terça-feira, 15 de maio de 2012

Os prodígios da ilha do Corvo
Maria João Avillez
Dois euros deviam chegar para o parquímetro, não me antevia sentada no cinema as três horas e dez minutos do filme, desde quando é que a ilha do Corvo pedia tal fôlego, mais de três horas aquela pedra no Atlântico habitada por engano, quantos eram os corvinos meus distantes irmãos, língua e pátria comum, 400, 400 e tal?
Mas quase logo a seguir e o espantoso é que foi mesmo quase logo a seguir, enterrada na penumbra da sala, percebi que nenhum adjectivo – sempre uma armadilha é certo – chegava ou servia. E, de resto, elegê-los segundo qual fonte, se havia tantas: a que jorrou assombro, a que derramou espanto, a que trouxe estranheza? A da compaixão, a da pungência? A do esquecimento? Não escolho, não sei. Fazê-lo seria trair os dons que brotaram dessas fontes. Prefiro a fidelidade – única maneira de os merecer – aos dons e prodígios de que é feito este filme que está sempre a lembrar-nos que é na Terra não é na Lua que aquilo existe. E se parece a Lua, santo Deus, ou seja lá onde for, mas não neste mundo… Um bocado de rocha arredondada e breve, que dá pelo nome de ilha, submersa na zanga do mar que ali parece não conhecer outra forma de vida senão a da fúria e do seu brado; quase nenhuma árvore e que árvores querem partilhar aquele molhado desamparo? Lá ao cimo, a coroa da cratera do que foi um vulcão, cá em baixo, uma branca mancha de casas, atemorizadamente unidas umas às outras, contra marés e ameaças. No meio… nada, ou quase. (…) Os da ilha ficam, os outros, sempre escassos, sempre fugidios, partem.
Mas Gonçalo Tocha ficou. Ficou muito tempo, voltou muitas vezes. Eu agradeço-lhe, nem ele sabe quanto. E ainda mais que tenha querido filmar tudo, como logo avisa: o mar e o vento, o céu e a terra, as vacas e os porcos, os rostos e gestos, uma motorizada que desce, uma camioneta que sobre no traço negro da única estrada. Uma porta que se abre, a récita sincopada do terço, dois vultos na rua deserta, a televisão acesa no café, uma menina que aprende canto, um alemão que toca num piano desafinado, a morte selvática do porco, um inglês silencioso que ama pássaros, o cais sempre afogado em ondas que tudo varrem e afogam, ilha de sempre inverno. Uma mulher que cose, outra que faz queijo, outra que fabrica um barrete de lã azul e há-de estar a fazê-lo enquanto durar o filme, um não avança sem o outro, irmãos de sangue nesta saga. Sim, as gentes dali. Um vagar que nenhum ponteiro mede – e porque se haviam de apressar? – uma solidão sem medida, olhares vazios por nunca haver “amanhãs” e já nem se lhes pedia que cantassem, apenas que existissem. E a espessura e a força e a aspereza que de tudo isso escorre. Para o mar, para o nada, para nós.
(…)
Maria João Avillez (27.04.2012). Os prodígios da ilha do Corvo. Público. p. 53.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Semana dedicada ao Corvo, o território mais ocidental e "mais remoto" de Portugal/Europa... Na Terra, não na Lua!
A propósito do filme de Gonçalo Tocha "É na Terra Não É na Lua", vencedor do Grande Prémio Cidade de Lisboa do DocLisboa 2011 e já com quatro prémios internacionais, em Locarno, Buenos Aires, San Francisco e Madrid.

notas do diário
gonçalo tocha

Relembro como aqui chegámos, vindos do nada,
sem conhecer ninguém, a entrar pouco a pouco
e cada vez mais na vida das pessoas.
Sinto que este filme não é a representação do Corvo
mas a imagem da minha passagem pelo Corvo.
É esta ilha dentro de mim.
Mas eu aqui sou sobretudo uma câmara de filmar.
O mar do Corvo aberto em todos os lados.
A caminho faz chuva, agora faz sol na água.
A grande emoção da meteorologia.
O barco “Santa Iria” chegou com a mercadoria.
Os nossos quartos virados para o cais. Acordo sempre
com a luz do sol nascente na falésia, toda a vila era aqui,
virada para o mar.
No Corvo as casas não precisam de número na porta.
Rua das Pedras, Largo do Outeiro, Canada da Rocha, etc…
As pessoas, as conversas, os petiscos, tudo sempre em
círculos.
Isto são dois mundos, não há explicação. A vila é só um ponto.
 Lá em cima os campos, é todo um outro olhar
de verde e vertigem.
Como e porquê cheguei até aqui ainda é um mistério para mim.
Ver tudo, viver tudo. Esta ilha é uma concha, para quê sair?

Excerto do Flyer do filme É NA TERRA NÃO É NA LUA de Gonçalo Tocha (2011).

Gonçalo Tocha. Flyer do filme É NA TERRA NÃO É NA LUA (2011)
Páginas Paralelas:

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Blogue Ciberescritas, "Uma vida quase igual às outras"

 "Com o seu primeiro romance “O teu rosto será o último” João Ricardo Pedro con­quis­tou o Prémio Leya 2011. Desem­pre­gado, resolveu con­cretizar o seu sonho. Con­versa real­izada dias depois da atribuição do prémio em Out­ubro do ano passado.
João Ricardo Pedro, 38 anos, Prémio Leya 2011, está à porta da Paste­laria Car­cas­sone, em Lis­boa, de óculos escuros. Pas­sou mal a noite. Dormir tem sido difí­cil desde o dia em que o júri do Prémio Leya 2011 deliberou por maio­ria atribuir os 100 mil euros ao romance que pas­sou os últi­mos dois anos a escr­ever, “O teu rosto será o último”.
É uma grande mudança na sua vida. Durante dez anos tra­bal­hou como engen­heiro elec­trotéc­nico e, em 2009, houve um des­ped­i­mento colec­tivo na empresa onde tra­bal­hava. “Fui nessa leva. Fiquei umas horas abananado: dois fil­hos, casado, com uma casa por pagar, era uma situ­ação com­pli­cada.” Nessa noite decidiu que não ia come­ter o erro de andar deses­per­ada­mente à procura de emprego. Quando perce­beu que gostava mesmo de livros, já tra­bal­hava numa empresa de tele­co­mu­ni­cações. “Uma data de pas­sos arrisca­dos que eu podia ter dado no final da ado­lescên­cia, tive von­tade de os dar aos trinta e tal anos, já casado e com fil­hos. Muda muita coisa, já não se é uma pes­soa soz­inha…” Por isso, naquela noite em que se viu sem emprego, João Ricardo Pedro tomou uma decisão: “É amanhã. Vou levar os miú­dos à escola, volto para casa e começo a escr­ever um livro.”
No dia seguinte, a mul­her chegou a casa e perguntou-lhe: “Então, já começaste a procu­rar emprego?” João respondeu-lhe: “Não. Come­cei a escr­ever um livro”. Ela olhou-o demor­ada­mente e fê-lo prom­e­ter que iria escr­ever uma página por dia. Durante dois anos, João escreveu mil­hares de pági­nas. A maio­ria foi para o lixo. [...]" Pode continuar a ler neste endereço, com video.