quarta-feira, 30 de maio de 2012

Eugénio de Andrade, "Leonoreta"

Fonte da imagem

Borboleta, borboleta,
flor do ar,
onde vais tu, que me não levas?
Onde vais tu, Leonoreta?

Vou ao rio, e tenho pressa,
não te ponhas no caminho.
Vou ver o jacarandá
que já deve estar florido.

Leonoreta, Leonoreta,
que me não levas contigo...




terça-feira, 29 de maio de 2012

Eugénio de Andrade, "Frutos"


Jorge Ulisses, 1980

Pêssegos, peras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

J. P. Mésseder e M. Bacelar, "Gatos, lagartos e outros poemas"



A meio da noite

Desperto no escuro,
um gato por guia,
e saio de casa,
p'ra noite fria.

Agora há tempo
para uma surtida,
que a noite é uma casa
larga e comprida.

Ouvidos alerta,
tão fino o olfato:
latidos em eco,
odor de outros gatos.

Roçamos nas planatas,
ouvimos os grilos,
seguimos no escuro
veredas e brilhos.

Mais uma folhinha,
ali uma cova.
Na casa da noite
sabemos quem mora...

Sentados no muro
lavamos o pelo,
lambemos as patas
com todo o zelo.

Que bom acordar
a meio da noite,
sair (não é sonho!)
com um gato por guia.

E haver lá no alto
a lua, as estrelas,
parar no escuro
a olhar para elas.

Mésseder, João Pedro (texto) e Manuela Bacelar (ilustração) (2012).
Gatos, Lagartos e outros poemas. Porto: Trampolim Edições: p. 24

Palavras Andarilhas 2012

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Roy Lichtenstein. "Drowning Girl" (1963)




Roy Lichtenstein (1963). "Drowning Girl". Nova Iorque: Museum of Modern Art.


quinta-feira, 24 de maio de 2012


Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
          Era uma vez uma princesa
          no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade, «Poema à mãe», In Poesia. S.l. Fundação Eugénio de Andrade, pp. 47-48.

quarta-feira, 23 de maio de 2012


Bocage

Vai-te, fera cruel, vai-te, inimiga,
Horror do mundo, escândalo da gente,
Que um férreo peito, uma alma que não sente,
Não merece a paixão que me afadiga.

O Céu te falte, a Terra te persiga,
Negras fúrias o Inferno te apresente,
E de baça tristeza o voraz dente
Morda o vil coração, que Amor não diga.

Disfarçados, mortíferos venenos
Entre licor suave em áurea taça
Mão vingativa te prepare ao menos;

E seja, seja tal tua desgraça,
Que ainda por mais leves, mais pequenos
Os meus tormentos invejar te faça.


Fonte: Bocage (s.d.). “Vai-te fera cruel, vai-te inimiga”. In: Poesias. S.l.: Círculo de Leitores, p. 11.