quinta-feira, 29 de setembro de 2011

António Peleja, "Tela"


Quando os dias se encolhem
e a luz se vai recolhendo
abandono a tua pele
feita de mil cores

Repouso o pincel
e bebo em ti os momentos
que jamais vivi
sinto o cheiro das tintas
e labuzo o rosto
com restos de sépia
das vidas que hoje criei

Só crio o que a minha mente alcança
só crio sonhos de criança
só crio o que nada muda
quem me dera poder criar
vida, esperança, realidades coloridas

Quem me dera poder dar-vos pinceladas multicoloridas
Qual quadros de Dali, Van Gogh, Miró ou Picasso
Quem me dera que fácil fosse assim pintar vidas
quem me dera poder encerrar em mim todas as tristezas
quem me dera poder calar a fome no mundo

 Pintar telas onde a vida seria simplesmente bela
onde o amor se respirava
onde sorrir fazia parte de nós
onde amar era a luz que iluminava os nossos corpos
Na pintura posso ser quem eu sou

Poema inédito de António Peleja

Nota: António Peleja é aluno do 2º ano do curso de Artes Plásticas e Multimédia do IPBeja

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

S., "Este sítio só meu..."


11 de Abril de 2008
Olhei o horizonte e vi o sol perder, um a um, os seus raios de laranja e vermelho.
Vi-o, insaciável, roubando a cor a este mundo onde vivo. Onde por vezes não quero viver.
Cheguei à conclusão de que quem elogia a beleza vibrante da cor, nunca observou a superior beleza daqueles minúsculos pontos brancos, pequenos bocados de luz que o sol não levou com ele, cintilando sobre uma vastidão de preto.
Cheguei à conclusão de que quem admira o sol, fá-lo pois nunca admirou a lua.
23 de Abril de 2008
Dançamos sem música.
8 de Maio de 2008
Escreves palavras amarelas.
Rapidamente as apago com um qualquer objecto que para tal possa ser usado.
Pego na caixa dos lápis. Tiro um lápis vermelho, esperando palavras de amor.
Dou-to para a mão e, com ele, tu escreves palavras zangadas, raivosas.
Rapidamente to tiro de novo.
Dou-te um lápis azul, esperando que te acalme.Com ele falas do frio da morte.
O roxo lembra-te de pesadelos passados.
O verde da esperança, para ti é nojo.

Acabam-se os lápis.
Arrumo-os na sua caixa. Pego neles, e viro-te as costas.
4 de Junho de 2009
Não passo de um jogo para ti certo?
Não passo de um tabuleiro de xadrez sobre o qual jogas as tuas peças.
Usas estratégias sujas que não vão falhar contra mim, e tu sabes.
Conheces-me bem demais.
Roubas-me a vista, derrubas as minhas defesas, afastas de mim a racionalidade e quando me vês fraca preparas-te para atacar.
Debaixo do sorriso que esboças perante a minha aparente confusão, a tua língua treina um 'xeque'.
O que não sabes, é que enquanto pensavas a próxima jogada, ganhei-te eu.
E disse, silenciosamente por entre um sopro quente:
- Xeque-Mate.
Perdeste.
Reparaste tarde demais.
Agora, com licença. Vou jogar Copas.
S.* Este sítio só meu… [blogue]. Disponível em http://sitiosomeu.blogspot.com/.
* Manteve-se a assinatura original do blogue; S é aluna do curso de Artes Plásticas e Multimédia do IPBeja.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Adriano Guerreiro e Manuel Ribeiro, "O Fim"


        Acordo. Onde estou? Nunca vi este sítio. Nunca estive neste sítio. O que é que se passou? Levanto-me. Sinto-me sem forças. Ainda assim, começo a andar. Procuro saber o que se passou. Ninguém. Não vejo ninguém. Há muita desarrumação. Papéis. Vejo papéis e pego num. Tento ler. Parecem papéis de hospital. Se calhar estou num hospital e estou doente. Vejo os sinais de <Saída> e sigo-os.


Saio. Na rua, não há ninguém. Não há vestígios de ninguém. Há muita desarrumação na rua e no meio disto tudo não há nada. Está tudo cinzento. Parece que ardeu tudo. Até o céu parece que ardeu. Não há vestígios de nada com vida. Caminho por este sítio. Saio deste sítio. Caminho por um caminho e sinto-me sem forças.
Paro. Sento-me. Descanso. Não há vestígios de nada. Sem forças levanto-me. Olho para trás e reparo que o sítio que deixei para trás é uma pequena vila em ruínas. O que é que se passou? Deixo a vila para trás e caminho em busca de água. Um ribeiro. Não há vestígios de nada com vida. De repente, pareceu-me ter visto algo verde. De pequeno tamanho mas, ainda assim, verde. Olho à volta à procura.

        
       Talvez tenha sido uma alucinação. Continuo à procura e, finalmente, encontro. Aproximo-me com curiosidade de saber o que seja. Reparo que é uma belíssima pequena flor. No meio de tudo isto sem nada existe esta pequena flor. Olho em volta em busca de mais alguma. Não há mais nenhuma. Olho novamente para a flor e confirmo se não será uma alucinação.
A flor está aqui comigo. Não há mais vestígios de nada com vida. Sento-me. Contemplo a flor. A sua beleza é divinal e a sua existência é um milagre. Aproximo-me da flor. É realmente bela. Penso que poderia passar aqui o resto dos meus poucos dias de vida. A flor dança para mim com o vento e ao som do vento. De certa forma, a flor parece que se ri para mim. Eu rio-me para ela. O vento cala-se e a dança acaba. Para agradecer à flor a sua dança, aproximo-me mais e tento beijá-la. Fecho os olhos e aproximo-me ainda mais.
Beijo-a. Sinto as suas pétalas nos meus lábios e sinto o seu perfume. Por segundos, aprecio a delicadeza do momento. Abro os olhos. Reparo que, entretanto, caiu uma pétala. Estupefacto com o acontecimento, afasto-me um pouco. Acreditando que a culpa fosse do vento e não minha, aproximo-me outra vez e tento mais um beijo. Desta vez, o toque da flor é mais intenso. De olhos fechados, sinto o toque de cada pétala nos meus lábios. Abro os meus olhos e, para meu espanto, vejo que caíram todas as pétalas, à excepção de uma.
Facas. Sinto que o meu beijo e a minha paixão mataram esta flor. Sinto facas a cortarem-me por dentro. Sinto facas a cortarem o momento e sinto que o toque do meu beijo foi como o golpe de uma destas facas que me rasgam. Frágil, a minha flor parece que tenta mais uma dança ao vento. Afasto-me um pouco e contemplo o momento. Mas depressa me apercebo que não há vento. Não há dança. A flor, cada vez mais inclinada, deixa cair a sua última pétala e acaba por cair no chão por cima de todas as suas pétalas. Com as facas a rasgarem-me cada vez mais, sinto-me quase morto. Sem forças enterro a flor e as pétalas com a esperança de que a flor nascerá outra vez para mim. E assim aqui fico. Aqui fico a olhar para o monte da terra. Aqui fico e com as minhas lágrimas rego a minha flor.
À tua espera, aqui ficarei…
Texto inédito de Adriano Guerreiro, com ilustrações de Manuel Ribeiro
Nota: Adriano Guerreiro e Manuel Ribeiro são alunos do 2º ano do curso de Artes Plásticas e Multimédia do IPBeja.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Jornal de Notícias, "Torre de Babel com 30 mil livros erguida em Buenos Aires"




Uma Torre de Babel com 25 metros de altura, construída em espiral com 30 mil livros de todas as línguas, foi erigida numa praça do centro de Buenos Aires por iniciativa da artista argentina Marta Minujin.

"A ideia é unir todas as raças através do livro", explicou a artista sobre a sua obra monumental que será inaugurada, na próxima quarta-feira, e "existirá" na praça San Martin até ao final do mês.


A artista decidiu criar esta Torre de Babel, porque Buenos Aires é a Capital Mundial do Livro 2011, proclamada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).
A partir de quinta-feira, os seus sete andares podem ser subidos gratuitamente por grupos de até 100 pessoas e a visita será acompanhada por uma banda sonora criada por Marta Minujin, que dá a ouvir a palavra "livro" em todas as línguas do mundo.
Perto de metade dos livros que serviram de "tijolos" para a construção da torre foi oferecida por 50 embaixadas em Buenos Aires, mas a outra metade vem de doações de milhares de pessoas mobilizadas graças a uma campanha pública para esta "obra de participação maciça", nas palavras da artista.
No último dia de exposição da peça, 28 de Maio, os visitantes podem escolher um livro na língua da sua preferência e levá-lo.
Alguns dos outros livros serão dados a bibliotecas e os restantes serão catalogados e formarão a primeira colecção multilingue da capital argentina, baptizada como Biblioteca de Babel, em homenagem à "criatividade e à cultura de todos os povos do mundo", indicou.
No rés-do-chão da torre, podem ver-se obras de literatura, história e geografia mundiais. O primeiro e o segundo andares são dedicados a livros do continente americano, o terceiro e o quarto à Europa, o quinto e o sexto à Ásia.
Esta Torre de Babel lembra uma outra criação de Marta Minujin, o Partenon dos Livros, construído em 1983 em Buenos Aires com títulos proibidos durante a ditadura militar (1976-83), para uma reflexão sobre a censura.
Conhecida pelas suas criações "habitáveis" formadas por outros materiais como almofadas ou garrafas, que convidam o público a entrar na obra para a viver, Marta Minujin é uma pioneira do maior movimento artístico dos anos 1960 na Argentina, o Institut Di Tella.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Eliane Brum, "Meu filho, você não merece nada"


Meu filho, você não merece nada
A crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada
Eliane Brum
Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.
Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.
Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.
Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.
Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.
É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?
(…)
Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.
(…)
O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.
(…)
Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.


Textos publicados por Eliane Brum na coluna “Nossa Sociedade” na revista Época:http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI63840-15230,00-ARQUIVO+ELIANE+BRUM.html

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Tuiavii de Tiavéa, "Do metal redondo e do papel forte"


(…) A verdadeira divindade do homem branco é o metal redondo e o papel forte a que ele chama dinheiro. Quando se fala a um Europeu do Deus do amor, ele faz uma careta e sorri. Sorri de tão ingénua maneira de pensar. Quando lhe estendem uma peça de metal redondo e brilhante ou um papel grande e forte, logo os seus olhos brilham e a saliva lhe assoma aos lábios. O dinheiro é o objecto do seu amor, o dinheiro é a sua divindade. Todos os homens brancos pensam nisso, até mesmo a dormir. Muitos há cujas mãos se tornam aduncas e semelhantes às patas da grande formiga dos bosques, à força de manejarem a todo o instante o metal e o papel. Muitos há cujos olhos se tornaram cegos à força de contarem o dinheiro. Muitos há que pelo dinheiro sacrificaram o riso, a honra, a consciência, a felicidade e até mesmo mulher e filhos. Quase todos eles sacrificam a saúde ao metal redondo e ao papel forte, isto é, ao dinheiro. Trazem-no dentro dos panos, dobrado e metido em duras peles.
(…)
É preciso notar que nas terras do homem branco é impossível viver sem dinheiro, uma só vez que seja, do nascer ao pôr do sol. Se não tiveres dinheiro nenhum, não poderás matar a fome nem mitigar a sede, não encontrarás esteira para a noite, serás lançado no fale pui pui [prisão] e falar-se á de ti em muitos e variados papéis [jornais]; tudo isto só por não teres dinheiro! Tens que pagar, isto é, tens que dar dinheiro pelo chão sobre o qual caminhas, pelo sítio onde se encontra a tua cabana, pela esteira onde passas a noite, pela luz que ilumina a tua cabana. Tens que pagar para teres direito a disparar sobre um pombo ou para banhares o teu corpo no rio. Sempre que queiras ir aos lugares onde os homens costumam folgar, onde eles cantam e dançam, ou sempre que queiras pedir um conselho ao teu irmão, terás que dar muito metal redondo e papel forte em troca. Por tudo tens que pagar. (…) Até para nasceres tens que pagar e quando morreres a tua aiga [família] tem que pagar pela tua morte, para poder depositar o teu corpo na terra e pela grande pedra que te põem sobre a tumba, em sinal de recordação.
Descobri uma única coisa pela qual se não pede ainda dinheiro na Europa, coisa que cada um pode fazer as vezes que quiser: respirar o ar. Julgo que terá ficado esquecido, mas não me admirava nada que, se as minhas palavras fossem ouvidas na Europa, não exigissem logo, por via disso, algum metal redondo e algum papel forte. Porque os Europeus estão sempre à cata de novos motivos para pedir dinheiro.
(…)
Todos nós, meus sábios irmãos, somos pobres. A nossa terra é a mais pobre à luz do sol. Não temos metal redondo e papel forte que cheguem para encher um baú. Segundo o modo de pensar do Papalagui [o Branco; o Senhor], somos uns pobres mendigos. E no entanto! quando vejo os vossos olhos e os comparo com os dos ricos aliis [amos], os deles parecem-me embaciados, mortiços e cansados, ao passo que os vossos irradiam, como a grande luz, alegria, força, vida e saúde. (…) Prezemos os nossos hábitos, que não permitem que um possua imenso e o outro nada, ou que um possua muito mais que o outro! E assim não nos tornaremos, em nosso coração, iguais ao Papalagui, que é capaz de se sentir feliz e contente mesmo quando, ao lado, o seu irmão está triste e infeliz.
Tuiavii de Tiavéa. (1989). O Papalagui. Lisboa: Antígona. pp. 41-49.*
* Esta obra contém os discursos do chefe de tribo Tuiavii de Tiavéa, da ilha de Upolu, na Samoa, destinados aos seus compatriotas e recolhidos pelo escritor alemão Erich Scheurmann (1878-1957), que viveu nesta comunidade por mais de um ano. O livro foi publicado pela primeira vez, na Alemanha, em 1920. Esta é uma tradução de Luiza Neto Jorge, a partir da versão francesa de Urs Dominique Sprenger.