segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Nuno Júdice, "A varanda de Julieta"


Uma vez, entrei em verona para não entrar
em veneza. Entre o vê de verona e o vê
de veneza optei por ver verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvanece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas Julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.


Nuno Júdice (2001). “A Varanda de Julieta”. In: Pedro, Lembrando Inês. Lisboa: Dom Quixote.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Manuel António Pina, Excerto de “A Língua Que os Livros “Para” Crianças Falam”


 […]
Esta é, como de início adverti, a perspectiva particular de um particular escritor de livros, alguns deles provavelmente “para” crianças, ou também “para” crianças (porque sei lá para quem os livros que escrevo são!). Nada é decerto tão perigoso do que a certeza de que se tem razão, e estou convicto de que outros escritores com experiências literárias substancialmente diferentes hão-de dizer, sobre a matéria, coisas do mesmo modo substancialmente diferentes. Por outro lado, a verdade é que a perspectiva literária sobre a literatura não é a única possível. No caso da literatura “para” crianças, a “língua que os livros falam” pode ser, por exemplo, e durante séculos foi [e ainda hoje muitas vezes é], principalmente a da educação – moral, religiosa, ou outra – ou seja, a da razão.
Mas eu não sou um educador, e a única forma de educação que sou capaz de vislumbrar na literatura é a educação para a liberdade. Não a liberdade política, ou as diferentes liberdades em que a liberdade política pode analisar-se, mas a liberté libre (e talvez se possa igualmente dizer liberte livre) de Rimbaud.
[…]
Durante muito tempo, os temas da literatura “para” crianças eram limitados, em virtude, principalmente, da sua assumida função “educativa” e das próprias concepções dominantes de “educação”.
[…]
A importância da literatura para a criança, como para o adulto, é que ela é um “organizador fundamental”, que protege a vida contra a automatização e contra a “tragédia da rotina” que ameaça a afectividade e as relações. No caso da criança, a literatura pode ajudá-la a transformar-se naquilo que ela mais profundamente é. Seguindo ainda uma vez a lição de Jacobson sobre poesia, a criança que lê torna-se diferente, brinca diferentemente, relaciona-se diferentemente com o mundo e consigo mesma, ama diferentemente, exprime-se e comove-se diferentemente. Porque a literatura, provavelmente mais e mais profundamente do que a “educação”, transforma.
O momento da leitura [mesmo quando alguém lê para nós, ou quando lemos em conjunto] é um momento de solidão e de liberdade. Ler é decifrar-se, ler-se a si mesmo naquilo que se lê. A responsabilidade do escritor vem principalmente daí. Steiner cita um salmo que fala de “pôr a mão sobre o ser essencial do outro”. É algo parecido que se passa no mágico e intenso momento de partilha de identidades em que a escrita se encontra com a leitura. Nesse momento, todo o leitor é sempre uma criança, tão vulnerável quanto o próprio escritor, com que se confunde, pois do mesmo modo que o escritor é um leitor lendo-se por escrito, também cada leitor [ou, talvez melhor, cada leitura] reescreve o que lê e se inscreve no que lê.
A literatura, diz Pound, é linguagem carregada de sentido; de sentidos, digo eu, pois que uma obra literária é um espaço aberto e evasivo de sentidos, de todos os sentidos que as palavras fazem e não fazem e dos sentidos que o próprio sentido umas vezes faz e outras vezes não faz.
Por isso é que, do ponto de vista de um escritor [e também de um leitor] de literatura, a língua que os livros falam, e particularmente a língua que os livros de literatura “para” crianças falam, é fundamentalmente a da liberdade, uma língua multímoda em cujo interior tudo é possível, o dito, o não dito, o interdito e o entredito. Como nos jogos infantis de faz de conta.
Talvez a infância seja uma espécie de ficção que contamos a nós mesmos. Às vezes sob a forma de literatura “para” crianças. E, quem sabe?, “dirigindo-a” [mesmo se não nos apercebemos disso] a nós mesmos, ou àquilo que, em nós mesmos, profundamente somos, mais talvez do que às próprias crianças.

Manuel António Pina (2010). “A Língua Que os Livros “Para” Crianças Falam”. In Duarte, Rita Taborda (coord.). XVIII Encontro de Literatura para Crianças Palavra de Trapos. A Língua que os Livros Falam. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. pp. 20-23

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Marguerite Yourcenar, Excerto de Memórias de Adriano

[…]
A ficção oficial quer que um imperador romano nasça em Roma, mas foi em Itálica que eu nasci; foi a esse país seco e no entanto fértil que sobrepus mais tarde muitas regiões do mundo. A ficção tem coisas boas: prova que as decisões do espírito e da vontade transcendem as circunstâncias. O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo: as minhas primeiras pátrias foram os livros. Num grau inferior, as escolas. As de Espanha tinham-se ressentido dos ócios da província. A escola de Terêncio Scauro, em Roma, ensinava mediocramente os filósofos e os poetas, mas preparava bastante bem para as vicissitudes da existência humana: os magísteres exerciam sobre os discípulos uma tirania que eu teria vergonha de impor aos homens; cada um, encerrado nos estreitos limites do seu saber, desprezava os colegas que, tão estreitamente como eles, sabiam outra coisa. Estes pedantes enrouqueciam em disputas de palavras. As querelas de precedência, as intrigas, as calúnias familiarizaram-me com o que eu devia encontrar depois em todas as sociedades em que vivi, e a tudo isso juntava-se a brutalidade da infância. Todavia, estimei alguns dos meus mestres e essas relações estranhamente íntimas e estranhamente ilusivas que existem entre o professor e o aluno e amei as sereias cantando no fundo de uma voz trémula, que pela primeira vez nos revela uma obra-prima ou nos dá a conhecer uma ideia nova. No fim de tudo, o maior sedutor não é Alcibíades, é Sócrates.
Os métodos dos gramáticos e dos retóricos são talvez menos absurdos do que eu pensava nessa época em que estava sujeito a eles. A gramática, com a sua mistura de regra lógica e de uso arbitrário, propõe ao jovem espírito um antegosto pelo que lhe oferecerão mais tarde as ciências do comportamento humano, o direito ou a moral, todos esses sistemas em que o homem codificou a sua experiência instintiva. Quanto aos exercícios de retórica em que éramos sucessivamente Xerxes e Temístocles, Octávio e Marco António, exaltavam-me; sentia-me Proteu. Ensinaram-me a entrar alternadamente no pensamento de cada homem, a compreender que cada um se decide, vive e morre segundo as suas próprias leis. A leitura dos poetas teve efeitos mais perturbantes ainda: não tenho a certeza de que a descoberta do amor seja forçosamente mais deliciosa que a da poesia. Esta transformou-me: a iniciação da morte não me introduzirá mais profundamente num outro mundo que certo crepúsculo de Virgílio. Mais tarde preferi a rudeza de Énio, tão próxima das origens sagradas da raça, ou a sábia amargura de Lucrécio, ou à generosa abundância de Homero, a humilde parcimónia de Hesíodo. Apreciei sobretudo os poetas mais complicados e os mais obscuros, que obrigam o meu pensamento à mais difícil ginástica, os mais recentes ou os mais antigos, aqueles que me abrem caminhos novos ou me ajudam a reencontrar pistas perdidas. [...]
Marguerite Yourcenar (1983). Memórias de Adriano (2ª Ed.). (Maria Lamas, Trad.)Lousã:
Editora Ulisseia. pp.34-35. Publicado pela primeira vez em 1974 pela Gallimard.

Marguerite Yourcenar – Le paradoxe de l’écrivant (video) http://www.youtube.com/watch?v=ovp90NAgkTs&feature=related

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Fernando Pessoa, Excerto do "Livro do Desassossego"


Viagem nunca feita
Foi por um crepúsculo de vago outono que eu parti para essa viagem que nunca fiz.
O céu – impossivelmente me recordo – era dum resto roxo de ouro triste, e a linha agónica dos montes, lúcida, tinha uma auréola cujos tons de morte lhe penetravam, amaciadores, na astúcia do seu contorno. Da outra amurada do barco (estava mais frio e era mais noite sob esse lado do toldo) o oceano tremia-se até onde o horizonte leste se entristecia, e onde, pondo penumbras de noite na linha líquida e obscura do mar extremo, um hálito de treva pairava como uma névoa em dia de calor.
O mar, recordo-me, tinha tonalidades de sombra, de mistura com figuras ondeadas de vaga luz – e era tudo misterioso como uma ideia triste numa hora de alegria, profética não sei de quê.
Eu não parti de um porto conhecido. Nem hoje sei que porto era, porque ainda nunca lá estive. Também, igualmente, o propósito ritual da minha viagem era ir em demanda de portos inexistentes – portos que fossem apenas o entrar-para-portos; enseadas esquecidas de rios estreitos entre cidades irrepreensivelmente irreais. Julgais, sem dúvida, ao ler-me, que as minhas palavras são absurdas. É que nunca viajastes como eu.
Eu parti? Eu não vos juraria que parti. Encontrei-me em outras partes, noutros portos, passei por cidades que não eram aquela, ainda que nem aquela nem essas fossem cidades algumas. Jurar-vos que fui eu que parti e não a paisagem, que fui eu que visitei outras terras e não elas que me visitaram – não vo-lo posso fazer. Eu que, não sabendo o que é a vida, nem sei se sou eu que a vivo se é ela que me vive (tenha esse verbo oco «viver» o sentido que quiser ter), decerto não vos irei jurar qualquer coisa.
Viajei. Julgo inútil explicar-vos que não levei nem meses, nem dias, nem outra quantidade qualquer de qualquer medida de tempo a viajar. Viajei no tempo é certo, mas não do lado de cá do tempo, onde o contamos por horas, dias e meses; foi do outro lado do tempo que eu viajei, onde o tempo se não conta por medida. Decorre, mas sem que seja possível medi-lo. É como que mais rápido que o tempo que vemos viver-nos. Perguntais-me, a vós, de certo, que sentido têm estas frases; nunca erreis assim. Despedi-vos do erro infantil de perguntar o sentido às coisas e às palavras. Nada tem um sentido.
Em que barco fiz essa viagem? No vapor Qualquer. Rides. Eu também, e de vós talvez. Quem vos diz, e a mim, que não escrevo símbolos para os deuses compreenderem?
Não importa. Parti pelo crepúsculo. Tenho ainda no ouvido o ruído férreo de puxar a âncora a vapor. No soslaio da minha memória movem-se ainda lentamente, para enfim entrarem na sua posição de inércia, os braços do guindaste de bordo que havia horas haviam magoado a minha vista de contínuos caixotes e barris. Estes rompiam súbitos, presos de roda por uma corrente, de por cima da amurada onde esbarravam, arranhando, e depois, oscilando, se iam deixando empurrar, empurrar, até ficarem por cima do porão, para onde, súbitos, desciam (…), até, com um choque surdo e madeirento, chegarem esmagadoramente a um lugar oculto do porão. Depois soavam lá em baixo o desatarem-os; em seguida subia só a corrente chincalhante no ar, e recomeçava tudo, como que inutilmente.
Eu para quê vos conto isto? Porque é absurdo estar-vos a contá-lo, visto que é das minhas viagens que disse que vos falaria.
Visitei Novas Europas e Constantinoplas outras acolheram a minha vinda veleira em Bósforos falsos. Vinda veleira espantais? É como vos digo, assim mesmo. O vapor em que parti chegou barco de vela ao porto [...]. Que isto é impossível, dizeis. Por isso me aconteceu.
Chegaram-nos, em outros vapores, notícias de guerras sonhadas em Índias impossíveis. E, ao ouvir falar dessas terras, tínhamos importunamente saudades da nossa, deixada tão atrás, quem sabe se naquele mundo.
Fernando Pessoa (1987). Livro do Desassossego. In Obras em Prosa, Vol. I,
org. por João Gaspar Simões. Lisboa: Círculo de Leitores. pp. 245-246.
Nota: [...] - palavra ou frase não lida no texto original
Obra integral disponibilizada pelo Plano Nacional de Leitura: http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/clubedeleituras/upload/e_livros/clle000022.pdf

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Luis Pellegrini, Excerto de "Viagens à Procura do Self: Os Pés Alados de Mercúrio"


[…]
Viagens são assim: oportunidades de iniciação. Essa é a sua magia.
Mas é bom dizer desde já que as viagens com sentido iniciático não são apenas aquelas feitas no mundo de fora. Mais tarde vim a descobrir que viagens no mundo de dentro podem perfeitamente produzir o mesmo efeito. Como as viagens que fizemos nos nossos sonhos, ou mesmo nos devaneios quando despertos.
Viajar, pelo mundo ou por dentro de si mesmo, é fundamental para os processos do crescimento pessoal e do autoconhecimento. Por quê? Em primeiro lugar, porque tomar contacto com lugares desconhecidos, pelo simples facto de tirar a pessoa do seu quotidiano habitual, obrigando-a a estar mais desperta e atenta, representa a oportunidade de pôr em prática a capacidade de adaptar-se a situações novas. Adaptabilidade é o melhor sinónimo de inteligência: sem a capacidade de adaptação aplicada a qualquer situação da vida, não se vai longe no aprendizado da relação harmoniosa consigo mesmo e com o mundo.
Terá a viagem, em si mesma, algum sentido de tipo espiritual? Será ela um acto sagrado? Na época actual do turismo de massas, em que se desenvolve inclusive uma nova área científica chamada sociologia do turismo, será ainda possível distinguir o valor simbólico original que leva a pessoa a viajar, a abandonar temporariamente o conhecido em troca do desconhecido?
Qualquer psicólogo, filósofo ou poeta sabe que o simbolismo da viagem, numa perspectiva ao mesmo tempo psicológica e transcendental, representa a procura e a descoberta de um centro espiritual interior. Aquilo que Carl Jung chamava de self e Gautama Buda chamava de eu superior. A viagem exprime também um desejo profundo de transformação interior que se projecta no desejo da viagem exterior. Representa, mais que um simples deslocamento físico no espaço e no tempo, a necessidade de experiências novas e renovadoras. Como consequência, entende-se que estudar, investigar, procurar intensamente o novo e o oculto são também modalidades de viajar, ou seja, equivalentes espirituais e simbólicos da viagem.
Viagem, definida de outro jeito, é transformação pelo movimento. E todo o movimento que acontece na nossa vida converge de algum modo para aquele centro espiritual interno.
O italiano Giuseppe Tucci, um dos grandes orientalistas e exploradores da Ásia neste século, já no fim da vida revelou a um grupo de alpinistas algo importante a respeito do sentido profundo das viagens dos grandes exploradores. Tucci falava com total conhecimento de causa. Além de ser ele mesmo um grande apaixonado pelas viagens, conhecera praticamente todos os descobridores importantes do seu tempo. Todos, segundo ele, cultivaram secretamente a esperança de descobrir um dia, para além de qualquer passo esquecido de montanha, um vale desconhecido e risonho, habitado por gente que permanecera séculos isolada do resto da humanidade: o mito do reino perdido de Shangri-lá. Poderoso símbolo do reino interior ou espiritual, esse mito teve e tem cultores ilustres. Mas Tucci não zombava daquilo que um pensador racionalista convencional poderia considerar uma simples fraqueza: “Só quem caminhou durante semanas entre montanhas desertas pode entender. O desejo de conhecer o que se esconde por trás da última montanha torna-se obsessivo… Uma espécie de miragem que seduz ao mesmo tempo a razão e a fantasia.”
Partir para o desconhecido pode ser assustador. Mas, para quem tem na alma a inquietude do vento, o desejo da descoberta supera o medo e instiga a caminhada. Empurra o peregrino em direcção à meta sagrada e secreta, o seu Shangri-lá pessoal.
[…]
Luis Pellegrini (1999). Viagens à Procura do Self: Os Pés Alados de Mercúrio. Lisboa: Pergaminho. pp. 10-11.

Veja tembém:
Blog de Luis Pellegrini: http://www.luispellegrini.com.br/
Poema de Tagore dito por Luís Pellegrini, em português, e cantado por Ratnabali, em bengali: http://www.youtube.com/watch?v=GIU0x4iDp0o

sexta-feira, 29 de julho de 2011