sexta-feira, 23 de março de 2012

Susana Tamaro, excerto de "Tobias e o Anjo"

Marta odiava ir à escola. Ali, as palavras que reinavam eram palavras-confusão. Palavras que pareciam importantes, mas que, na verdade, não queriam dizer absolutamente nada. Pelo menos na ideia dela. A cabeça de Marta estava repleta de perguntas, e nenhuma daquelas palavras-confusão conseguia responder às pergun­tas dela.

—  Quem são os reis de Roma? Rómulo e Remo, Anco Márcio, Túlio Hostílio... O que eu queria saber é por que vimos nós ao mundo. Se a Marianita come um quinto da torta, quanto fica para os outros meninos comerem? Para onde vão as pessoas quando já não existem? Quem e qual não levam acento na vogal. A toda a hora me apetece chorar e não sei porquê. Para não fazer figuras tristes, aprendi uma maneira de me defender. Olho fixamente uma coisa qualquer, um caderno, o saco de um colega, o canto preto do quadro. Olho e, devagarinho, entro lá para dentro; já não sou a Marta, mas o caderno, o saco do colega. Aconteça o que acontecer, mantenho-me indiferente, como se fosse feita de papel, de plástico, de madeira.

Poucos meses depois do começo das aulas, as professoras mandaram chamar os pais dela. Com o máximo de rodeios possível, disseram-lhes que a menina era um pouco «carente do ponto de vista das relações antropo-sociais e, no que respeita à reactividade verbal, parece manifestar uma espécie de ausência, curiosa e inexplicável».

— Percebeste? — disse o pai, à saída. — Uma maneira airosa de nos dizerem que ela não é como os outros.

— Sou diferente? — perguntou Marta ao avô, num dia em que contemplavam a chuva a cair para lá das vidraças.

— Diferente de quem?

— Não sei, dos outros.

— Os outros parecem-te iguais?

— No recreio, todos riem, todos se divertem. À hora das perguntas, sabem sempre as respostas certas.

— Gostavas de ser assim?

Marta respondeu afirmativamente.

— E porquê?

— Porque assim, pelo menos, ninguém faria pouco de mim.

— E isso é o mais importante? Tens a certeza?

— Acho que sim.

— Então, chega-te cá para eu te dizer um segredo.

Marta encostou um ouvido à boca do avô.

Psss psss pss...

— Podes repetir?

 Pss pss ps...

— Estás a falar a sério ou a mangar comigo?

— Jamais me atreveria —  respondeu o avô, fingindo-se ofendido.

— Mas eu não sei fazer nada. Nada de nada.

— Isso é o que tu pensas. Mas sempre que assim pensares, lembra-te de uma coisa: quem é diferente é mais rico. Nunca te contei, por exemplo, a história do patinho feio?

— Não.

—   Que distraído! Portanto, era uma vez, num quintal, uma pata que pôs ovos...
A partir daquele dia, o patinho feio tinha-se tornado a história de ambos. (…)

Susanna Tamaro (1999). Tobias e o Anjo. Lisboa: Editorial Presença. pp. 22-23.

Susana Tamaro – Biografia
Entrevista com Susana Tamaro

quinta-feira, 22 de março de 2012

quarta-feira, 21 de março de 2012

in-libris

Site da Livraria

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Cada árvore é um ser para ser em nós

Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
A árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses

António Ramos Rosa (2002). Cada árvore é um ser para ser em nós. Porto: in-libris.

O poeta António Ramos Rosa desenhando (Excerto de filme de Gisela Rosa - 2009)

“Estou vivo e escrevo sol” de António Ramos Rosa (1966), dito por Eliane Alcântara

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Manuel António Pina, Excerto de "O cavalinho de pau do Menino Jesus e outros contos de Natal", ilustrado por Inês do Carmo



Manuel António Pina (2009). O cavalinho de pau do Menino Jesus e outros contos de Natal.
Porto: Porto Editora.
Ilustrações de Inês do Carmo. pp. 6-7.




Esta é a última das páginas que diariamente tem recebido, desde 13 de Maio de 2011. Ao voltá-la, queremos desejar a todos uma feliz época festiva, com uma entrada em 2012 cheia de esperança.
A equipa de "Uma página por dia"

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

José Saramago, "O meu avô, também"


Talvez o dia chuvoso seja o responsável desta melancolia. Somos uma máquina complicada, em que os fios do presente activo se enredam na teia do passado morto, e tudo isto se cruza e entrecruza de tal maneira, em laçadas e apertos, que há momentos em que a vida cai toda sobre nós e nos deixa perplexos, confusos, e subitamente amputados do futuro. Cai a chuva, o vento desmancha a compostura árida das árvores desfolhadas – e dos tempos passados vem uma imagem perdida, um homem alto e magro, velho, agora que se aproxima, por um carreiro alagado. Traz um cajado na mão, um capote enlameado e antigo, e por ele escorrem todas as águas do céu. À frente, caminham animais fatigados, de cabeça baixa, rasando o chão com o focinho. Homem e bichos avançam sob a chuva. É uma imagem comum, sem beleza, terrivelmente anónima.
            Mas o homem que assim se aproxima, vago, entre cordas de chuva que parecem diluir o que na memória não se perdeu, é meu avô. Vem cansado, o velho. Arrasta consigo setenta anos de vida difícil, de desconforto, de ignorância. E, contudo, é um homem sábio, calado e metido consigo, que só abre a boca para dizer as palavras importantes, aquelas que importam. Fala tão pouco (são poucas as palavras realmente importantes) que todos nos calamos para o ouvir quando no rosto se lhe acende qualquer coisa como uma luz de aviso. Fora isso, tem um modo de estar sentado, olhando para longe, mesmo que esse longe seja apenas a parede mais próxima, que chega a ser intimidade. Não sei que diálogo mudo o mantém alheado de nós. O seu rosto é talhado a enxó, fixo mas expressivo, e os olhos, pequenos e agudos, têm de vez em quando um brilho claro como se nesse momento alguma coisa tivesse sido definitivamente compreendida. Parece uma esfinge, direi eu mais tarde, quando as leituras eruditas me ajudarem nessas comparações tão abonatórias de uma fácil cultura. Hoje digo que parecia um homem.
            E era um homem. Um homem igual a muitos desta terra, deste mundo, um homem sem oportunidades, talvez um Einstein perdido sob uma camada espessa de impossíveis, um filósofo (quem sabe?), um grande escritor analfabeto. Alguma coisa seria, que não pôde ser nunca. Recordo agora aquela noite morna de verão, que dormimos, nós dois, debaixo da figueira – ouço-o ainda falar da vida que tivera, da Estrada de Santiago que sobre as nossas cabeças resplandecia (as coisas que ele sabia do céu e das estrelas), do gado que o conhecia, das histórias e lendas que eram o seu cabedal da infância remota. Adormecemos tarde, enrolados na manta lobeira, que a madrugada refrescaria com certeza e o orvalho não caía só sobre as plantas.
Mas a imagem que me não larga é a do velho que caminha sob a chuva, obstinado e silencioso, como quem cumpre um destino que nada pode modificar. A não ser a morte. Mas, nessa altura, este velho, que é meu avô, ainda não sabe como vai morrer. Ainda não sabe que poucos dias antes do seu último dia vai ter a premonição (perdoa a palavra, Jerónimo) de que o fim chegou, e irá, de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, dos frutos que não voltará a comer, das sombras amigas. Porque terá chegado a grande sombra, enquanto a memória o não fizer ressurgir no caminho alagado ou sob o côncavo do céu e a interrogação das estrelas. Só isto – e também o gesto que de repente me põe de pé e a urgência da ordem que enche o quarto aquecido onde escrevo.
José Saramago (1985). Deste Mundo e do Outro: Crónicas
(2ª ed.). Lisboa: Editorial Caminho. pp. 29-31.



Discurso de José Saramago, Prémio Nobel da Literatura em 1998, com link para ficheiro audio:http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1998/saramago-lecture-p.html



quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

David Mourão-Ferreira, "ladainha dos póstumos natais"



Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira (1986). ladainha dos póstumos natais. Cancioneiro de Natal. Lisboa: Edições Rolim. Fotografias de Ana Esquível. pp. 17/49.