo. [...]




quarta-feira, 30 de maio de 2012

Eugénio de Andrade, "Leonoreta"

Fonte da imagem

Borboleta, borboleta,
flor do ar,
onde vais tu, que me não levas?
Onde vais tu, Leonoreta?

Vou ao rio, e tenho pressa,
não te ponhas no caminho.
Vou ver o jacarandá
que já deve estar florido.

Leonoreta, Leonoreta,
que me não levas contigo...




terça-feira, 29 de maio de 2012

Eugénio de Andrade, "Frutos"


Jorge Ulisses, 1980

Pêssegos, peras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

J. P. Mésseder e M. Bacelar, "Gatos, lagartos e outros poemas"



A meio da noite

Desperto no escuro,
um gato por guia,
e saio de casa,
p'ra noite fria.

Agora há tempo
para uma surtida,
que a noite é uma casa
larga e comprida.

Ouvidos alerta,
tão fino o olfato:
latidos em eco,
odor de outros gatos.

Roçamos nas planatas,
ouvimos os grilos,
seguimos no escuro
veredas e brilhos.

Mais uma folhinha,
ali uma cova.
Na casa da noite
sabemos quem mora...

Sentados no muro
lavamos o pelo,
lambemos as patas
com todo o zelo.

Que bom acordar
a meio da noite,
sair (não é sonho!)
com um gato por guia.

E haver lá no alto
a lua, as estrelas,
parar no escuro
a olhar para elas.

Mésseder, João Pedro (texto) e Manuela Bacelar (ilustração) (2012).
Gatos, Lagartos e outros poemas. Porto: Trampolim Edições: p. 24

Palavras Andarilhas 2012

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Roy Lichtenstein. "Drowning Girl" (1963)




Roy Lichtenstein (1963). "Drowning Girl". Nova Iorque: Museum of Modern Art.


quinta-feira, 24 de maio de 2012


Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
          Era uma vez uma princesa
          no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade, «Poema à mãe», In Poesia. S.l. Fundação Eugénio de Andrade, pp. 47-48.