terça-feira, 6 de setembro de 2011

Fernando Pessoa, Excerto do "Livro do Desassossego"


Viagem nunca feita
Foi por um crepúsculo de vago outono que eu parti para essa viagem que nunca fiz.
O céu – impossivelmente me recordo – era dum resto roxo de ouro triste, e a linha agónica dos montes, lúcida, tinha uma auréola cujos tons de morte lhe penetravam, amaciadores, na astúcia do seu contorno. Da outra amurada do barco (estava mais frio e era mais noite sob esse lado do toldo) o oceano tremia-se até onde o horizonte leste se entristecia, e onde, pondo penumbras de noite na linha líquida e obscura do mar extremo, um hálito de treva pairava como uma névoa em dia de calor.
O mar, recordo-me, tinha tonalidades de sombra, de mistura com figuras ondeadas de vaga luz – e era tudo misterioso como uma ideia triste numa hora de alegria, profética não sei de quê.
Eu não parti de um porto conhecido. Nem hoje sei que porto era, porque ainda nunca lá estive. Também, igualmente, o propósito ritual da minha viagem era ir em demanda de portos inexistentes – portos que fossem apenas o entrar-para-portos; enseadas esquecidas de rios estreitos entre cidades irrepreensivelmente irreais. Julgais, sem dúvida, ao ler-me, que as minhas palavras são absurdas. É que nunca viajastes como eu.
Eu parti? Eu não vos juraria que parti. Encontrei-me em outras partes, noutros portos, passei por cidades que não eram aquela, ainda que nem aquela nem essas fossem cidades algumas. Jurar-vos que fui eu que parti e não a paisagem, que fui eu que visitei outras terras e não elas que me visitaram – não vo-lo posso fazer. Eu que, não sabendo o que é a vida, nem sei se sou eu que a vivo se é ela que me vive (tenha esse verbo oco «viver» o sentido que quiser ter), decerto não vos irei jurar qualquer coisa.
Viajei. Julgo inútil explicar-vos que não levei nem meses, nem dias, nem outra quantidade qualquer de qualquer medida de tempo a viajar. Viajei no tempo é certo, mas não do lado de cá do tempo, onde o contamos por horas, dias e meses; foi do outro lado do tempo que eu viajei, onde o tempo se não conta por medida. Decorre, mas sem que seja possível medi-lo. É como que mais rápido que o tempo que vemos viver-nos. Perguntais-me, a vós, de certo, que sentido têm estas frases; nunca erreis assim. Despedi-vos do erro infantil de perguntar o sentido às coisas e às palavras. Nada tem um sentido.
Em que barco fiz essa viagem? No vapor Qualquer. Rides. Eu também, e de vós talvez. Quem vos diz, e a mim, que não escrevo símbolos para os deuses compreenderem?
Não importa. Parti pelo crepúsculo. Tenho ainda no ouvido o ruído férreo de puxar a âncora a vapor. No soslaio da minha memória movem-se ainda lentamente, para enfim entrarem na sua posição de inércia, os braços do guindaste de bordo que havia horas haviam magoado a minha vista de contínuos caixotes e barris. Estes rompiam súbitos, presos de roda por uma corrente, de por cima da amurada onde esbarravam, arranhando, e depois, oscilando, se iam deixando empurrar, empurrar, até ficarem por cima do porão, para onde, súbitos, desciam (…), até, com um choque surdo e madeirento, chegarem esmagadoramente a um lugar oculto do porão. Depois soavam lá em baixo o desatarem-os; em seguida subia só a corrente chincalhante no ar, e recomeçava tudo, como que inutilmente.
Eu para quê vos conto isto? Porque é absurdo estar-vos a contá-lo, visto que é das minhas viagens que disse que vos falaria.
Visitei Novas Europas e Constantinoplas outras acolheram a minha vinda veleira em Bósforos falsos. Vinda veleira espantais? É como vos digo, assim mesmo. O vapor em que parti chegou barco de vela ao porto [...]. Que isto é impossível, dizeis. Por isso me aconteceu.
Chegaram-nos, em outros vapores, notícias de guerras sonhadas em Índias impossíveis. E, ao ouvir falar dessas terras, tínhamos importunamente saudades da nossa, deixada tão atrás, quem sabe se naquele mundo.
Fernando Pessoa (1987). Livro do Desassossego. In Obras em Prosa, Vol. I,
org. por João Gaspar Simões. Lisboa: Círculo de Leitores. pp. 245-246.
Nota: [...] - palavra ou frase não lida no texto original
Obra integral disponibilizada pelo Plano Nacional de Leitura: http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/clubedeleituras/upload/e_livros/clle000022.pdf

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Luis Pellegrini, Excerto de "Viagens à Procura do Self: Os Pés Alados de Mercúrio"


[…]
Viagens são assim: oportunidades de iniciação. Essa é a sua magia.
Mas é bom dizer desde já que as viagens com sentido iniciático não são apenas aquelas feitas no mundo de fora. Mais tarde vim a descobrir que viagens no mundo de dentro podem perfeitamente produzir o mesmo efeito. Como as viagens que fizemos nos nossos sonhos, ou mesmo nos devaneios quando despertos.
Viajar, pelo mundo ou por dentro de si mesmo, é fundamental para os processos do crescimento pessoal e do autoconhecimento. Por quê? Em primeiro lugar, porque tomar contacto com lugares desconhecidos, pelo simples facto de tirar a pessoa do seu quotidiano habitual, obrigando-a a estar mais desperta e atenta, representa a oportunidade de pôr em prática a capacidade de adaptar-se a situações novas. Adaptabilidade é o melhor sinónimo de inteligência: sem a capacidade de adaptação aplicada a qualquer situação da vida, não se vai longe no aprendizado da relação harmoniosa consigo mesmo e com o mundo.
Terá a viagem, em si mesma, algum sentido de tipo espiritual? Será ela um acto sagrado? Na época actual do turismo de massas, em que se desenvolve inclusive uma nova área científica chamada sociologia do turismo, será ainda possível distinguir o valor simbólico original que leva a pessoa a viajar, a abandonar temporariamente o conhecido em troca do desconhecido?
Qualquer psicólogo, filósofo ou poeta sabe que o simbolismo da viagem, numa perspectiva ao mesmo tempo psicológica e transcendental, representa a procura e a descoberta de um centro espiritual interior. Aquilo que Carl Jung chamava de self e Gautama Buda chamava de eu superior. A viagem exprime também um desejo profundo de transformação interior que se projecta no desejo da viagem exterior. Representa, mais que um simples deslocamento físico no espaço e no tempo, a necessidade de experiências novas e renovadoras. Como consequência, entende-se que estudar, investigar, procurar intensamente o novo e o oculto são também modalidades de viajar, ou seja, equivalentes espirituais e simbólicos da viagem.
Viagem, definida de outro jeito, é transformação pelo movimento. E todo o movimento que acontece na nossa vida converge de algum modo para aquele centro espiritual interno.
O italiano Giuseppe Tucci, um dos grandes orientalistas e exploradores da Ásia neste século, já no fim da vida revelou a um grupo de alpinistas algo importante a respeito do sentido profundo das viagens dos grandes exploradores. Tucci falava com total conhecimento de causa. Além de ser ele mesmo um grande apaixonado pelas viagens, conhecera praticamente todos os descobridores importantes do seu tempo. Todos, segundo ele, cultivaram secretamente a esperança de descobrir um dia, para além de qualquer passo esquecido de montanha, um vale desconhecido e risonho, habitado por gente que permanecera séculos isolada do resto da humanidade: o mito do reino perdido de Shangri-lá. Poderoso símbolo do reino interior ou espiritual, esse mito teve e tem cultores ilustres. Mas Tucci não zombava daquilo que um pensador racionalista convencional poderia considerar uma simples fraqueza: “Só quem caminhou durante semanas entre montanhas desertas pode entender. O desejo de conhecer o que se esconde por trás da última montanha torna-se obsessivo… Uma espécie de miragem que seduz ao mesmo tempo a razão e a fantasia.”
Partir para o desconhecido pode ser assustador. Mas, para quem tem na alma a inquietude do vento, o desejo da descoberta supera o medo e instiga a caminhada. Empurra o peregrino em direcção à meta sagrada e secreta, o seu Shangri-lá pessoal.
[…]
Luis Pellegrini (1999). Viagens à Procura do Self: Os Pés Alados de Mercúrio. Lisboa: Pergaminho. pp. 10-11.

Veja tembém:
Blog de Luis Pellegrini: http://www.luispellegrini.com.br/
Poema de Tagore dito por Luís Pellegrini, em português, e cantado por Ratnabali, em bengali: http://www.youtube.com/watch?v=GIU0x4iDp0o

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Votos de umas boas férias! Estaremos de volta no dia 5 de Setembro.

Clarisse Lispector, "Se Eu fosse Eu"

Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir.
E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.
Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.
"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.

Clarice Lispector (2008). A Descoberta do Mundo.
Rio de Janeiro: Editora Rocco. p. 156.

Oiça também “Se eu fosse eu” de Clarice Lispector, dito por Aracy Balabanian neste endereço.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Marina Colasanti, "Luz de lanterna, sopro de vento"

Tendo o marido partido para a guerra, na primeira noite da sua ausência a mulher acendeu uma lanterna e pendurou-a do lado de fora da casa. “Para trazê-lo de volta,” murmurou. E foi dormir.
Mas, ao abrir a porta na manhã seguinte, deparou-se com a lanterna apagada. “Foi o vento da madrugada,” pensou olhando para o alto como se pudesse vê-lo soprar.
À noite, antes de deitar, novamente acendeu a lanterna que, à distância deveria indicar ao seu homem o caminho de casa.
Ventou de madrugada. Mas era tão tarde e ela estava tão cansada que nada ouviu, nem o farfalhar das árvores, nem o gemido das frestas, nem o ranger da argola da lanterna. E de manhã surpreendeu-se ao encontrar a luz apagada.
Naquela noite, antes de acender a lanterna, demorou-se estudando o céu límpido, as claras estrelas. “Na certa não ventará,” disse em voz alta, quase dando uma ordem. E encostou a chama do fósforo no pavio.
Se ventou ou não, ela não saberia dizer. Mas antes que o dia raiasse não havia mais nenhuma luz, a casa desaparecia nas trevas.
Assim foi durante muitos e muitos dias, a mulher sem nunca desistir acendendo a lanterna que o vento, com igual constância, apagava.
Talvez meses tivessem passado quando num entardecer, ao acender a lanterna, a mulher viu ao longe recortada contra a luz que lanhava em sangue o horizonte, a escura silhueta de um homem a cavalo. Um homem a cavalo que galopava na sua direcção.
Aos poucos, apertando os olhos para ver melhor, distinguiu a lança erguida ao lado da sela, os duros contornos da couraça. Era um soldado que vinha. Seu coração hesitou entre o medo e a esperança. O fôlego se reteve por instantes entre lábios abertos. E já podia ouvir os cascos batendo sobre a terra, quando começou a sorrir. Era seu marido que vinha.
Apeou o marido. Mas só com um braço rodeou-lhe os ombros. A outra mão pousou na empunhadura da espada. Nem fez menção de encaminhar-se para a casa.
Que não se iludisse. A guerra não havia acabado. Sequer havia acabado a batalha que deixara pela manhã. Coberto de poeira e sangue, ainda assim não havia vindo para ficar. “Vim porque a luz que você acende à noite não me deixa dormir,” disse-lhe quase ríspido. “Brilha por trás das minhas pálpebras fechadas, como se me chamasse. Só de madrugada depois que o vento sopra, posso adormecer.”
A mulher nada disse. Nada pediu. Encostou a mão no peito do marido, mas o coração dele parecia distante, protegido pelo couro da couraça. “Deixe-me fazer o que tem que ser feito, mulher,” disse sem beijá-la. De um sopro apagou a lanterna. Montou a cavalo, partiu. Adensavam-se as sombras, e ela não pôde sequer vê-lo afastar-se recortado contra o céu.
A partir daquela noite, a mulher não acendeu mais nenhuma luz. Nem mesmo a vela dentro de casa, não fosse a chama acender-se por trás das pálpebras do marido.
No escuro, as noites se consumiam rápidas. E com elas carregavam os dias, que a mulher nem contava. Sem saber ao certo quanto tempo havia passado, ela sabia porém que era tanto.
E, passado outro tanto, num final de tarde em que à soleira da porta despedia-se da última luz no horizonte, viu desenhar-se lá longe a silhueta de um homem. Um homem a pé que caminhava na sua direcção. Protegeu os olhos com a mão para ver melhor e aos poucos, porque o homem avançava devagar, começou a distinguir a cabeça baixa, o contorno dos ombros cansados. Contorno doce, sem couraça. Hesitou seu coração, retendo o sorriso nos lábios – tantos homens haviam passado sem que nenhum fosse o que ela esperava. Ainda não podia ver-lhe o rosto, oculto entre a barba e o chapéu, quando deu o primeiro passo e correu ao seu encontro, liberando o coração. Era seu marido que voltava da guerra.
Não precisou perguntar-lhe se havia vindo para ficar. Caminharam até a casa. Já iam entrar, quando ele se reteve. Sem pressa voltou-se, e, embora a noite ainda não tivesse chegado, acendeu a lanterna. Só então entrou com a mulher. E fechou a porta.
Marina Colasanti (2004). Um Espinho de Marfim e Outras Histórias.
Porto: Figueirinhas. pp. 165-167.

Acompanhe uma entrevista com Marina Colasanti sobre o seu processo de criação (escrita e pintura) neste endereço.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Virginia Woolf, "Blue & Green"


GREEN

The pointed fingers of glass hang downwards. The light slides down the glass, and drops a pool of green. All day long the ten fingers of the lustre drop green upon the marble. The feathers of parakeets – ­their harsh cries­ – sharp blades of palm trees­ – green, too; green needles glittering in the sun. But the hard glass drips on to the marble; the pools hover above the desert sand; the camels lurch through them; the pools settle on the marble; rushes edge them; weeds clog them; here and there a white blossom; the frog flops over; at night the stars are set there unbroken. Evening comes, and the shadow sweeps the green over the mantelpiece; the ruffled surface of ocean. No ships come; the aimless waves sway beneath the empty sky. It's night; the needles drip blots of blue. The green's out.


BLUE

The snub-nosed monster rises to the surface and spouts through his blunt nostrils two columns of water, which, fiery-white in the centre, spray off into a fringe of blue beads. Strokes of blue line the black tarpaulin of his hide. Slushing the water through mouth and nostrils he sinks, heavy with water, and the blue closes over him dowsing the polished pebbles of his eyes. Thrown upon the beach he lies, blunt, obtuse, shedding dry blue scales. Their metallic blue stains the rusty iron on the beach. Blue are the ribs of the wrecked rowing boat. A wave rolls beneath the blue bells. But the cathedral's different, cold, incense laden, faint blue with the veils of madonnas.
Virginia Woolf (2003). Monday or Tuesday. London: Hesperus
Press Limited. p. 47. First published in 1921.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Excerto do conto “O último amor do príncipe Genghi”, de Marguerite Yourcenar

Quando Genghi, o Resplandecente, o maior sedutor que jamais surpreendeu a Ásia, atingiu os cinquenta anos, deu-se conta de que tinha de começar a morrer. A sua segunda mulher, Murasaki, a princesa Violeta, que ele tanto amara através de tantas infidelidades contraditórias, precedera-o num desses Paraísos aonde vão os mortos que conquistaram algum mérito durante esta vida inconstante e difícil, e Genghi atormentava-se por não conseguir recordar exactamente o seu sorriso ou o esgar que esboçava antes de chorar. A sua terceira esposa, a Princesa do Palácio do Poente, enganara-o com o genro, tal como ele enganara o pai nos seus tempos de juventude com uma imperatriz adolescente. Representava-se a mesma peça no palco do mundo, mas desta vez sabia que lhe estava apenas reservado o papel de velho, e a semelhante personagem preferia a de fantasma. Por isso mesmo distribuiu os seus bens, reformou os seus servos e preparou-se para acabar os seus dias num eremitério que tivera o cuidado de mandar construir na encosta da montanha. Atravessou pela última vez a cidade, seguido apenas por dois ou três companheiros dedicados que não se resignaram a despedir-se, nele, da sua própria juventude. Não obstante a hora matinal, havia mulheres com o rosto encostado às delgadas ripas das persianas. Murmuravam em voz alta que Genghi era ainda muito belo, o que provou uma vez mais ao príncipe que chegara a hora de partir.
Levaram três dias a alcançar o eremitério, situado em pleno campo silvestre. A casita erguia-se à sombra de um bordo centenário; como era Outono, as folhas daquela bela árvore revestiam-lhe o telhado de colmo com uma coberta de oiro. A vida nesta solidão revelou-se ainda mais simples e mais dura do que nos longos exílios que na sua turbulenta juventude Genghi suportara no estrangeiro, e aquele homem requintado pôde finalmente saborear à saciedade o luxo supremo que consiste em distanciar-se de tudo. Breve se anunciaram os primeiros frios; as encostas da montanha cobriram-se de neve como as amplas pregas das vestes acolchoadas que se usam no Inverno, e o nevoeiro abafou o sol. Da aurora ao crepúsculo, à parca luz de um braseiro avaro, Genghi lia as Escrituras e achava naqueles austeros versículos certo sabor de que eram doravante falhos os mais patéticos versos de amor. Mas breve se deu conta de que estava a perder a vista, como se todas as lágrimas que vertera sobre as suas frágeis amantes lhe houvessem queimado os olhos, e teve de reconhecer que, para ele, as trevas começariam antes da morte. De quando em vez, um correio transido, chegava da capital, arrastando os pés inchados de cansaço e de frieiras, e apresentava-lhe respeitosamente mensagens de parentes ou amigos que desejavam visitá-lo uma derradeira vez neste mundo, antes dos encontros infinitos e incertos da outra vida. Mas Genghi receava inspirar aos seus hóspedes mera compaixão ou respeito, dois sentimentos a que tinha horror e aos quais preferia o esquecimento. Sacudia tristemente a cabeça, e aquele príncipe outrora famoso pelo seu talento de poeta e calígrafo mandava o carteiro de volta com uma folha em branco. Pouco a pouco, os contactos com a capital abrandaram; o ciclo das festas sazonais continuava a girar longe do príncipe, que em tempos as dirigia com um aceno do leque, e Genghi, abandonado sem pejo às tristezas da solidão, agravava sem cessar o mal que lhe afligia os olhos, pois já não se envergonhava de chorar.
(…)
Excerto do conto “O último amor do príncipe Genghi”, in Marguerite Yourcenar (1999). Contos Orientais
(3ª Ed.). (Gaëtan Martins de Oliveira, Trad.). Lisboa: Publicações Dom Quixote. pp. 65-67.

Há informação sobre Hikaru Genji, o herói desta história, e a obra Genji Monogatari, de Murassaki Shikibu (978? – 1026?), na qual Yourcenar se inspirou no seguinte endereço: http://www.culturajaponesa.com.br/htm/genjimonogatari.html