sexta-feira, 29 de julho de 2011

Clarisse Lispector, "Se Eu fosse Eu"

Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir.
E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.
Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.
"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.

Clarice Lispector (2008). A Descoberta do Mundo.
Rio de Janeiro: Editora Rocco. p. 156.

Oiça também “Se eu fosse eu” de Clarice Lispector, dito por Aracy Balabanian neste endereço.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Marina Colasanti, "Luz de lanterna, sopro de vento"

Tendo o marido partido para a guerra, na primeira noite da sua ausência a mulher acendeu uma lanterna e pendurou-a do lado de fora da casa. “Para trazê-lo de volta,” murmurou. E foi dormir.
Mas, ao abrir a porta na manhã seguinte, deparou-se com a lanterna apagada. “Foi o vento da madrugada,” pensou olhando para o alto como se pudesse vê-lo soprar.
À noite, antes de deitar, novamente acendeu a lanterna que, à distância deveria indicar ao seu homem o caminho de casa.
Ventou de madrugada. Mas era tão tarde e ela estava tão cansada que nada ouviu, nem o farfalhar das árvores, nem o gemido das frestas, nem o ranger da argola da lanterna. E de manhã surpreendeu-se ao encontrar a luz apagada.
Naquela noite, antes de acender a lanterna, demorou-se estudando o céu límpido, as claras estrelas. “Na certa não ventará,” disse em voz alta, quase dando uma ordem. E encostou a chama do fósforo no pavio.
Se ventou ou não, ela não saberia dizer. Mas antes que o dia raiasse não havia mais nenhuma luz, a casa desaparecia nas trevas.
Assim foi durante muitos e muitos dias, a mulher sem nunca desistir acendendo a lanterna que o vento, com igual constância, apagava.
Talvez meses tivessem passado quando num entardecer, ao acender a lanterna, a mulher viu ao longe recortada contra a luz que lanhava em sangue o horizonte, a escura silhueta de um homem a cavalo. Um homem a cavalo que galopava na sua direcção.
Aos poucos, apertando os olhos para ver melhor, distinguiu a lança erguida ao lado da sela, os duros contornos da couraça. Era um soldado que vinha. Seu coração hesitou entre o medo e a esperança. O fôlego se reteve por instantes entre lábios abertos. E já podia ouvir os cascos batendo sobre a terra, quando começou a sorrir. Era seu marido que vinha.
Apeou o marido. Mas só com um braço rodeou-lhe os ombros. A outra mão pousou na empunhadura da espada. Nem fez menção de encaminhar-se para a casa.
Que não se iludisse. A guerra não havia acabado. Sequer havia acabado a batalha que deixara pela manhã. Coberto de poeira e sangue, ainda assim não havia vindo para ficar. “Vim porque a luz que você acende à noite não me deixa dormir,” disse-lhe quase ríspido. “Brilha por trás das minhas pálpebras fechadas, como se me chamasse. Só de madrugada depois que o vento sopra, posso adormecer.”
A mulher nada disse. Nada pediu. Encostou a mão no peito do marido, mas o coração dele parecia distante, protegido pelo couro da couraça. “Deixe-me fazer o que tem que ser feito, mulher,” disse sem beijá-la. De um sopro apagou a lanterna. Montou a cavalo, partiu. Adensavam-se as sombras, e ela não pôde sequer vê-lo afastar-se recortado contra o céu.
A partir daquela noite, a mulher não acendeu mais nenhuma luz. Nem mesmo a vela dentro de casa, não fosse a chama acender-se por trás das pálpebras do marido.
No escuro, as noites se consumiam rápidas. E com elas carregavam os dias, que a mulher nem contava. Sem saber ao certo quanto tempo havia passado, ela sabia porém que era tanto.
E, passado outro tanto, num final de tarde em que à soleira da porta despedia-se da última luz no horizonte, viu desenhar-se lá longe a silhueta de um homem. Um homem a pé que caminhava na sua direcção. Protegeu os olhos com a mão para ver melhor e aos poucos, porque o homem avançava devagar, começou a distinguir a cabeça baixa, o contorno dos ombros cansados. Contorno doce, sem couraça. Hesitou seu coração, retendo o sorriso nos lábios – tantos homens haviam passado sem que nenhum fosse o que ela esperava. Ainda não podia ver-lhe o rosto, oculto entre a barba e o chapéu, quando deu o primeiro passo e correu ao seu encontro, liberando o coração. Era seu marido que voltava da guerra.
Não precisou perguntar-lhe se havia vindo para ficar. Caminharam até a casa. Já iam entrar, quando ele se reteve. Sem pressa voltou-se, e, embora a noite ainda não tivesse chegado, acendeu a lanterna. Só então entrou com a mulher. E fechou a porta.
Marina Colasanti (2004). Um Espinho de Marfim e Outras Histórias.
Porto: Figueirinhas. pp. 165-167.

Acompanhe uma entrevista com Marina Colasanti sobre o seu processo de criação (escrita e pintura) neste endereço.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Virginia Woolf, "Blue & Green"


GREEN

The pointed fingers of glass hang downwards. The light slides down the glass, and drops a pool of green. All day long the ten fingers of the lustre drop green upon the marble. The feathers of parakeets – ­their harsh cries­ – sharp blades of palm trees­ – green, too; green needles glittering in the sun. But the hard glass drips on to the marble; the pools hover above the desert sand; the camels lurch through them; the pools settle on the marble; rushes edge them; weeds clog them; here and there a white blossom; the frog flops over; at night the stars are set there unbroken. Evening comes, and the shadow sweeps the green over the mantelpiece; the ruffled surface of ocean. No ships come; the aimless waves sway beneath the empty sky. It's night; the needles drip blots of blue. The green's out.


BLUE

The snub-nosed monster rises to the surface and spouts through his blunt nostrils two columns of water, which, fiery-white in the centre, spray off into a fringe of blue beads. Strokes of blue line the black tarpaulin of his hide. Slushing the water through mouth and nostrils he sinks, heavy with water, and the blue closes over him dowsing the polished pebbles of his eyes. Thrown upon the beach he lies, blunt, obtuse, shedding dry blue scales. Their metallic blue stains the rusty iron on the beach. Blue are the ribs of the wrecked rowing boat. A wave rolls beneath the blue bells. But the cathedral's different, cold, incense laden, faint blue with the veils of madonnas.
Virginia Woolf (2003). Monday or Tuesday. London: Hesperus
Press Limited. p. 47. First published in 1921.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Excerto do conto “O último amor do príncipe Genghi”, de Marguerite Yourcenar

Quando Genghi, o Resplandecente, o maior sedutor que jamais surpreendeu a Ásia, atingiu os cinquenta anos, deu-se conta de que tinha de começar a morrer. A sua segunda mulher, Murasaki, a princesa Violeta, que ele tanto amara através de tantas infidelidades contraditórias, precedera-o num desses Paraísos aonde vão os mortos que conquistaram algum mérito durante esta vida inconstante e difícil, e Genghi atormentava-se por não conseguir recordar exactamente o seu sorriso ou o esgar que esboçava antes de chorar. A sua terceira esposa, a Princesa do Palácio do Poente, enganara-o com o genro, tal como ele enganara o pai nos seus tempos de juventude com uma imperatriz adolescente. Representava-se a mesma peça no palco do mundo, mas desta vez sabia que lhe estava apenas reservado o papel de velho, e a semelhante personagem preferia a de fantasma. Por isso mesmo distribuiu os seus bens, reformou os seus servos e preparou-se para acabar os seus dias num eremitério que tivera o cuidado de mandar construir na encosta da montanha. Atravessou pela última vez a cidade, seguido apenas por dois ou três companheiros dedicados que não se resignaram a despedir-se, nele, da sua própria juventude. Não obstante a hora matinal, havia mulheres com o rosto encostado às delgadas ripas das persianas. Murmuravam em voz alta que Genghi era ainda muito belo, o que provou uma vez mais ao príncipe que chegara a hora de partir.
Levaram três dias a alcançar o eremitério, situado em pleno campo silvestre. A casita erguia-se à sombra de um bordo centenário; como era Outono, as folhas daquela bela árvore revestiam-lhe o telhado de colmo com uma coberta de oiro. A vida nesta solidão revelou-se ainda mais simples e mais dura do que nos longos exílios que na sua turbulenta juventude Genghi suportara no estrangeiro, e aquele homem requintado pôde finalmente saborear à saciedade o luxo supremo que consiste em distanciar-se de tudo. Breve se anunciaram os primeiros frios; as encostas da montanha cobriram-se de neve como as amplas pregas das vestes acolchoadas que se usam no Inverno, e o nevoeiro abafou o sol. Da aurora ao crepúsculo, à parca luz de um braseiro avaro, Genghi lia as Escrituras e achava naqueles austeros versículos certo sabor de que eram doravante falhos os mais patéticos versos de amor. Mas breve se deu conta de que estava a perder a vista, como se todas as lágrimas que vertera sobre as suas frágeis amantes lhe houvessem queimado os olhos, e teve de reconhecer que, para ele, as trevas começariam antes da morte. De quando em vez, um correio transido, chegava da capital, arrastando os pés inchados de cansaço e de frieiras, e apresentava-lhe respeitosamente mensagens de parentes ou amigos que desejavam visitá-lo uma derradeira vez neste mundo, antes dos encontros infinitos e incertos da outra vida. Mas Genghi receava inspirar aos seus hóspedes mera compaixão ou respeito, dois sentimentos a que tinha horror e aos quais preferia o esquecimento. Sacudia tristemente a cabeça, e aquele príncipe outrora famoso pelo seu talento de poeta e calígrafo mandava o carteiro de volta com uma folha em branco. Pouco a pouco, os contactos com a capital abrandaram; o ciclo das festas sazonais continuava a girar longe do príncipe, que em tempos as dirigia com um aceno do leque, e Genghi, abandonado sem pejo às tristezas da solidão, agravava sem cessar o mal que lhe afligia os olhos, pois já não se envergonhava de chorar.
(…)
Excerto do conto “O último amor do príncipe Genghi”, in Marguerite Yourcenar (1999). Contos Orientais
(3ª Ed.). (Gaëtan Martins de Oliveira, Trad.). Lisboa: Publicações Dom Quixote. pp. 65-67.

Há informação sobre Hikaru Genji, o herói desta história, e a obra Genji Monogatari, de Murassaki Shikibu (978? – 1026?), na qual Yourcenar se inspirou no seguinte endereço: http://www.culturajaponesa.com.br/htm/genjimonogatari.html

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Dois excertos de "A Casa das Auroras", de Cristina Carvalho


     O que é normal e consequente que eu diga agora é o seguinte: «Devo ter adormecido…»
                Isto seria o seguimento natural da história. Desta frase «devo ter adormecido» nasceria todo um enredo provável e uma erupção de acontecimentos surgiria coerentemente.
                Infelizmente não adormeci. Tudo seria mais fácil.
                Deixei-me para ali ficar acocorada, com os olhos semicerrados, atenta ao menor ruído muito tempo, talvez horas, nem sei bem, num estado praticamente anestesiado, em plena alteração de consciência, estado esse que, eu sabia, me conduziria à descoberta de verdades, de qualquer verdade que me fizesse compreender o sentido da vida destas mulheres. Conhecer estas mulheres, pensava eu, era conhecer a vida toda, qual foi o impulso que aqui me trouxe, donde vim, para onde vou, porque sim e porque não. Para isso, era necessário passar aqui uns dias, até talvez muitos dias, e habituar-me à ideia de viver num sítio estranho, apenas habitado durante a noite por alguém que ninguém conhece, começar a viver quando as pessoas lá fora já adormeceram e o lugar de Quintas é apenas um minúsculo pontinho de luz nesta vasta solidão do universo.
(p. 29)                 

                A próxima a falar sou eu, uma mulher tímida. Cheguei a ter trinta anos, mas o tempo que vivi foi quase silencioso.
                Este episódio da minha vida foi passado numa altura em que me casei muito apaixonada, muito apaixonada mesmo, e por essa mesma razão fui viver isoladamente, eu e o meu marido, que tinha começado a trabalhar há pouco tempo por ali perto, num local de clima violento, cheio de ventos, de brumas, de chuvadas repentinas. O Sol brilhava no Verão mas o Inverno sempre me pareceu muito mais longo aqui neste sítio do que quando eu vivia na cidade. Era um Inverno que começava nos finais de Setembro e terminava, depois de muita devastação, ventos, chuvas e cansaço, nos finais de Maio. Em Junho lá aparecia uma atmosfera morna, ouvia-se e via-se centenas, milhares de pássaros a cantar nos telhados, nos ramos das árvores, nos fios dos postes de electricidade que atravessavam o terreno da casa onde eu vivia; os javalis saíam dos seus esconderijos nos fundos verdes das matas e abeiravam-se, animados, do ribeiro. Havia outros bichos, que não vou estar agora aqui a descrever, que apareciam radiantes em todos os começos duma vida nova, no tempo da Primavera.
(P.79)                  
Cristina Carvalho (2011). A Casa das Auroras. Lisboa: Editora Planeta. pp. 29 e 79.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Fernando Pessoa, "Ó sino da minha aldeia"

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
 
Fernando Pessoa. Poesias. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995) - 93. Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/206 (consultado a 13 de Julho de 2011).

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Benjamin Zephaniah, “White Comedy”

White Comedy

from "Propa Propaganda"

I waz whitemailed
By a white witch,
Wid white magic
An white lies,
Branded by a white sheep
I slaved as a whitesmith
Near a white spot
Where I suffered whitewater fever.
Whitelisted as a whiteleg
I waz in de white book
As a master of white art,
It waz like white death.

People called me white jack
Some hailed me as a white wog,
So I joined de white watch
Trained as a white guard
Lived off the white economy.
Caught and beaten by de whiteshirts
I waz condemned to a white mass,
Don't worry,
I shall be writing to de Black House


Benjamin Zephaniah (s.d.). “White Comedy”. In Propa Propaganda. Disponível em: http://www.benjaminzephaniah.com/content/243.php (consultado a 13 de Julho de 2011).


Veja também Vídeo clip do autor: “Rong Radio”: