quinta-feira, 6 de outubro de 2011

José Eduardo Agualusa, "Borges no Inferno"


Para a Alexandra Lucas Coelho
Jorge Luís Borges soube que tinha morrido quando, tendo fechado os olhos para melhor escutar o longínquo rumor da noite crescendo sobre Genebra, começou a ver. Distinguiu primeiro uma luz vermelha, muito intensa, e compreendeu que era o fulgor do sol filtrado pelas suas pálpebras. Abriu os olhos, inclinou o rosto, e viu uma fileira de densas sombras verdes. Estava estendido de costas numa plantação de bananeiras.
Aquilo deixou-o de mau humor. Bananeiras?! Ele sempre imaginara o paraíso como uma enorme biblioteca: uma sucessão interminável de corredores, escadas e outros corredores, ainda mais escadas e novos corredores, e todos eles com livros empilhados até ao tecto.
Levantou-se. Endireitou-se com dificuldade, sentindo-se desconfortável dentro do próprio corpo subitamente rejuvenescido (quando morremos reencarnamos jovens e Borges já não se recordava de como isso era). Caminhou devagar entre as bananeiras. Parecia-lhe pouco provável encontrar ali alguém conhecido, ou seja, alguém de quem tivesse lido algo. Ou alguém sobre quem tivesse lido algo. Nesse caso seria alguém um
pouco menos conhecido, ou um pouco menos alguém, ou ambas as coisas.
A plantação prolongava-se por toda a eternidade. Uma dúvida começou a atormenta-lo: talvez estivesse, afinal, não no paraíso, mas no inferno. Para onde quer que olhasse só avistava as largas folhas verdes, os pesados cachos amarelos, e sobre essa idêntica paisagem um céu imensamente azul. Borges lamentava a ausência de livros. Se ao menos existissem tigres — tigres metafóricos, claro, com um alfabeto secreto gravado nas manchas do dorso —, se houvesse algures um labirinto, ou uma esquina cor-de-rosa (bastava-lhe a esquina), mas não: só avistava bananeiras, bananeiras, ainda bananeiras. Bananeiras a perder de vista.
Percorreu sem cansaço, mas com crescente fastio, a infinita plantação. Era com se andasse em círculos. Era com se não andasse. Fazia-lhe falta a cegueira.
Cego, o que não via tinha mais cores do que aquilo — além do mistério, claro. Como é que um homem morre na Suíça e ressuscita para a vida eterna entre bananeiras?
Borges não gostava da América Latina. A Argentina, com se sabe, é um país europeu (ou quase) que por desgraça faz fronteira com o Brasil, Chile, Uruguai e Paraguai. Para Borges aquele quase foi sempre um espinho cravado no fundo da alma. Isso e a vizinhança. Os índios ainda ele tolerava. Tinham fornecido bons motivos para a literatura e além disso estavam mortos. O pior eram as negras e os mestiços, gente capaz de transformar o grande drama da vida — da vida, meu Deus! — numa festa ruidosa. Borges sentia-se europeu. Gostava de ler os clássicos gregos (gostaria de os ter lido em grego). Gostava do silêncio poderoso das velhas catedrais.
Foi então que a viu. À sua frente urna mulher flutuava, pálida e nua, sobre as bananeiras. A mulher dormia, com o rosto voltado para o sol e as mãos pousadas sobre os seios, e era belíssima, mas isso para Borges não tinha grande importância (a especialidade dele foram sempre os tigres). Horrorizado compreendeu o equívoco. Deus confundira-o com outro escritor latino-americano. Aquele paraíso fora construído, só podia ter sido construído, a pensar em Gabriel Garcia Marquez.
Jorge Luís Borges sentou-se sobre a terra húmida. Levantou o braço, colheu uma banana, descascou-a e comeu-a. Pensou em Gabriel Garcia Marquez e voltou a experimentar o intolerável tormento da inveja. Um dia o escritor colombiano fechará os olhos, para melhor escutar o rumor longínquo da noite, e quando os reabrir estará deitado de costas sobre o lajedo frio de uma biblioteca. Caminhará pelos corredores, subirá escadas, atravessará outros corredores, ainda mais escadas e novos corredores, e em todos eles encontrará livros, milhares, milhões de livros. Um labirinto infinito, forrado de estantes até ao tecto, e nessas estantes todos os livros escritos e por escrever, todas as combinações possíveis de palavras em todas as línguas dos homens.
Jorge Luís Borges descascou outra banana e nesse momento um sorriso — ou algo como um sorriso iluminou-lhe o rosto. Começava a adivinhar naquele equívoco um inesperado sentido: sendo certo que o paraíso do outro era agora o inferno dele, então o paraíso dele deveria ser, certamente, o inferno do outro.
Borges terminou de descascar a banana e comeu-a. Era boa. Era um bom inferno, aquele.
AGUALUSA, José Eduardo, 1960 - A Substância do amor e outras crónicas. Lisboa: Dom Quixote, 2000
Biografia e obra de José Eduardo Agualusa em http://www.agualusa.info/

terça-feira, 4 de outubro de 2011

John Grogan, Excerto de "Marley & Eu"


Marley  não abanava apenas a cauda. Abanava o corpo todo, começando pelas partes dianteiras e prolongando todo o movimento para trás. Era como a versão canina de um Slinky. Parecia-nos que não tinha ossos, mas tão-só um grande músculo elástico. Jenny começou a chamar-lhe Mr. Wiggles. E não havia altura em que se abanasse mais do que quando tinha qualquer coisa na boca. A sua reacção a qualquer situação era sempre a mesma: agarrar o sapato ou o lápis mais próximo – qualquer objecto servia, na verdade – e correr com ele. Parecia haver uma pequena voz na sua cabeça a sussurrar-lhe: força! Apanha-o! Baba-o todo! Corre!
Alguns dos objectos que ele apanhava eram suficientemente pequenos para serem dissimulados, o que parecia agradar-lhe especialmente - parecia pensar que estava a conseguir ludibriar-nos. Mas Marley jamais daria um bom jogador de póquer. Quando tinha alguma coisa para esconder, não conseguia disfarçar o seu júbilo. Punha sempre um ar empertigado, até explodir numa espécie de frenesim maníaco, como se tivesse levado um pontapé no traseiro de um folião invisível. O seu corpo começava a tremer, a sua cabeça a abanar de um lado para o outro e o seu traseiro desandava numa espécie de dança espasmódica. Chamávamos a isso o mambo do Marley.
(…)
            A maioria das noites, depois de jantar, saíamos os dois com ele até à marginal, onde caminhávamos ao longo do canal enquanto os iates de Palm  Beach passavam indolentemente ao pôr do Sol.
              Caminhar é provavelmente a palavra errada. Marley passeava como uma locomotiva em fuga. Corria à frente, debatendo-se com a trela com todas as  suas forças, enrouquecendo e quase sufocando na sua obstinação. Nós puxávamo-lo para trás. Ele arrastava-nos para a frente. Nós puxávamos e ele rebocava-nos, arfando como um fumador compulsivo, estrangulado pela coleira. Guiava para a esquerda e para a direita, disparando para todas as caixas de correio e arbustos, farejando, arquejando e urinando descontroladamente, acabando por se molhar mais a si próprio, do que ao alvo pretendido.
            Descrevia círculos à nossa volta, enredando-nos a trela nos tornozelos antes de pular novamente para a frente, quase nos atirando ao chão. Quando alguém se aproximava com outro cão, Marley dardejava em direcção a eles, rejubilante, erguendo-se nas patas detrás quando chegava ao fim da trela, ansioso por fazer novos amigos.
John Grogan (2006). Marley & Eu: A vida e amor do pior cão do mundo.
(Pedro Serras Pereira, Trad.). Lisboa: Casa das Letras. pp. 47-49.

Ilustração inédita de Alexandra Lota*

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Conto Tradicional, "A Tia Miséria"


Havia no princípio do mundo uma velhinha muito pobre e muito infeliz: era conhecida pela Tia Miséria. Só possuía uma casinha arruinada e uma pereira defronte da porta. Tudo sofria com paciência e resignação, mas só uma coisa não desculpava, nem perdoava: que os garotos subissem à pereira e lhe comessem as peras. Era capaz de dá-las todas sem provar uma, mas indignava-se contra os que lhas roubavam.
Uma noite bateu-lhe à porta um pobrezinho; correu a abri-la e deu ao pobrezinho a migalha de pão que reservava para si. No dia seguinte despediu-se o pobre e disse-lhe que pedisse o que quisesse.
Só peço que as pessoas que subirem à minha pereira não possam descer sem o meu consentimento – respondeu a velhinha.
- Assim será – respondeu o mendigo.
No outro dia, quando saiu à rua, encontrou três garotos em cima da pereira.
- Ó Tia Miséria, perdoe-nos pelo amor de Deus! Tire-nos daqui, não podemos descer.
- Ah! Pois vocês diziam que não eram os ladrões das minhas peras! Por esta vez, vá; Se lá voltarem hão-de ficar aí muitos anos.
E os garotos desceram e não mais voltaram à pereira.
Um dia de manhã, entrou-lhe em casa uma mulher de horrendo aspecto, vestida de negro e armada de foice, com as asas negras nos ombros e nos pés.
- O que me quer? – Perguntou a Miséria a tremer.
- Sou a Morte: venho buscar-te.
- Já? Pois nem ao menos me dá um ano de espera?
- Não pode ser – respondeu a Morte.
- Faça-me ao menos um favor: suba à minha pereira e colha-me a última pêra que me resta. Quero comê-la, visto que é a última.
A Morte subiu à pereira, colheu a pêra, mas não pôde descer. Pôs-se a chamar a velhinha. Esta respondeu: “Tem paciência, aí ficarás para todos os séculos. És má, tens feito muitas desgraças, roubando muitos pais aos seus filhos pequeninos...”
E a Morte ficou em cima da pereira.
Passados dias tinha a velhinha em frente da sua porta um exército, composto de padres que se queixavam de que não havia enterros, de escrivães que se lastimavam de não ter inventários, de delegados que se doíam de não fazer promoções orfanológicas, de juízes que se queixavam de não receber emolumentos das reuniões dos conselhos de família, das presidências nos actos de licitações e das sentenças em demarcações, enfim, de todos aqueles indivíduos que vivem da morte do próximo. Todos pediam à velhinha que autorizasse a Morte a descer da pereira, mas a velhinha respondia: “ Não quero, não quero e não quero”.
Falou então a Morte do alto da pereira e fez com a velhinha um contrato: poupar-lhe a vida enquanto o mundo fosse mundo. A velhinha consentiu e a Morte desceu. Por isso enquanto o mundo for mundo a Miséria existirá sobre a Terra.
 Conto tradicional português recolhido por Ataíde Oliveira. Disponível em http://lendo_e_entretendo.blogs.sapo.pt/
 Visite MEMORIA media – e-Museu do Património Imaterial em http://www.memoriamedia.net/

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Alexandra Lota, "Abismo"


Um caminho sigo, sem parar.
Os meus pés simplesmente vão e para trás a minha mente ficou.
Os meus olhos vidram o passado, para a frente querem olhar mas nada vêem...
Vazio...
É tudo o que existe.
Uma camada esconde os meus olhos, como a Lua esconde o Sol num eclipse.
A minha mente divaga por aí, e o meu corpo, sem alma, simplesmente anda.
Mas parece que por mais passos que dê... o cenário apenas escurece, como se recuassem no tempo. Como se tudo se movesse e apenas eu fico no mesmo local.
Penso: “Nada mais do que é poderia ser pior”
Ironia.
A Terra treme.
O chão abre-se.
E eu?
Caio
Caio num vazio sem fim.
Um vazio frio e moribundo.
Não importa, nada mais importa.
Quase não se vê a luz lá em cima.
Sou apenas um pedaço de carne.
Nada importa.
Ninguém para me agarrar.
Ninguém para me salvar.
Ninguém para lavar as minhas mágoas.
Ninguém para me dizer “adoro-te, sê forte, força!”
Estou sozinha...
Apenas tu importavas e nem tu me salvaste, deixaste-me cair.
Neste abismo de desespero, de tristezas e mágoas, de confiança destruída, de promessas e juras esquecidas!
Eu tinha tudo!
Agora não tenho nada...
Não tenho forças.
Não tenho alegrias.
O meu sorriso desapareceu.
O que de mim restava, fugiu contigo.
E aqui ficaram carne e ossos, abandonados pelo espírito.
Um final feliz? É o que se espera.
Ao fundo cheguei...


E aqui

Fiquei

Poema inédito de Alexandra Lota
Nota: Alexandra Lota é aluna do 2º ano do curso de Artes Plásticas e Multimédia do IPBeja.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

António Peleja, "Tela"


Quando os dias se encolhem
e a luz se vai recolhendo
abandono a tua pele
feita de mil cores

Repouso o pincel
e bebo em ti os momentos
que jamais vivi
sinto o cheiro das tintas
e labuzo o rosto
com restos de sépia
das vidas que hoje criei

Só crio o que a minha mente alcança
só crio sonhos de criança
só crio o que nada muda
quem me dera poder criar
vida, esperança, realidades coloridas

Quem me dera poder dar-vos pinceladas multicoloridas
Qual quadros de Dali, Van Gogh, Miró ou Picasso
Quem me dera que fácil fosse assim pintar vidas
quem me dera poder encerrar em mim todas as tristezas
quem me dera poder calar a fome no mundo

 Pintar telas onde a vida seria simplesmente bela
onde o amor se respirava
onde sorrir fazia parte de nós
onde amar era a luz que iluminava os nossos corpos
Na pintura posso ser quem eu sou

Poema inédito de António Peleja

Nota: António Peleja é aluno do 2º ano do curso de Artes Plásticas e Multimédia do IPBeja

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

S., "Este sítio só meu..."


11 de Abril de 2008
Olhei o horizonte e vi o sol perder, um a um, os seus raios de laranja e vermelho.
Vi-o, insaciável, roubando a cor a este mundo onde vivo. Onde por vezes não quero viver.
Cheguei à conclusão de que quem elogia a beleza vibrante da cor, nunca observou a superior beleza daqueles minúsculos pontos brancos, pequenos bocados de luz que o sol não levou com ele, cintilando sobre uma vastidão de preto.
Cheguei à conclusão de que quem admira o sol, fá-lo pois nunca admirou a lua.
23 de Abril de 2008
Dançamos sem música.
8 de Maio de 2008
Escreves palavras amarelas.
Rapidamente as apago com um qualquer objecto que para tal possa ser usado.
Pego na caixa dos lápis. Tiro um lápis vermelho, esperando palavras de amor.
Dou-to para a mão e, com ele, tu escreves palavras zangadas, raivosas.
Rapidamente to tiro de novo.
Dou-te um lápis azul, esperando que te acalme.Com ele falas do frio da morte.
O roxo lembra-te de pesadelos passados.
O verde da esperança, para ti é nojo.

Acabam-se os lápis.
Arrumo-os na sua caixa. Pego neles, e viro-te as costas.
4 de Junho de 2009
Não passo de um jogo para ti certo?
Não passo de um tabuleiro de xadrez sobre o qual jogas as tuas peças.
Usas estratégias sujas que não vão falhar contra mim, e tu sabes.
Conheces-me bem demais.
Roubas-me a vista, derrubas as minhas defesas, afastas de mim a racionalidade e quando me vês fraca preparas-te para atacar.
Debaixo do sorriso que esboças perante a minha aparente confusão, a tua língua treina um 'xeque'.
O que não sabes, é que enquanto pensavas a próxima jogada, ganhei-te eu.
E disse, silenciosamente por entre um sopro quente:
- Xeque-Mate.
Perdeste.
Reparaste tarde demais.
Agora, com licença. Vou jogar Copas.
S.* Este sítio só meu… [blogue]. Disponível em http://sitiosomeu.blogspot.com/.
* Manteve-se a assinatura original do blogue; S é aluna do curso de Artes Plásticas e Multimédia do IPBeja.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Adriano Guerreiro e Manuel Ribeiro, "O Fim"


        Acordo. Onde estou? Nunca vi este sítio. Nunca estive neste sítio. O que é que se passou? Levanto-me. Sinto-me sem forças. Ainda assim, começo a andar. Procuro saber o que se passou. Ninguém. Não vejo ninguém. Há muita desarrumação. Papéis. Vejo papéis e pego num. Tento ler. Parecem papéis de hospital. Se calhar estou num hospital e estou doente. Vejo os sinais de <Saída> e sigo-os.


Saio. Na rua, não há ninguém. Não há vestígios de ninguém. Há muita desarrumação na rua e no meio disto tudo não há nada. Está tudo cinzento. Parece que ardeu tudo. Até o céu parece que ardeu. Não há vestígios de nada com vida. Caminho por este sítio. Saio deste sítio. Caminho por um caminho e sinto-me sem forças.
Paro. Sento-me. Descanso. Não há vestígios de nada. Sem forças levanto-me. Olho para trás e reparo que o sítio que deixei para trás é uma pequena vila em ruínas. O que é que se passou? Deixo a vila para trás e caminho em busca de água. Um ribeiro. Não há vestígios de nada com vida. De repente, pareceu-me ter visto algo verde. De pequeno tamanho mas, ainda assim, verde. Olho à volta à procura.

        
       Talvez tenha sido uma alucinação. Continuo à procura e, finalmente, encontro. Aproximo-me com curiosidade de saber o que seja. Reparo que é uma belíssima pequena flor. No meio de tudo isto sem nada existe esta pequena flor. Olho em volta em busca de mais alguma. Não há mais nenhuma. Olho novamente para a flor e confirmo se não será uma alucinação.
A flor está aqui comigo. Não há mais vestígios de nada com vida. Sento-me. Contemplo a flor. A sua beleza é divinal e a sua existência é um milagre. Aproximo-me da flor. É realmente bela. Penso que poderia passar aqui o resto dos meus poucos dias de vida. A flor dança para mim com o vento e ao som do vento. De certa forma, a flor parece que se ri para mim. Eu rio-me para ela. O vento cala-se e a dança acaba. Para agradecer à flor a sua dança, aproximo-me mais e tento beijá-la. Fecho os olhos e aproximo-me ainda mais.
Beijo-a. Sinto as suas pétalas nos meus lábios e sinto o seu perfume. Por segundos, aprecio a delicadeza do momento. Abro os olhos. Reparo que, entretanto, caiu uma pétala. Estupefacto com o acontecimento, afasto-me um pouco. Acreditando que a culpa fosse do vento e não minha, aproximo-me outra vez e tento mais um beijo. Desta vez, o toque da flor é mais intenso. De olhos fechados, sinto o toque de cada pétala nos meus lábios. Abro os meus olhos e, para meu espanto, vejo que caíram todas as pétalas, à excepção de uma.
Facas. Sinto que o meu beijo e a minha paixão mataram esta flor. Sinto facas a cortarem-me por dentro. Sinto facas a cortarem o momento e sinto que o toque do meu beijo foi como o golpe de uma destas facas que me rasgam. Frágil, a minha flor parece que tenta mais uma dança ao vento. Afasto-me um pouco e contemplo o momento. Mas depressa me apercebo que não há vento. Não há dança. A flor, cada vez mais inclinada, deixa cair a sua última pétala e acaba por cair no chão por cima de todas as suas pétalas. Com as facas a rasgarem-me cada vez mais, sinto-me quase morto. Sem forças enterro a flor e as pétalas com a esperança de que a flor nascerá outra vez para mim. E assim aqui fico. Aqui fico a olhar para o monte da terra. Aqui fico e com as minhas lágrimas rego a minha flor.
À tua espera, aqui ficarei…
Texto inédito de Adriano Guerreiro, com ilustrações de Manuel Ribeiro
Nota: Adriano Guerreiro e Manuel Ribeiro são alunos do 2º ano do curso de Artes Plásticas e Multimédia do IPBeja.