segunda-feira, 25 de julho de 2011

Dois excertos de "A Casa das Auroras", de Cristina Carvalho


     O que é normal e consequente que eu diga agora é o seguinte: «Devo ter adormecido…»
                Isto seria o seguimento natural da história. Desta frase «devo ter adormecido» nasceria todo um enredo provável e uma erupção de acontecimentos surgiria coerentemente.
                Infelizmente não adormeci. Tudo seria mais fácil.
                Deixei-me para ali ficar acocorada, com os olhos semicerrados, atenta ao menor ruído muito tempo, talvez horas, nem sei bem, num estado praticamente anestesiado, em plena alteração de consciência, estado esse que, eu sabia, me conduziria à descoberta de verdades, de qualquer verdade que me fizesse compreender o sentido da vida destas mulheres. Conhecer estas mulheres, pensava eu, era conhecer a vida toda, qual foi o impulso que aqui me trouxe, donde vim, para onde vou, porque sim e porque não. Para isso, era necessário passar aqui uns dias, até talvez muitos dias, e habituar-me à ideia de viver num sítio estranho, apenas habitado durante a noite por alguém que ninguém conhece, começar a viver quando as pessoas lá fora já adormeceram e o lugar de Quintas é apenas um minúsculo pontinho de luz nesta vasta solidão do universo.
(p. 29)                 

                A próxima a falar sou eu, uma mulher tímida. Cheguei a ter trinta anos, mas o tempo que vivi foi quase silencioso.
                Este episódio da minha vida foi passado numa altura em que me casei muito apaixonada, muito apaixonada mesmo, e por essa mesma razão fui viver isoladamente, eu e o meu marido, que tinha começado a trabalhar há pouco tempo por ali perto, num local de clima violento, cheio de ventos, de brumas, de chuvadas repentinas. O Sol brilhava no Verão mas o Inverno sempre me pareceu muito mais longo aqui neste sítio do que quando eu vivia na cidade. Era um Inverno que começava nos finais de Setembro e terminava, depois de muita devastação, ventos, chuvas e cansaço, nos finais de Maio. Em Junho lá aparecia uma atmosfera morna, ouvia-se e via-se centenas, milhares de pássaros a cantar nos telhados, nos ramos das árvores, nos fios dos postes de electricidade que atravessavam o terreno da casa onde eu vivia; os javalis saíam dos seus esconderijos nos fundos verdes das matas e abeiravam-se, animados, do ribeiro. Havia outros bichos, que não vou estar agora aqui a descrever, que apareciam radiantes em todos os começos duma vida nova, no tempo da Primavera.
(P.79)                  
Cristina Carvalho (2011). A Casa das Auroras. Lisboa: Editora Planeta. pp. 29 e 79.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Fernando Pessoa, "Ó sino da minha aldeia"

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
 
Fernando Pessoa. Poesias. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995) - 93. Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/206 (consultado a 13 de Julho de 2011).

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Benjamin Zephaniah, “White Comedy”

White Comedy

from "Propa Propaganda"

I waz whitemailed
By a white witch,
Wid white magic
An white lies,
Branded by a white sheep
I slaved as a whitesmith
Near a white spot
Where I suffered whitewater fever.
Whitelisted as a whiteleg
I waz in de white book
As a master of white art,
It waz like white death.

People called me white jack
Some hailed me as a white wog,
So I joined de white watch
Trained as a white guard
Lived off the white economy.
Caught and beaten by de whiteshirts
I waz condemned to a white mass,
Don't worry,
I shall be writing to de Black House


Benjamin Zephaniah (s.d.). “White Comedy”. In Propa Propaganda. Disponível em: http://www.benjaminzephaniah.com/content/243.php (consultado a 13 de Julho de 2011).


Veja também Vídeo clip do autor: “Rong Radio”:

quarta-feira, 20 de julho de 2011

David Mourão-Ferreira, "Escada sem Corrimão"

É uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.


Os degraus, quanto mais altos,
mais estragados estão,
nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Correm-se p'rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.

 David Mourão-Ferreira (1983). Antologia Poética [1948-1983]. Lisboa: Dom Quixote.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Sophia de Mello Breyner Andresen , "As pessoas sensíveis"


As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão"

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.
 
Sophia de Mello Breyner Andresen (2004). Cem Poemas de Sophia. Paço de Arcos: Visão / JL, p.  64

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Alberto Caeiro, "O Guardador de Rebanhos"

Num meio-dia de fim de Primavera

Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
[….]
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
[…]

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.


A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

 “O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). - 32. Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/1487 (consultado a 13 de Julho de 2011).

Oiça também Maria Bethânia:

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Ondjaki, excerto de "O Padre, o Mar e o Faroleiro"



Estupefacto, quase rejuvenescido, o Padre olhava agora o Mar por detrás da enorme janela do farol. Sem palavras, porque não as havia naquele momento, limitou-se a levantar as mãos até embater no vidro, como se fosse tocar, agarrar, consumir o Mar. Olhou então para trás e viu Mortinho sorrindo, como se compreendesse perfeitamente aquela sensação. Deixou-se estar assim uns minutos e depois acordou:
̶ – Mortinho, a sua mãe pediu-me que viesse falar consigo.
̶ – Sim, eu sei, Padre.
̶ – Sabe? Como?
̶  – Provavelmente está preocupada porque já não vou à Aldeia…
̶  – Pois, é mais ou menos isso – disse o Padre, que ouvindo as últimas palavras de Mortinho, não conseguiu encontrar nada de estranho naquela situação.
̶  – É simples, Padre. Estou cá há dez meses e tinha pouco o que fazer, por isso ainda ia à Aldeia. Mas recebi no mês passado uma boa remessa de livros que tinha requisitado. Não há filmes bons na Aldeia e tenho aqui tudo o que preciso…
̶  – Tudo, meu filho?
̶ – Acha que não, Padre? – perguntou Adelaide Mortinho apontando para a sala, terminando na janela inundada de Mar. – Acha que isto não é tudo?
O Padre deu então outro olhar à sala. Na sua aparente desarrumação reinava uma certa ordem. De um lado, o monte de livros. Ao centro, a secretária com botões intermináveis e luzes incompreensíveis. Do outro lado, fitas de música e mais livros. E em redor do cilindro gigante que era aquele farol, uma janela, uma varanda e o respectivo Mar. Como que compreendendo o olhar do Padre, Adelaide Mortinho, o faroleiro, dirigiu-se lentamente para uma das portas laterais que davam para a varanda. «Venha, Padre.» Uma brisa fresca entrou pela sala, mas não se interessando por nada, voltou a sair. Com ela foram para a varanda o faroleiro e o Padre. Do alto do farol parecia dominar-se o Mar. Ou simplesmente, poder-se calcular e sentir o seu poder, a sua imensidão. Diante da beleza, da brisa, e levado pelas sensações que só o Mar sabe provocar, o Padre exclamou comovido:
̶– Isto pode ser tudo!
Adelaide Mortinho ouvia o Padre mas continuava a olhar o Mar. Era um olhar diferente do do Padre: olhar fraterno mas respeitador. Tinha o seu quê de companheirismo e de servidão ao mesmo tempo.
̶– Compreende, Padre, que eu não precise de ir à Aldeia?
Excerto do conto “O Padre, o Mar e o faroleiro” de Ondjaki
Ondjaki (2004). Momentos de Aqui (2ª edição). Lisboa: Editorial caminho. pp. 21-24.