quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Jay Griffiths, "Life's too Shoor"


Overworked? Not enough time for yourself? Stressed? Hurried? Always behind? Always letting people down or cancelling things because you can´t achieve all you wanted? Everyone has 168 hours every week, yet some will always feel over-pressured, coerced, struggling against time, and others will always get things done calmly, in time, with time. So, crucially, how do you change from being one of the first to one of the second?
The late twentieth century which has spawned such unkind attitudes to work, has also come up with some remedies – Personal Time Managers – purveyors of sage advice. Some of their best is the simplest; don’t aim to do so much that you constantly castigate yourself for failure. Enjoy what you have done, rather than punish yourself for what you haven’t. Things that can trip you up include a lack of sleep, disorganized work places and an inability to focus on one thing at a time, as well as, obviously, a workload simply too great for anyone to handle.
Time managers suggest writing achievable lists of things-to-do, with very big items broken down into smaller pieces which can be done in a few hours. Don’t, don’t, don’t schedule all your time as grey, grey work-time. Schedule fun. Plan exercise. Give yourself time for pleasure and for ordinary living things. Rank your to-do list by importance, 1, 2, 3, says one time manager. And then, he adds, every now and then just cross off all the threes. Don’t promise to do anything unless you can really do it, because this hurts your promisee and snags you up in guilt. Be strategic in planning work, make goals, but be prepared to vary them. Accept the blacklog of things-that-have-yet-not-been-done. It’s normal. Don’t let it be a source of stress, but an indicator of whether you’re taking on too much. Have just a few hours every day which are inviolate – no phone, no fax, no visits – and steam ahead with heavily-concentrated work then. Schedule working hours, not all hours of day and night are interchangeable, and what one can do in one hour in the morning might take four hours at night.
In short, be nice to yourself, and remember what the anonymous author of The Cloud of the Unknowing in 1370 wrote with limpid simplicity: ‘there is nothing more precious than time. Time is made for man, not man for time.’ And remember, in this world of ruthless efficiency, that ninety-five per cent of what a butterfly does is inefficient. (Allegedly.)



Jay Griffiths: Pip Pip. A Sideways Look at Time. London: Flamingo, 1999: pp.169, 170.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

José Saramago, Excerto de "As Intermitências da Morte"


Era uma vez, no antigo país das fábulas, uma família em que havia um pai, uma mãe, um avô que era o pai do pai e aquela já mencionada criança de oito anos, um rapazinho. Ora sucedia que o avô já tinha muita idade, por isso tremiam-lhe as mãos e deixava cair a comida da boca quando estavam à mesa, o que causava grande irritação ao filho e à nora, sempre a dizerem-lhe que tivesse cuidado com o que fazia, mas o pobre velho, por mais que quisesse, não conseguia conter as tremuras, pior ainda se lhe ralhavam, e o resultado era estar sempre a sujar a toalha ou a deixar cair comida ao chão, para já não falar do guardanapo que lhe atavam ao pescoço e que era preciso mudar-lhe três vezes ao dia, ao almoço, ao jantar e à ceia. Estavam as coisas neste pé e sem nenhuma expectativa de melhora quando o filho resolveu acabar com a desagradável situação. Apareceu em casa com uma tigela de madeira e disse ao pai, A partir de hoje passará a comer daqui, senta-se na soleira da porta porque é mais fácil de limpar e assim já a sua nora não terá de preocupar-se com tantas toalhas e tantos guardanapos sujos. E assim foi. Almoço, jantar e ceia, o velho sentado sozinho na soleira da porta, levando a comida à boca conforme lhe era possível, metade perdia-se no caminho, uma parte da outra metade escorria-lhe pelo queixo abaixo, não era muito o que lhe descia finalmente pelo que o vulgo chama o canal da sopa. Ao neto parecia não lhe importar o feio tratamento que estavam a dar ao avô, olhava-o, depois olhava o pai e a mãe, e continuava a comer como se não tivesse nada que ver com o caso. Até que uma tarde, ao regressar do trabalho, o pai viu o filho a trabalhar com uma navalha um pedaço de madeira e julgou que, como era normal e corrente nessas épocas remotas, estivesse a construir um brinquedo por suas próprias mãos. No dia seguinte, porém, deu-se conta de que não se tratava de um carrinho, pelo menos não se via sítio onde se lhe pudessem encaixar umas rodas, e então perguntou, Que estás a fazer. O rapaz fingiu que não tinha ouvido e continuou a escavar na madeira com a ponta da navalha, isto passou-se no tempo em que os pais eram menos assustadiços e não corriam a tirar das mãos dos filhos um instrumento de tanta utilidade para a fabricação de brinquedos. Não ouviste, que estás a fazer com esse pau, tomou o pai a perguntar, e o filho, sem levantar a vista da operação, respondeu, Estou a fazer uma tigela para quando o pai for velho e lhe tremerem as mãos, para quando o mandarem comer na soleira da porta, como fizeram ao avô.

José Saramago (2005). As Intermitências da Morte. Lisboa: Caminho. pp. 85-87.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Fernando Pessoa, Excerto do "Livro do Desassossego"


Meditei hoje, num intervalo de sentir, na forma de prosa de que uso. Em verdade, como escrevo? Tive, como muitos têm tido, a vontade pervertida de querer ter um sistema e uma norma. E certo que escrevi antes da norma e do sistema; nisso, porém, não sou diferente dos outros.
Analisando-me à tarde, descubro que o meu sistema de estilo assenta em dois princípios, e imediatamente, e à boa maneira dos bons clássicos, erijo esses dois princípios em fundamentos gerais de todo estilo: dizer o que se sente exactamente como se sente - claramente, se é claro; obscuramente, se é obscuro; confusamente, se é confuso -; compreender que a gramática é um instrumento, e não uma lei.
Suponhamos que vejo diante de nós uma rapariga de modos masculinos. Um ente humano vulgar dirá dela, "Aquela rapariga parece um rapaz". Um outro ente humano vulgar, já mais próximo da consciência de que falar é dizer, dirá dela, "Aquela rapariga é um rapaz". Outro ainda, igualmente consciente dos deveres da expressão, mas mais animado do afecto pela concisão, que é a luxúria do pensamento, dirá dela, "Aquele rapaz". Eu direi, "Aquela rapaz", violando a mais elementar das regras da gramática, que manda que haja concordância de género, como de número, entre a voz substantiva e a adjectiva. E terei dito bem; terei falado em absoluto, fotograficamente, fora da chateza, da norma, e da quotidianidade. Não terei falado: terei dito.
A gramática, definindo o uso, faz divisões legítimas e falsas. Divide, por exemplo, os verbos em transitivos e intransitivos; porém, o homem de saber dizer tem muitas vezes que converter um verbo transitivo em intransitivo para fotografar o que sente, e não para, como o comum dos animais homens, o ver às escuras. Se quiser dizer que existo, direi "Sou". Se quiser dizer que  existo como alma separada, direi "Sou eu". Mas se quiser dizer que existo como entidade que a si mesma se dirige e forma, que exerce junto de si mesma a função divina de se criar, como hei-de empregar o verbo "ser" senão convertendo-o subitamente em transitivo? E então, triunfalmente, antigramaticalmente supremo, direi "Sou-me". Terei dito uma filosofia em duas palavras pequenas. Que preferível não é isto a não dizer nada em quarenta frases? Que mais se pode exigir da filosofia e da dicção?
Obedeça à gramática quem não sabe pensar o que sente. Sirva-se dela quem sabe mandar nas suas expressões. Conta-se de Sigismundo, Rei de Roma, que tendo, num discurso público, cometido um erro de gramática, respondeu a quem dele lhe falou, "Sou Rei de Roma, e acima da gramática". E a história narra que ficou sendo conhecido nela como Sigismundo "super-grammaticam". Maravilhoso símbolo! Cada homem que sabe dizer o que diz é, em seu modo, Rei de Roma. O título não é mau, e a alma é ser-se.

Fernando Pessoa (2000). Livro do Desassossego. Linda-a-Velha: Biblioteca Visão, pp. 63-64.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Nuno Júdice, "A varanda de Julieta"


Uma vez, entrei em verona para não entrar
em veneza. Entre o vê de verona e o vê
de veneza optei por ver verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvanece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas Julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.


Nuno Júdice (2001). “A Varanda de Julieta”. In: Pedro, Lembrando Inês. Lisboa: Dom Quixote.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Manuel António Pina, Excerto de “A Língua Que os Livros “Para” Crianças Falam”


 […]
Esta é, como de início adverti, a perspectiva particular de um particular escritor de livros, alguns deles provavelmente “para” crianças, ou também “para” crianças (porque sei lá para quem os livros que escrevo são!). Nada é decerto tão perigoso do que a certeza de que se tem razão, e estou convicto de que outros escritores com experiências literárias substancialmente diferentes hão-de dizer, sobre a matéria, coisas do mesmo modo substancialmente diferentes. Por outro lado, a verdade é que a perspectiva literária sobre a literatura não é a única possível. No caso da literatura “para” crianças, a “língua que os livros falam” pode ser, por exemplo, e durante séculos foi [e ainda hoje muitas vezes é], principalmente a da educação – moral, religiosa, ou outra – ou seja, a da razão.
Mas eu não sou um educador, e a única forma de educação que sou capaz de vislumbrar na literatura é a educação para a liberdade. Não a liberdade política, ou as diferentes liberdades em que a liberdade política pode analisar-se, mas a liberté libre (e talvez se possa igualmente dizer liberte livre) de Rimbaud.
[…]
Durante muito tempo, os temas da literatura “para” crianças eram limitados, em virtude, principalmente, da sua assumida função “educativa” e das próprias concepções dominantes de “educação”.
[…]
A importância da literatura para a criança, como para o adulto, é que ela é um “organizador fundamental”, que protege a vida contra a automatização e contra a “tragédia da rotina” que ameaça a afectividade e as relações. No caso da criança, a literatura pode ajudá-la a transformar-se naquilo que ela mais profundamente é. Seguindo ainda uma vez a lição de Jacobson sobre poesia, a criança que lê torna-se diferente, brinca diferentemente, relaciona-se diferentemente com o mundo e consigo mesma, ama diferentemente, exprime-se e comove-se diferentemente. Porque a literatura, provavelmente mais e mais profundamente do que a “educação”, transforma.
O momento da leitura [mesmo quando alguém lê para nós, ou quando lemos em conjunto] é um momento de solidão e de liberdade. Ler é decifrar-se, ler-se a si mesmo naquilo que se lê. A responsabilidade do escritor vem principalmente daí. Steiner cita um salmo que fala de “pôr a mão sobre o ser essencial do outro”. É algo parecido que se passa no mágico e intenso momento de partilha de identidades em que a escrita se encontra com a leitura. Nesse momento, todo o leitor é sempre uma criança, tão vulnerável quanto o próprio escritor, com que se confunde, pois do mesmo modo que o escritor é um leitor lendo-se por escrito, também cada leitor [ou, talvez melhor, cada leitura] reescreve o que lê e se inscreve no que lê.
A literatura, diz Pound, é linguagem carregada de sentido; de sentidos, digo eu, pois que uma obra literária é um espaço aberto e evasivo de sentidos, de todos os sentidos que as palavras fazem e não fazem e dos sentidos que o próprio sentido umas vezes faz e outras vezes não faz.
Por isso é que, do ponto de vista de um escritor [e também de um leitor] de literatura, a língua que os livros falam, e particularmente a língua que os livros de literatura “para” crianças falam, é fundamentalmente a da liberdade, uma língua multímoda em cujo interior tudo é possível, o dito, o não dito, o interdito e o entredito. Como nos jogos infantis de faz de conta.
Talvez a infância seja uma espécie de ficção que contamos a nós mesmos. Às vezes sob a forma de literatura “para” crianças. E, quem sabe?, “dirigindo-a” [mesmo se não nos apercebemos disso] a nós mesmos, ou àquilo que, em nós mesmos, profundamente somos, mais talvez do que às próprias crianças.

Manuel António Pina (2010). “A Língua Que os Livros “Para” Crianças Falam”. In Duarte, Rita Taborda (coord.). XVIII Encontro de Literatura para Crianças Palavra de Trapos. A Língua que os Livros Falam. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. pp. 20-23

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Marguerite Yourcenar, Excerto de Memórias de Adriano

[…]
A ficção oficial quer que um imperador romano nasça em Roma, mas foi em Itálica que eu nasci; foi a esse país seco e no entanto fértil que sobrepus mais tarde muitas regiões do mundo. A ficção tem coisas boas: prova que as decisões do espírito e da vontade transcendem as circunstâncias. O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo: as minhas primeiras pátrias foram os livros. Num grau inferior, as escolas. As de Espanha tinham-se ressentido dos ócios da província. A escola de Terêncio Scauro, em Roma, ensinava mediocramente os filósofos e os poetas, mas preparava bastante bem para as vicissitudes da existência humana: os magísteres exerciam sobre os discípulos uma tirania que eu teria vergonha de impor aos homens; cada um, encerrado nos estreitos limites do seu saber, desprezava os colegas que, tão estreitamente como eles, sabiam outra coisa. Estes pedantes enrouqueciam em disputas de palavras. As querelas de precedência, as intrigas, as calúnias familiarizaram-me com o que eu devia encontrar depois em todas as sociedades em que vivi, e a tudo isso juntava-se a brutalidade da infância. Todavia, estimei alguns dos meus mestres e essas relações estranhamente íntimas e estranhamente ilusivas que existem entre o professor e o aluno e amei as sereias cantando no fundo de uma voz trémula, que pela primeira vez nos revela uma obra-prima ou nos dá a conhecer uma ideia nova. No fim de tudo, o maior sedutor não é Alcibíades, é Sócrates.
Os métodos dos gramáticos e dos retóricos são talvez menos absurdos do que eu pensava nessa época em que estava sujeito a eles. A gramática, com a sua mistura de regra lógica e de uso arbitrário, propõe ao jovem espírito um antegosto pelo que lhe oferecerão mais tarde as ciências do comportamento humano, o direito ou a moral, todos esses sistemas em que o homem codificou a sua experiência instintiva. Quanto aos exercícios de retórica em que éramos sucessivamente Xerxes e Temístocles, Octávio e Marco António, exaltavam-me; sentia-me Proteu. Ensinaram-me a entrar alternadamente no pensamento de cada homem, a compreender que cada um se decide, vive e morre segundo as suas próprias leis. A leitura dos poetas teve efeitos mais perturbantes ainda: não tenho a certeza de que a descoberta do amor seja forçosamente mais deliciosa que a da poesia. Esta transformou-me: a iniciação da morte não me introduzirá mais profundamente num outro mundo que certo crepúsculo de Virgílio. Mais tarde preferi a rudeza de Énio, tão próxima das origens sagradas da raça, ou a sábia amargura de Lucrécio, ou à generosa abundância de Homero, a humilde parcimónia de Hesíodo. Apreciei sobretudo os poetas mais complicados e os mais obscuros, que obrigam o meu pensamento à mais difícil ginástica, os mais recentes ou os mais antigos, aqueles que me abrem caminhos novos ou me ajudam a reencontrar pistas perdidas. [...]
Marguerite Yourcenar (1983). Memórias de Adriano (2ª Ed.). (Maria Lamas, Trad.)Lousã:
Editora Ulisseia. pp.34-35. Publicado pela primeira vez em 1974 pela Gallimard.

Marguerite Yourcenar – Le paradoxe de l’écrivant (video) http://www.youtube.com/watch?v=ovp90NAgkTs&feature=related