terça-feira, 5 de julho de 2011

José Luís Peixoto, "Debaixo da roupa, estamos todos nus"

Estava na Alemanha, num encontro de escritores, e, todas as manhãs, no pequeno-almoço do hotel, havia uma mesa de homens portugueses. Em voz alta, acreditando que ninguém os entendia, libertavam-se a contar as suas aventuras com prostitutas polacas e os seus negócios de Mercedes em segunda mão. Num desses dias, um deles apontou para a minha orelha e disse: olha para este, parece que caiu em cima de um monte de pregos.

Noutra ocasião, estava no Luxemburgo, também num encontro de escritores. Preparava-me para almoçar, conversava com um poeta holandês, enquanto dois homens iam servindo salada em todos os pratos da mesa. Um deles chegou perto de mim e, em português, disse ao outro: olha para este animal, tem o braço todo o sujo. Dessa vez, não fiquei em silêncio. Disse-lhe: por acaso, até tenho o braço bastante bem lavado. Mudou de cor.

Não preciso destes dois exemplos breves para saber aquilo que muitas pessoas pensam repetidamente, todos os dias, e que não me dizem por pudor. Desde que cobri o braço esquerdo com tatuagens que sei aquilo que sentem as mulheres com decotes. É muito frequente o olhar das pessoas que estão a falar comigo fugir-lhes para o meu braço. Depois, disfarçam. No caso dos piercings, é mais inconsciente. Estão a falar comigo e, de repente, começam a ter comichão na sobrancelha, exactamente no lugar do meu piercing.

Eu conheço bem a interpretação geral dos piercings (drogado/homossexual) e das tatuagens (drogado/presidiário). À minha frente, já se referiram aos meus piercings dezenas de vezes como "os brinquinhos". Já fui tratado com desprezo por dermatologistas que acharam que eu não tinha o direito de estar no seu consultório, por estas palavras. Já fui analisado por inúmeras mulheres, senhoras, que, como se estivessem a aproximar-se de uma ferida, perguntaram: isso dói?

Eu compreendo essas pessoas, tanto os putanheiros que negoceiam Mercedes, como as senhoras que comem palmiers na confeitaria. Compreendo até os dermatologistas. À sua maneira, cada um deles se sente rejeitado pelas minhas tatuagens e pelos meus piercings. Acreditam que eu não quero ser como eles, não quero ser eles. Têm de responder de alguma maneira a essa rejeição. É-lhes fácil encontrar falta de sentido em furar o corpo com uma agulha e colocar um pendente metálico ou em preencher uma parte da pele com cicatrizes cheias de tinta. Uma pergunta que também me fazem, visivelmente baralhados, é: porquê?

As razões não são simples e são demasiado íntimas. Não tenho de dá-las. Talvez seja necessário ser eu, estar no meu lugar e ter o meu nome para entendê-las por completo. Essa é a natureza da pele. Para nós próprios, a pele é aquilo que nos protege, a fronteira entre a nossa presença e o mundo físico, o aparelho sensível que capta a percepção daquilo com que interagimos. Para os outros, essa mesma pele é a nossa superfície, a aparência. E, já se sabe, a aparência é tão enganadora, a superfície é tão superficial.

Também é comum admirarem-se com o carácter definitivo das tatuagens, perguntarem-me se não tenho medo de me arrepender. Sorrio. Emociono-me com a inocência daqueles que não percebem que tudo é definitivo e deixa marcas. Eu escrevo livros. Sei que tudo é definitivo e nada é eterno.

Sim, dói fazer piercings e tatuagens. Não, não são uma picadinha e não, não são umas cócegas. Para quê fazê-lo? Já respondi, cada um terá as suas próprias razões. São individuais e ninguém deveria sentir-se ameaçado por elas. Quando pedi a opinião da minha mãe, uma mulher que nasceu no início dos anos 40 e que me trouxe ao mundo nos anos 70, ela respondeu: desde que não seja no meu braço, tudo bem. Fiquei feliz por ter a aprovação que realmente me importava. Tudo óptimo, mãe, é no meu braço.

Além disso, a vida. Na escola do meu filho, sou o pai tatuado que passa entre os pais de fato. No supermercado, sou aquele que é vigiado pelo segurança a pouca distância. No barbeiro, sinto o embaraço no momento de me tocarem na orelha. Mas, quando estaciono o carro, os arrumadores tratam-me sempre por tu e ninguém mete conversa comigo quando vou a uma bomba da gasolina às quatro da manhã.

Em casa, tomo banho. A água morna na minha pele. Deslizo as mãos pelo meu corpo. É meu. Estou dentro dele.

José Luís Peixoto (2010). “Debaixo da roupa, estamos todos nus”. Visão (Outubro de 2010). Disponível em: http://www.joseluispeixoto.net/24052.html (consultado a 30 de Junho de 2011).

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Álvaro de Campos, "Ah a frescura na face de não cumprir um dever!"


Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
Deliberadamente à mesma hora...
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte... Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.

Álvaro de Campos

Fernando Pessoa (1944). Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática, 1944, 40 (imp. 1993). Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/2543 (consultado a 27.06.2011)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Laurence Herbert & Frédéric du Bus, "Leónia"

Laurence Herbert  (1989). Leónia devora os livros (Frédéric du Bus, Ilustr). Lisboa: Caminho.
Veja também sobre O incrível rapaz que comia livros neste endereço.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Rui Nunes, "chegada:"


chegada:

abro a porta: espera-me o cansaço
de uma casa acabada.
Os passos tinham um desígnio
quando me sentava à janela
a ver a chuva a bater nas oliveiras
e a arvéola a recolher-se no telhado da varanda.
Tu empurravas a porta:
o som:
animal da tua passagem.
E eu reconhecia-te
na sombra trémula do lume
:
os ratos são as horas
da noite, sons da casa
a ruir: a insónia soletra
os números da morte


regressa límpido da viagem:
o silêncio é a história que tem para contar.
 

Rui Nunes (2011). A Mão do Oleiro. Lisboa: Relógio d’Água Editores. pp.31-32.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Rui Nunes, "partida:"

partida:

procura. Um gesto procura. A luz.
Nas leiras, a terra endureceu, esmagou as raízes
e o ar tornou quebradiços os troncos das faias.
No cais, a criança estende os braços para o vento. E corre :
a memória de outros passos é um animal que não pode morrer.
Ela não sabe que a sua corrida é inútil,
que não há um fim para a morte:
como um lobo paciente, o cais
percorre o silêncio interminável dos predadores
:
pontes atravessam linhas. E perdem-se.
Todos os pontos são de fuga. Todas as pontes.
Vozes e vultos confundem-se.
Junto à linha férrea, anda uma criança.
Deixou para trás um espião,
uma casa desabitada, com a sua transparência.
E, aflita, pergunta.
Alguém responde.
Alguém.
E reata-se o sentido mais frágil:
qualquer voz tem a mudez tão perto.
:
rasgão a rasgão, o caminho abre-se.
Mas que sabe ela de cada novo passo?
Como a libélula ressequida pelo sol,
a palavra inicial tornou-se um invólucro
que só lhe devolve o medo.
Pai, pai: grita. Para esgotar todos os nomes da morte.
Pai, porque me abandonaste?
:
afasta-se, por uma noite sem Deus.
Ansiosa, procura
entre coisas, uma pausa, entre bichos diligentes,
o sentido de uma fuga, uma raiva que dê
à pedra a sua pedra,
ao caminho o seu caminho,
e destrua a película que encerra
o eco de um desmoronamento, a ruína
sob a indiferença irradiante.

Rui Nunes (2011). A Mão do Oleiro. Lisboa: Relógio d’Água Editores. pp.8-9.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Samuel Beckett, Excerto de "Waiting for Godot"

ESTRAGON:
People are bloody ignorant apes.
He rises painfully, goes limping to extreme left, halts, gazes into distance off with his hand screening his eyes, turns, goes to extreme right, gazes into distance. Vladimir watches him, then goes and picks up the boot, peers into it, drops it hastily.
VLADIMIR:
Pah!
He spits. Estragon moves to center, halts with his back to auditorium.
ESTRAGON:
Charming spot. (He turns, advances to front, halts facing auditorium.) Inspiring prospects. (He turns to Vladimir.) Let's go.
VLADIMIR:
We can't.
ESTRAGON:
Why not?
VLADIMIR:
We're waiting for Godot.
ESTRAGON:
(despairingly). Ah! (Pause.) You're sure it was here?
VLADIMIR:
What?
ESTRAGON:
That we were to wait.
VLADIMIR:
He said by the tree. (They look at the tree.) Do you see any others?
ESTRAGON:
What is it?
VLADIMIR:
I don't know. A willow.
ESTRAGON:
Where are the leaves?
VLADIMIR:
 It must be dead.
ESTRAGON:
No more weeping.
VLADIMIR:
Or perhaps it's not the season.
ESTRAGON:
Looks to me more like a bush.
VLADIMIR:
A shrub.
ESTRAGON:
A bush.
VLADIMIR:
A—. What are you insinuating? That we've come to the wrong place?
ESTRAGON:
He should be here.
VLADIMIR:
He didn't say for sure he'd come.
ESTRAGON:
And if he doesn't come?
VLADIMIR:
We'll come back tomorrow.

Excerto do Acto I da peça Waiting for Godot, de Samuel Beckett, estreada em Janeiro de 1953, no Théâtre de Babylone, em Paris. Disponível em http://www.samuel-beckett.net/Waiting_for_Godot_Part1.html

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Jorge Luís Borges, "Prólogo"

Ninguém pode estranhar que o primeiro dos elementos, o fogo, não abunde no livro de um homem de oitenta e muitos anos. Uma rainha, na hora da sua morte, diz que é fogo e ar; eu costumo sentir que sou terra, cansada terra. Continuo, no entanto, a escrever. Que outra sina me resta, que outra formosa sina me resta? A felicidade de escrever não se mede pelas virtudes ou fraquezas. Toda a obra humana é precária, afirma Carlyle, mas não o é a sua feitura.
         Não professo qualquer estética. Cada obra confia ao seu escritor a forma que procura: o verso, a prosa, o estilo barroco ou chão. As teorias podem ser admissíveis estímulos (recordemos Whitman) mas contudo podem engendrar monstros ou meras peças de museu. Lembremos o monólogo interior de Joyce ou o terrivelmente incómodo Polifemo.
         Com o correr dos anos, observei que a beleza, tal como a felicidade, é frequente. Não se passa um dia em que não estejamos, um instante, no paraíso. Não há poeta, por medíocre que seja, que não tenha escrito o melhor verso da literatura, mas também os mais infelizes. A beleza não é privilégio de uns quantos nomes ilustres. Seria muito estranho que este livro, que abarca umas quarenta composições, não encerrasse uma única linha secreta, digna de te acompanhar até ao fim.
         Neste livro há muitos sonhos. Declaro que foram dons da noite ou, mais precisamente, da madrugada, e não ficções deliberadas. Apenas me atrevi a acrescentar um ou outro rasgo circunstancial, dos que o nosso tempo exige, depois de Defoe.
         Dito este prólogo numa das minhas pátrias, Genebra.

J.L.B.
9 de Janeiro de 1985.
Jorge Luis Borges (1985). Os Conjurados. Lisboa: Difel. pp. 9-10.

Pode saber mais sobre Borges neste endereço e neste.