quarta-feira, 23 de maio de 2012


Bocage

Vai-te, fera cruel, vai-te, inimiga,
Horror do mundo, escândalo da gente,
Que um férreo peito, uma alma que não sente,
Não merece a paixão que me afadiga.

O Céu te falte, a Terra te persiga,
Negras fúrias o Inferno te apresente,
E de baça tristeza o voraz dente
Morda o vil coração, que Amor não diga.

Disfarçados, mortíferos venenos
Entre licor suave em áurea taça
Mão vingativa te prepare ao menos;

E seja, seja tal tua desgraça,
Que ainda por mais leves, mais pequenos
Os meus tormentos invejar te faça.


Fonte: Bocage (s.d.). “Vai-te fera cruel, vai-te inimiga”. In: Poesias. S.l.: Círculo de Leitores, p. 11.

terça-feira, 22 de maio de 2012


João Garcia de Guilhade

Ai dona fea, fostes-vos queixar
que vos nunca louv'en[o] meu cantar;
mais ora quero fazer um cantar
em que vos loarei todavia;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia!

Dona fea, se Deus mi pardom,
pois havedes [a]tam gram coraçom
que vos eu loe, em esta razom
vos quero já loar todavia;
e vedes qual será a loaçom:
       dona fea, velha e sandia!

Dona fea, nunca vos eu loei
em meu trobar, pero muito trobei;
mais ora já um bom cantar farei
em que vos loarei todavia;
e direi-vos como vos loarei:
dona fea, velha e sandia!



Fonte: João Garcia de Guilhade (s.d.). “Ai dona fea, fostes-vos queixar”. Cantigas Medievais Galeco-Portuguesas. Disponível em: http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1520&tamanho=13 (consultado a 20 de maio de 2012).






segunda-feira, 21 de maio de 2012


SONNET 130 - William Shakespeare

My mistress' eyes are nothing like the sun;
Coral is far more red than her lips' red;
If snow be white, why then her breasts are dun;
If hairs be wires, black wires grow on her head.
I have seen roses damask'd, red and white,
But no such roses see I in her cheeks;
 
And in some perfumes is there more delight
Than in the breath that from my mistress reeks.
I love to hear her speak, yet well I know
That music hath a far more pleasing sound;
I grant I never saw a goddess go;
My mistress, when she walks, treads on the ground:
   And yet, by heaven, I think my love as rare
   As any she belied with false compare.
 

Fonte: William Shakespeare (s.d.). “Sonnet 130”. Disponível em: http://www.shakespeare-online.com/sonnets/130.html (consultado a 20 de Maio de 2012).



Soneto 130 de William Shakespeare (Trad. Ana Luísa Amaral)

O olhar da minha amada não se compara ao sol,
Mais carmim é o coral que os seus lábios carmim.
Se a cor da neve é alva, mortiço é o seu colo,
Se os cabelos são fios, fio negro o seu cabelo.
Vi rosas de Damasco cor de carmim e alvas,
Mas não nas suas faces vejo eu rosas tais,
E há em certos perfumes prazeres tantos e mais
Dos que, em hálito seu, a minha amada exala.
Adoro a sua voz, contudo, sei-o bem
Que a música possui um som muito mais belo.
Juro que nunca vi uma deusa a passar –
Quando anda, a minha amada caminha sobre o solo.
E contudo, por Deus, tão raro é o meu amor
Quanto os que ela desmente em falso cotejar.

Fonte: William Shakespeare (s.d.) “Soneto 130” (Trad. Ana Luísa Amaral). Disponível em: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4217.pdf (consultado a 20 de Maio de 2012).


Página Paralela:

Soneto 103 de William Shakespeare lido por Alan Rickman




sexta-feira, 18 de maio de 2012

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Cagarro
Calonectris diomedea borealis (Cory 1881)

Ouça o som desta ave marinha sempre presente nas noites de verão dos Açores.

Fonte:

SIARAM
Sentir e Interpretar o Ambiente dos Açores
Através de Recursos Auxiliares Multimédia
SECRETARIA REGIONAL DO AMBIENTE E DO MAR – GOVERNO DOS AÇORES
Conteúdos disponíveis em siaram.azores.gov.pt

E conheça o projecto “Lua de Mel no Corvo”, da responsabilidade das “Ilhas Santuário para as Aves Marinhas”, e siga a história do nascimento e emancipação do pequeno cagarro Hypnos.
Páginas Paralelas:
Veja também o blogue “Geração Eco-Mouzinhos”, da Escola Básica Integrada Mouzinho da Silveira, no Corvo, e saiba como as crianças da ilha participam no compromisso por um planeta melhor… não na Lua, mas na Terra.
E descubra por que motivo o nome de Mouzinho da Silveira está ligado ao Corvo.
E depois, que tal ir à ilha do Corvo? É na Terra Não é na Lua!

quarta-feira, 16 de maio de 2012

“O Corvo”
Raul Brandão (in As Ilhas desconhecidas)
Ainda de noite, seguimos a caminho do Corvo, com o mar chocalhado, como se diz nos Açores. Este canal é amargo. Às cinco horas da manhã do dia 17 estamos à vista de duas manchas azuladas, Flores e Corvo, sob um céu velado e em águas revoltas. Uma hora depois distingo perfeitamente o cone de bronze truncado, com escorrências de verdete no alto. Não se vê uma árvore naquele enorme pedregulho batido pelas vagas. É com apreensão que desembarco no sítio mais pobre e mais isolado do mundo.
(…)
17 de Junho [de 1924]
Pedra negra, areia negra e um mar esverdeado, que de Inverno assalta, vagalhão atrás de vagalhão, este grande rochedo a pique, com fragas caídas lá no fundo e que as águas corroem num ruído incessante de tragédia. Céu muito baixo, nuvens esbranquiçadas. Braveza, solidão e negrume.
Uma única povoação de meia dúzia de ruelas fétidas, lajeadas do burgo, algumas com meio metro de largura, onde se fabrica o estrume. A igreja, um largozinho, e, logo por trás do povoado, o monte severo, erguido em socalcos e caído a um lado. A mesma labareda devorou tudo isto: os interiores, as paredes, os telhados. Velhas de lenço e, sobre o lenço, o xale escuro, homens de barrete, descalços e de pau na mão. De quando em quando, duma pequena janela, espreita a cabeça duma mulher ou o focinho duma vaca. As casas denegridas, onde vive o homem e o boi, tresandam a leite e a corte. Os rapazes cheiram a gado. À volta dos casebres meia dúzia de leiras de centeio e trigo divididas por muros de pedra solta. E tudo tão humilde, tão feio, tão só, que me mete medo. Um penedo e vento na solidão tremenda do Atlântico.
Não há mercado nem estalagem. Não há médico, nem botica, nem cadeia. As portas não têm chave. Não há ricos nem há pobres, e neste mundo isolado tanto faz ser rico como pobre: o homem mais rico do Corvo anda descalço como os outros e lavra a terra com os filhos. O pedreiro é pedreiro e lavrador, o ferreiro é ferreiro e lavrador, e morre à fome quem não fabrica os currais por suas próprias mãos. Ninguém se sujeita a servir – mas todos os vizinhos se ajudam: quando toca o sino a rebate, o povo acode a destelhar a casa, a construir a corte ou a levantar o socalco.
(…)
20 de Junho
            Vou-me habituando a ficar com a porta aberta. Na primeira noite tive medo. Agora durmo de um sono num colchão de palha milha, com a janela escancarada, por onde entra o jorro que sabe a mar e a que se mistura o cheiro bravo do monte. Também vou com os pastores e os lavradores sentar-me no Outeiro, onde está a Câmara, o Espírito Santo e a cadeia vazia (agora mora lá uma vaca), e ouço-os de roda nas banquetas tomando resoluções sobre a lavoura e a terra. Aí se juntam de manhã antes de partirem para o Fojo ou à tarde quando recolhem. Sinto-me pequeno ao pé do António da Ana, de barba curta e grisalha, do Santareno, que parece um apóstolo, do Joaquim Valadão, do Manuel Tomás, do sapateiro a arrastar a perna, dos velhos baleeiros de pêra e barrete às riscas na cabeça, todos duma grave compostura – fisionomias de santos ou pedintes, onde há qualquer coisa de empedrado.
(…)
            Aqui acabam as palavras, aqui acaba o mundo que conheço; aqui neste tremendo isolamento onde a vida artificial está reduzida ao mínimo só as coisas eternas perduram. Não se pode fugir à monotonia da existência, à solidão que nos cerca, à sólida arquitectura dos montes que apertam e esmagam. Sempre presentes o plano revolto e amargo das ondas e a povoação isolada e denegrida. Passam-se meses sem notícias do mundo, e com as Flores comunica-se com fogaréus que se acendem nos altos, porque o canal é largo e tão perigoso que arroja de Inverno os peixes mortos à praia. É aqui que o Tempo assume proporções extraordinárias. Vejo diante de mim a figura monstruosa, que suprimimos da existência fútil, arredando-a e esquecendo-a, o que no Corvo preside a todos os actos da vida. O Corvo não tem peso no mundo, mas nunca senti como aqui a realidade e o peso do Tempo. Sob o seu domínio todos caminham, repetindo os mesmos gestos e as mesmas palavras, e arrastando o mesmo fardo sem levantarem a cabeça nem desatarem aos gritos.
            Estas figuras despidas e trágicas são tremendas como problemas insolúveis. Erguem-se diante de mim, a arredo tudo, esqueço tudo para os interrogar. Não que eles me saibam responder – eu é que hei-de responder a mim próprio, porque foi isto que me trouxe ao Corvo.
Raul Brandão (s/d). As Ilhas desconhecidas. Lisboa: Perspectivas e Realidades. pp. 25-35.