quinta-feira, 24 de novembro de 2011

José Gomes Ferreira, "Acordai"


Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras e o mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!
José Gomes Ferreira, "Acordai"


quarta-feira, 23 de novembro de 2011

José de Almada Negreiros, Excerto de "Manifesto anti-Dantas"


Basta pum basta!!!
Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d'indigentes, d'indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!
Abaixo a geração!
Morra o Dantas, morra! Pim!
Uma geração com um Dantas a cavalo é um burro impotente!
Uma geração com um Dantas ao leme é uma canoa em seco!
O Dantas é um cigano!
O Dantas é meio cigano!
O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz!
O Dantas pesca tanto de poesia que até faz sonetos com ligas de duquesas!
O Dantas é um habilidoso!
O Dantas veste-se mal!
O Dantas usa ceroulas de malha!
O Dantas especula e inocula os concubinos!
O Dantas é Dantas!
O Dantas é Júlio!
Morra o Dantas, morra! Pim!
O Dantas fez uma soror Mariana que tanto o podia ser como a soror Inês ou a Inês de Castro, ou a Leonor Teles, ou o Mestre d'Avis, ou a Dona Constança, ou a Nau Catrineta, ou a Maria Rapaz!
E o Dantas teve claque! E o Dantas teve palmas! E o Dantas agradeceu!
O Dantas é um ciganão!
Não é preciso ir pró Rossio pra se ser pantomineiro, basta ser-se pantomineiro!
Não é preciso disfarçar-se pra se ser salteador, basta escrever como o Dantas! Basta não ter escrúpulos nem morais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Dantas!
Morra o Dantas, morra! Pim!

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Bob Dylan, "The Times They Are A-Changin'"

Come gather 'round people
Wherever you roam
And admit that the waters
Around you have grown
And accept it that soon
You'll be drenched to the bone
If your time to you
Is worth savin'
Then you better start swimmin'
Or you'll sink like a stone
For the times they are a-changin'.

Come writers and critics
Who prophesize with your pen
And keep your eyes wide
The chance won't come again
And don't speak too soon
For the wheel's still in spin
And there's no tellin' who
That it's namin'
For the loser now
Will be later to win
For the times they are a-changin'.

Come senators, congressmen
Please heed the call
Don't stand in the doorway
Don't block up the hall
For he that gets hurt
Will be he who has stalled
There's a battle outside
And it is ragin'
It'll soon shake your windows
And rattle your walls
For the times they are a-changin'.



Come mothers and fathers
Throughout the land
And don't criticize
What you can't understand
Your sons and your daughters
Are beyond your command
Your old road is
Rapidly agin'
Please get out of the new one
If you can't lend your hand
For the times they are a-changin'.

The line it is drawn
The curse it is cast
The slow one now
Will later be fast
As the present now
Will later be past
The order is
Rapidly fadin'
And the first one now
Will later be last
For the times they are a-changin'.

Bob Dylan (1964). The Times They Are A-Changin'. Retrieved November 2011, from http://www.lyricsfreak.com/b/bob+dylan/the+times+they+are+a+changin_20021240.html


segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Franz Kafka, Excerto de "Carta ao Pai"


Meu querido pai,
                perguntaste-me há pouco tempo por que razão digo que tenho medo de ti. Como de costume, não soube o que responder, em parte precisamente devido ao medo que sinto de ti, mas também porque para fundamentar esse medo seria preciso entrar em muitos pormenores, que nem de longe conseguiria ter presentes ao falar. E se tento por este meio responder-te por escrito, o resultado continuará a ser muito incompleto, porque também ao escrever o medo e as suas consequências perturbam a comunicação contigo, e a escala da matéria se situa muito para além da minha memória e do meu entendimento.
                Para ti, o problema sempre se apresentou como coisa muito fácil, pelo menos nos momentos em que, comigo ou com outros, indiscriminadamente, tocaste neste assunto. Para ti, as coisas colocavam-se mais ou menos assim: toda a vida trabalhaste muito, sacrificaste tudo pelos teus filhos, especialmente por mim, e por isso eu «vivi à grande», tive toda a liberdade de estudar o que quis, nunca tive preocupações materiais nem de qualquer outra ordem. Tu, por teu lado, não pedias em troca qualquer espécie de gratidão, já conheces «a gratidão dos filhos», pedias apenas alguma compreensão, um sinal de simpatia; em vez disso, o que sempre fiz foi esconder-me de ti, enfiar-me no quarto rodeado de livros e de amigos loucos, de ideias extravagantes. Para ti, nunca falei abertamente contigo, nunca fui ter contigo ao templo, nunca te visitei em Franzensbad, nem nunca tive o sentido da família, nunca me preocupei com a loja ou com os teus assuntos, entreguei-te a fábrica para depois te abandonar, apoiando a minha irmã Ottla nos seus caprichos, não mexo um dedo para te ajudar (nem sequer te arranjo um bilhete para o teatro), mas faço tudo pelos meus amigos. Em resumo, o juízo que de mim fazes não te levará com certeza a acusar-me de qualquer coisa de menos decente ou de mau (com excepção, talvez, dos meus últimos planos de casamento), mas de frieza, estranheza, ingratidão. E lanças-me isso à cara como se a culpa fosse minha, como se eu pudesse mudar tudo automaticamente, enquanto tu não tens sombra de culpa em tudo isto, a não ser eventualmente a de teres sido bom de mais para comigo.
                Só reconheço validade a este teu modo de apresentar as coisas na medida em que também eu acredito que não tens qualquer culpa deste nosso estranhamento. Mas também eu sou completamente inocente. Se te pudesse levar a aceitar isto, seria possível, não digo uma nova luz – para isso somos os dois demasiado velhos –, mas uma espécie de pacificação, não o fim das hostilidades, mas uma atenuação das tuas constantes acusações.
(…)
Franz Kafka (2008). Carta ao Pai.  (João Barrento, Trad.). Vila Nova de Famalicão:
Quasi Edições. pp. 7-9. Publicado pela primeira vez em 1919.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

José Luís Peixoto, "Crianças de Fogo"


Ela não sabia que os padeiros estavam em greve. Só soube depois. Ela  tinha ido passar a noite com a prima, estavam sozinhas na barraca de madeira, estavam a dormir, quando foram despertadas pelas chamas. Correu para a porta, tentou abri-la, mas estava fechada. Atrás do rugido do fogo, ouviam-se as vozes dos homens na rua. Com queimaduras em todo o corpo, nas mãos, no rosto, ficou em coma durante três meses e, só depois, soube que os padeiros estavam em greve. Foi por isso que os homens vieram queimar a barraca do tio enquanto ele estava a trabalhar na padaria. Foi por isso que trancaram a porta e não a deixaram sair.

Nessa noite, tinha dezassete anos e, no momento em que me conta a sua história, tem vinte e um. É a mais velha, ainda está na associação para continuar a ter oportunidade de estudar em Joanesburgo. Falamos em inglês, mas a sua língua, aquela que a mãe lhe ensinou, é xhosa. Esse é o idioma onde algumas palavras se pronunciam com estalidos da língua. Tenta ensinar a dizer "lagarto" em xhosa, dois estalidos. É muito difícil. Todos nos rimos das tentativas. Ao meu colo está Nkosi, o mais novo, dois anos e oito meses. Nasceu no Zimbabwe e olha para ela com a mesma admiração. Tem o rosto queimado, sem nariz, o lábio de cima desfeito, a pele com uma mistura de tons claros e escuros, cicatrizes grossas negras e manchas claras, dois olhos grandes a verem tudo. Nkosi caiu sobre uma fogueira quando tinha vinte meses. É seropositivo. O seu nome significa: "Obrigado, Deus".

Children of Fire, crianças de fogo. Esta associação não governamental foi fundada na África do Sul por Bronwen Jones quando tomou contacto com Dorah Mokoena, uma menina de três anos, que tinha sofrido queimaduras muito graves aos seis meses de idade, e a quem se preparavam para remover os olhos, pois a sua preservação era demasiado cara e todos acreditavam que morreria em breve. Num país com quilómetros quadrados de barracas iluminadas por candeeiros a petróleo e aquecidas por fogo, que dão origem a mais cinquenta mil incêndios por ano, as vítimas infantis nunca pararam de chegar. Enquanto conversamos, Dorah está por perto. Tem dezassete anos, a boca foi reconstruída com pele recolhida das costas, tem um nariz de borracha, consegue ver claridade e algumas cores, não tem mãos. E sobreviveu.

Bronwen faz um sinal e todas as crianças dirigem-se a mim com um presente. O meu aniversário é na semana seguinte e as crianças fizeram-me um cartão assinado por todos, Happy Birthday from Children of Fire. Rodeiam-me e mostram-me os desenhos que fizeram no cartão, uma página cheia de flores, estrelas e corações. Trocamos beijos, abraços, aperto mãos pequeninas, algumas com falta de dedos, outras sem qualquer dedo. As crianças cantam-me os parabéns. Tiramos uma fotografia juntos.

Antes de chegar, quando ainda só tinha visto as fotografias das crianças na página da associação na internet, pensava que me ia fazer impressão. Nunca tinha estado na presença de tantas pessoas queimadas. Mal atravessei o portão, percebi que não ia ser assim. Estavam todos no pátio e correram na minha direcção, queriam ver-me e queriam brincar. Para lá dos rostos desfigurados e da maior ou menor agilidade, eram crianças. Ao mesmo tempo, percebi a razão das fotografias na página da internet, do documentário e de todas as formas que a associação utiliza para mostrar os seus rostos. Aquelas crianças precisam que o mundo as veja, que o mundo saiba que existem. Mais ainda, o mundo precisa de ver aquelas crianças. É bom para as crianças saberem que o mundo as considera para lá da pele, e é bom para o mundo que seja capaz de considerar os outros para lá da pele.

Feleng tem dez anos e é um rapaz muito engraçado. Quando Bronwen fala de cirurgias, interrompe para descrever aos outros a neve que viu na Suíça e, depois, conta que os médicos lhe tiraram duas costelas e lhas meteram no crânio. Os outro fazem sons e gestos de incómodo e riem-se. Bronwen explica que, assim, o enxerto ósseo crescerá ao mesmo tempo que o crânio. Nunca tinha pensado nisso. Há tanto em que nunca pensei.

Ao passear pela escola, caminho sempre de mão dada com o pequeno Nkosi. Quando chega a hora de ir embora, ele não quer largar-me a mão. Ao despedir-me de todos, ele começa a chorar. Na rua, dou passos, afasto-me e ouço-o a chorar. Já dentro do carro, ainda o ouço a chorar.   

José Luís Peixoto (2011). Crianças de Fogo. Visão. Disponível em: http://www.joseluispeixoto.net/2011/09/ (acedido a 11 de Novembro de 2011).

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Coral"


Ia e vinha
e a cada coisa perguntava
que nome tinha.
 
Sophia de Mello Breyner Andresen (2004). Cem Poemas de Sophia. Lisboa: Visão/JL. p. 32.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011