segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Quino



Quino(1998). Que gente tão mazinha! Venda Nova: Bertrand Editora, p. 108.


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Banksy

Quatro pinturas do street artist inglês Banksy no muro que separa Israel da Palestina.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

João de Melo, Excerto de "Autópsia de um mar de ruínas"


̶  Tudo morto. Tudo morto. O alferes Abílio morreu. Está tudo cheio de mortos.
O furriel enfermeiro estremeceu todo e pareceu acordar de repente. Levava de rojo a arma e a bolsa de medicamentos, e havia então no seu rosto a enegrecida energia dos profetas e dos loucos, a sua coragem apavorada – e eu tive logo a certeza de que ele iria ressuscitar todos os mortos ou inventar novamente os vivos. Tropeçou contudo no primeiro cadáver e estatelou-se ao comprido no solo. Foda-se, Foda-se, Foda-se, disse ele ao tentar recompor-se da queda sobre o morto. Deitado de borco, com a arma abraçada ao peito, o corpo do alferes Abílio recebeu com indiferença o seu desespero e recuperou a rigidez. Erguendo-se de repelão, o furriel ficou a olhá-lo e não pôde logo acreditar no que via. Um insignificante fio de sangue coagulara-lhe na raiz do pescoço, junto à clavícula esquerda, e não havia mais nada. Uma bicada de pássaro, pensou, uma distraída mordedura de cobra ou tão-só o voo errado de uma abelha – mas isso não podia ser a morte daquele homem. O furriel voltou-lhe então o rosto e viu o resto: o buraco de uma facada rasgara-lhe metade do crânio, e eram pedacinhos de ossos, carnes dependuradas e em farrapos e golfadas de sangue que empapavam a terra e pareciam esguichar uma rede espumosa e gorda. Tentou em vão fechar-lhe os olhos. As dobradiças daquelas pálpebras já não podiam obedecer aos seus dedos nem às suas experimentadas mãos de fada com avental de Deus, e o furriel enfermeiro recordou depressa o seu passado: no seminário, alguns séculos antes de o mandarem à guerra, os padres tinham-no ensinado a rezar em latim. Podia encher-se agora dos ancestrais ritos sagrados, vestir de novo a sobrepeliz do luto eclesiástico e assumir até a calma dos gordos padres da sua infância. Podia agora imitar o ar fanático da seita, servir-se do hissope e da água-benta e dizer: requiem arternam dona eis, Domine. Contudo, esquecera-se quase completamente do como se rezava. Sabia que esses padres utilizavam a mesma água para benzer os barcos que traziam os soldados para a guerra e também os barcos que os devolviam mortos à pátria dos seus bispos. Além disso, tinha quase a certeza de que Deus não existia…
-      Acuda-me, meu furriel! Pela sua saudinha, meu furriel, salve-me. Acuda-me, que tenho mulher e três filhos.
Estava ele estendido numa vala e o seu ventre era um balão de tripas que fumegavam e expeliam sangue e fezes através do tecido do dólman. Os seus lábios quase brancos mal se moviam, mas os olhos navegavam à tona do mundo e seguiam todos os movimentos do furriel enfermeiro. Agora, pensei, estou pronto para endoidecer. Não vou poder ouvir mais nada durante o resto da minha vida; não vou poder acordar nenhuma outra manhã sem ter de ouvir aquela voz de sino que morria suplicando o socorro de todas as mãos do mundo. Nunca mais haverá para mim outra oportunidade de admirar o sol, o mar, a chegada dos pássaros. Ouvirei apenas o murmúrio quase subterrâneo da voz do Gonçalves com as mãos inertes a segurarem o seu balão de tripas, Pelo amor de Deus, meu furriel, Pelo amor de Deus, meu furriel, Pelo amor de Deus, meu furriel, Uma mulher e três filhos, Três filhos e uma mulher, Uma mulher… E nunca mais haverá uma manhã assim, que não tenha de repetir-se até à completa declaração da minha loucura.
João de Melo (1984). Autópsia de um Mar de Ruínas. Lisboa: Assírio e Alvim. pp. 115-6.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Boris Vian, Excerto de "As Formigas"


Chegámos esta manhã e fomos mal recebidos porque não havia ninguém na praia, só uma data de tipos mortos ou bocados de tipos, tanques e camiões desfeitos. De todo o lado apareciam balas, e confusões destas eu não gramo. Saltámos para a água mas era mais fundo do que parecia, e escorreguei numa lata de conservas. O tipo que ia atrás de mim ficou quase sem cara, arrancou-lha um balásio que nos mandaram e eu guardei os bocados da cara no capacete e ofereci-lhos, o tipo lá se foi ao curativo mas parece que não deu com o caminho porque se meteu na água até quase não ter pé, e eu cá não acredito que ele visse o fundo de maneira a não ficar perdido.
Depois corri na direcção certa e ainda cheguei a tempo de apanhar com uma perna na fronha. Apeteceu-me dizer umas coisas ao tipo, mas a mina só tinha deixado ficar uns bocados difíceis de recompor e por isso não liguei nada àquele procedimento e continuei.
Dez metros à frente juntei-me a três fulanos que ali estavam, atrás de um bloco de betão. Davam tiros à esquina de uma parede mais adiante, suavam que se fartavam, todos encharcados, eu devia estar na mesma e ajoelhei-me e desatei também aos tiros. Chegou o tenente. Vinha agarrado à cabeça e escorria-me vermelho da boca. Fazia uma cara de poucos amigos e estendeu-se logo na areia, de boca aberta e braços para a frente. Boa porcaria aquilo deve ter ficado. Era dos poucos lugares que ainda não estava sujo.
Visto dali, o nosso barco encalhado era uma coisa mesmo estúpida, e depois, quando lhe acertaram com duas granadas, nem ar de barco já tinha. Aquilo não me caiu bem porque dentro dele dois amigos ainda tentavam levantar-se para saltar mais as balas que lhes tinham acertado. Bati no ombro dos três que andavam aos tiros comigo, e disse: «Venham daí.» Claro que os mandei à frente, e pouco faltou para eu ficar sem cabeça porque o primeiro e o segundo foram-se à viola com os fogachos que os tais dois tipos nos mandavam, à minha frente só restava um, pobre rapaz sem sorte nenhuma, que mal deu cabo do mais bera o outro arranjou tempo para matá-lo antes de eu poder tratar-lhe da saúde.
O par de sacanas tinha uma metralhadora e cartuchos em barda, atrás da esquina do muro. Apontei a metralhadora em sentido contrário, carreguei a fundo naquilo mas tive que parar porque me dava cabo dos ouvidos e encravou. Devem ser reguladas para não dispararem na direcção oposta.
Ali estava a bem dizer sossegado. Do alto da praia era possível gozar o panorama. O mar deitava um fumo dos diabos e a água dava espirros muito altos. Também se viam os clarões das salvas dos grandes couraçados, e as bombas passavam por cima da minha cabeça com um barulho esquisito e abafado, como o som grave de um cilindro que andasse por aquele ar fora.
Chegou o capitão. Só restavam onze. Disse que não eram lá muitos mas assim mesmo nos íamos desenrascar. Mais tarde enviaram os que faltavam. Para já, mandou-nos cavar buracos. São para a gente dormir, pensava eu, mas afinal não eram nada, tivemos de saltar-lhes para dentro e continuar a atirar.
Por sorte aquilo melhorava. Começavam a desembarcar de uma data de barcos mas os peixes metiam-se no meio das pernas para se vingarem daquela barafunda, e a maior parte malhava na água e levantavam-se, a bufar que era um caso sério. Mas alguns não se levantavam nada e lá iam a flutuar nas ondas, e o capitão disse que avançássemos atrás do tanque e neutralizássemos aquele ninho de metralhadoras que começava a dar sinal.
Fomos atrás do tanque. Eu em último lugar porque não me fio lá muito no travão daquelas geringonças. É mais cómodo andar atrás de um tanque, porque assim não é preciso a gente embaraçar-se nos arames-farpados e os postes caem por si. O que eu não gostava era do modo como espapaçavam os cadáveres, fazendo o diabo de um ruído muito característico que só de recordar nos põe doentes.
Boris Vian (1984). As Formigas. Trad Aníbal Fernandes. Lisboa: Assírio e Alvim. pp. 17-18.
[excerto do conto “As Formigas”, publicado pela primeira vez em 1949]

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Pablo Picasso, "Guernica"



Pablo Picasso

Guernica
1937
 Óleo sobre tela. 350 X 782cm
site WLA War, Literature and the Arts WLA
 
Picasso en acción



Bombardeamento de Guernica
 

A 3D exploration of Picasso's Guernica by Lena Gieseke



Marcelo R Ortiz (2002). G.U.E.R.N.I.C.A. Vancouver Film School: animação CGI (Computer –Generated Imagery) – “viagem” tridimensional por obras de Van Gogh, Dali, Escher e Picasso, inspirado no famoso painel da autoria deste último

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

SOL, "Ataque da NATO mata 12 crianças no Afeganistão"

Um bombardeamento da NATO matou 14 pessoas, todas civis, na província de Helmand, no sudoeste do Afeganistão, segundo informações das autoridades locais citadas pela BBC.
O ataque, realizado no distrito de Nawzad, tinha como alvo um grupo de insurgentes, mas acabou por atingir duas casas de civis, matando duas mulheres e 12 crianças. Militares da NATO e do Afeganistão estão a investigar o caso, escreve a BBC.
O ataque ocorreu depois de uma base de fuzileiros norte-americanos ter sido atacada no sábado.
Um grupo de pessoas da aldeia de Sera Cala transportou até à capital de Helmand, Lashkar Gah, os corpos de oito crianças, tendo a mais nova apenas dois anos, como informou o correspondente da BBC em Cabul Quentin Sommerville.
O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, já criticou a NATO por não fazer o suficiente para prevenir estas mortes e já pediu ao ministro da Defesa que impeça o que descreveu como «operações arbitrárias» das forças internacionais.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Manuel Alegre, "A Desconhecida"


Está tudo perdido, dizia ela, está tudo perdido. E corria pela estrada fora. Tinham-na visto muitas vezes a vaguear, com uns vestidos esfarrapados, os pés descalços, ora pelas feiras, ora à porta dos cafés, mas agora ela corria, fugia não se sabe ao certo nem de quê nem de quem, Está tudo perdido, dizia, farrapos brancos a esvoaçar, cabelos desgrenhados, não se sabia de quem era filha nem onde tinha nascido nem quando, corria pela estrada fora, trazia atrás de si invisíveis perseguidores, fugia de perigos que só ela conhecia, Está tudo perdido, dizia ela, está tudo perdido.
Quando os bombeiros a recolheram das águas frias e barrentas do rio, juntou-se muito povo no largo da vila. Mas ninguém apareceu a reclamar o corpo. Durante vários dias comentou-se o sucedido. Uma lenda começou a nascer, alguns insinuavam que era a filha desaparecida de um conde, outros, uma noiva de uma terra próxima que há muitos anos tinha fugido no dia do casamento, houve até quem dissesse que ela era estrangeira e por isso ninguém conhecia pais nem parentes.
No dia do funeral apareceu no cemitério um velho muito velho surgido não se sabe de onde. Antes de fecharem o caixão, ele aproximou-se, afagou-lhe os cabelos grisalhos que talvez tivessem sido louros e alisou as vestes rotas e sujas, outrora talvez brancas. Colocou-lhe uma rosa nas mãos e alguém o ouviu a chorar enquanto murmurava o nome que ninguém sabia: Ofélia, dizia o velho, Ofélia.

Manuel Alegre (2005). A Desconhecida. In: O Quadrado e outros contos.
Lisboa: Dom Quixote, pp. 23 – 24.