terça-feira, 8 de maio de 2012

António Lobo Antunes, "Pensamento positivo, meu amigo, pensamento positivo"

Nunca me foi tão difícil escrever uma crónica: três dias a rasgar papel. Normalmente fico uma hora ou isso, de caneta suspensa, e depois as palavras começam a sair sozinhas. Esta não, e já estou farto de deitar frases para o lixo. Julgo que se deve ao facto de ter demasiadas coisas dentro de mim, de viver uma altura difícil, de me achar melancólico e revoltado. Melancólico com a minha situação, revoltado com a situação do meu país. É raro o dia em que não me pedem

- Não me arranja um emprego?

a mim, que não possuo poder nenhum, e lá fico a ouvir histórias desesperadas e tristes. Os portugueses estão a sofrer muito, e o sofrimento dos portugueses é mais importante do que o meu: que direito tenho de me queixar seja do que for? Quanto a mim não consigo fazer nada, quanto aos outros a minha importância colectiva é nula. Um amigo médico, por exemplo

- Fale do que se está a passar na Saúde

como se aquilo que eu escrevesse mudasse alguma coisa. Não muda. Sou apenas um homem que faz livros, preso por um contrato que assinei sem ler, como de costume, a uma editora que me não agrada. Não tenho grandes ilusões. Nem pequenas, aliás. A árvore, em frente da minha janela perdeu as folhas: ramos torcidos, sombras de pássaros nem sonhar. Eu reflectido no vidro, sentado a esta mesa. Esferográficas, páginas, uma lupa, porque as primeiras versões são numa letrinha minúscula que, por vezes, me custa ler. Trago uma espada no peito. Volta e meia torce-se nos pulmões. E lá está a crónica a resistir. Não quer ser feita, tem a consciência de não valer grande coisa. E, mesmo que valesse grande coisa, o que valia? Não há imortalidade: há o silêncio que se vai espessando à volta de um nome, até o nome desaparecer por inteiro. E, até desaparecer, tanta inveja, tanta mesquinhez, tanta patetice. Para quê? A nossa existência é um pequeno evento pedestre: quem se rala? Os outros, por muito que nos queiram, estão de fora. E, depois, partem, construindo-se uma nova alma. Aqueles de quem gostei tornaram-se ausências que se estreitam. Continuo a lembrar-me deles: vai doendo menos. Vai doendo menos? Vai doendo menos. Quem se lembrará de eu pequeno?

- Fale do que se está a passar na Saúde

e qual saúde, Zé? A nossa, a dos outros? Lembro-me que na primeira urgência interna que fiz no Hospital de Santa Maria, depois do curso, morreram seis doentes. Um médico, no dia seguinte

- Eh pá você bateu o record

e eu, que era um miúdo, atarantado com a minha proeza.

- Não me arranja um emprego?

porque o subsídio acaba daqui a nada e depois o que faço eu, diga lá? Aos quarenta e cinco anos quem me dá trabalho? Ninguém, claro. É capaz de haver uns contentores do lixo com restos de comida, e também se podem comer os filhos, como propunha Swift para combater a fome na Irlanda. E quando os filhos se acabarem coma-se a si mesmo. Ossinhos dos dedos chupados um a um. Nunca me foi tão difícil escrever uma crónica. Olhe, já agora experimente comê-la embora deva saber mal como rabo de gato e não alimente nada. Estou a compor isto enjoado de mim, embora tenha batido um record. Seis pessoas é obra. Aguenta mais um mês, António, e logo sabes. Talvez te comam numa urgência interna.
- Como se chamava aquele?
- Não me vem agora o nome mas escrevia livros.
- Desses que a gente gosta?
- Não, dos complicados, dos que dão trabalho.
Livros que não falavam, ouviam. Eu prefiro coisas que distraiam, para maçadas basta a vida. Conselho de um editor

- Publique histórias leves, histórias que distraiam

E tem razão, para maçadas basta a vida, dêem-me episódios que me divirtam, que chumbada pensar.

- Não me arranja um emprego?

um emprego, um empregozinho, dinheiro para pagar as contas, seja o que for preferível a esta angústia, tudo é preferível a esta angústia. E tem razão. Tudo é preferível a esta angústia, tudo é preferível a esta miséria.

- Fale da Saúde

fale da Saúde, da electricidade, dos transportes, da prestação da casa, da prestação do carro, da prestação da máquina de lavar, dos preços no supermercado, dos sapatos que o meu marido precisa, da penúria em que ando. Isto não é uma crónica, é um gemido indistinto, a minha mãe

- Não compraste umas hortaliças, filho?

o carro parado há dois meses que não há para a gasolina. Já não haverá mais para a gasolina. Talvez para uma garrafinha de petróleo

(pode ser que exista quem fie)

verter a garrafa em cima de mim e chegar-lhe um fósforo. Depois uns tempos na enfermaria até as queimaduras do terceiro grau resolverem o assunto. E não é preciso emprego. Quer dizer, já não é preciso emprego. Quer dizer, já não é preciso preocuparmo-nos com a saúde. Já não é preciso comer o filho. Já não é preciso comer nada. Nem acabar esta crónica. Nem rasgar papel. Nem deitar períodos para o lixo. Nem estar à espera do exame no mês de abril. Nem ter demasiadas coisas dentro. Nem de não estar satisfeito com a editora que, essa sim, ficará satisfeita dado que quando um escritor pifa vende mais e é maçador falar nisto mas vender é importante. A cultura é muito bonita porém, como deve calcular, como suponho que calcula, como calcula com certeza, é necessário ganhar a vidinha. Nunca lhe foi tão difícil escrever uma crónica? Pois olhe, já a terminou, vê, você lamenta-se, lamenta-se, mas acaba por cumprir o trabalho. Muito gostam os artistas de choramingarem.


Ler mais: http://visao.sapo.pt/pensamento-positivo-meu-amigo-pensamento-positivo=f660588#ixzz1uXqLqDow

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Leitura Furiosa



Vinícius de Moraes, Excerto de "Arte e Síntese"

"Arte não é só "fazer": é também esperar. Quando o veio seca, nada melhor para o artista que oferecer a face aos ventos, e viver, pois só da vida lhe poderão advir novos motivos para criar. Nada pode resultar mais esterilizante que o encontro de uma síntese, se ela não for, como na vida, a conseqüência de uma análise que se retoma a partir dela. Encontrar uma fórmula é, sem dúvida, uma forma de realização; mas comprazer-se nela e ficar a aplicá-la indefinidamente, porque agradou, ou compensou, constitui a meu ver uma falta de caráter artístico. Como nas ciências positivas, o encontro de uma síntese deve ser o ponto de partida para a busca de outra, e assim por diante, até o encontro dessa grande e única verdadeira síntese que é a morte. [...]" Pode continuar a ler neste endereço.

Página Paralela

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Benjamin Zephaniah

The British (serves 60 million)

Take some Picts, Celts and Silures
And let them settle,
Then overrun them with Roman conquerors.

Remove the Romans after approximately 400 years
Add lots of Norman French to some
Angles, Saxons, Jutes and Vikings, then stir vigorously.

Mix some hot Chileans, cool Jamaicans, Dominicans,
Trinidadians and Bajans with some Ethiopians, Chinese,
Vietnamese and Sudanese.

Then take a blend of Somalians, Sri Lankans, Nigerians
And Pakistanis,
Combine with some Guyanese
And turn up the heat.

Sprinkle some fresh Indians, Malaysians, Bosnians,
Iraqis and Bangladeshis together with some
Afghans, Spanish, Turkish, Kurdish, Japanese
And Palestinians
Then add to the melting pot.

Leave the ingredients to simmer.

As they mix and blend allow their languages to flourish
Binding them together with English.

Allow time to be cool.

Add some unity, understanding, and respect for the future,
Serve with justice
And enjoy.

Note: All the ingredients are equally important. Treating one ingredient better than another will leave a bitter unpleasant taste.

Warning: An unequal spread of justice will damage the people and cause pain. Give justice and equality to all.

Benjamin Zephaniah.The British (serves 60 Million). In: Wicked WorldDisponível em: http://www.benjaminzephaniah.com/content/245.php (acedido a 29 de Abril de 2012).

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quinta-feira, 3 de maio de 2012



Miguel Torga, «Biografia»

Sonho, mas não parece.
Nem quero que pareça.
É por dentro que gosto que aconteça
A minha vida.
Íntima, funda, como um sentimento
De que se tem pudor.
Vulcão de exterior
Tão apagado,
Que um pastor
Possa sobre ele apascentar o gado.

Mas os versos, depois,
Frutos do sonho e dessa mesma vida,
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa.
Então, já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia:
É ela, prisioneira,
Que, vendo a porta da prisão aberta,
Como chispa que salta da fogueira,
Numa agressiva fúria se liberta.

Miguel Torga (2001). «Biografia». In: Antologia Poética. S.l.: Círculo de Leitores. p. 205.



terça-feira, 1 de maio de 2012


«Maio, Maduro Maio» (letra de Zeca Afonso)

Maio maduro Maio, quem te pintou? 
Quem te quebrou o encanto, nunca te amou. 
Raiava o sol já no Sul 
E uma falua vinha lá de Istambul.

Sempre depois da sesta chamando as flores.
Era o dia da festa Maio de amores. 
Era o dia de cantar. 
E uma falua andava ao longe a varar. 

Maio com meu amigo quem dera já. 
Sempre no mês do trigo se cantará. 
Qu’importa a fúria do mar. 
Que a voz não te esmoreça vamos lutar. 

Numa rua comprida El-rei pastor. 
Vende o soro da vida que mata a dor. 
Anda ver, Maio nasceu. 
Que a voz não te esmoreça a turba rompeu.


Página Paralela:

«Maio Maduro Maio» cantado por Madredeus (Bruxelas, 1994).