terça-feira, 21 de junho de 2011

Manuel da Fonseca, "Noite de Verão"

Quando é no Verão das noites claras
e faz calor dentro da gente,
… aquela menina casadoira,
que mora junto ao largo,
vem à varanda ver a Lua.

Roçando o corpo, devagar,
descem por ela as mãos da noite:
sente-se nua.
Sente-se nua, na varanda,
já tão senhora do seu destino,
sem medo às estrelas nem às mãos da noite
– mas baixa os olhos se algum homem passa…

Manuel da Fonseca, Obra poética, Lisboa, Caminho, 1984 (7ª ed.), p. 124. Publicado pela 1ª vez em 1941, no volume Planície, do Novo Cancioneiro.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Sophia de Mello Breyner Andersen, "Soror Mariana - Beja"


Cortaram os trigos. Agora
A minha solidão vê-se melhor

 Sophia de Mello Breyner Andresen (2004). Cem Poemas de Sophia. Paço de Arcos: Visão / JL, p. 93.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Miguel Sousa Tavares, "No teu deserto" (fragmento)

Na verdade, o deserto não existe: se tudo à sua volta deixa de existir e de ter sentido, só resta o nada. E o nada é o nada: conforme se olha, é a ausência de tudo, ou, pelo contrário, o absoluto. Não há cidades, não há mar, não há rios, não há sequer árvores ou animais. Não há música, nem ruído, nem som algum, excepto o do vento de areia quando se vai levantando aos poucos – e esse é assustador. Será assim a morte, também, Cláudia?
Quando um de nós ficava parado a contemplar o deserto, o outro não deveria dizer nada. Tudo o que se pudesse dizer, naquelas alturas, ali, em frente ao nada ou ao absoluto, seria tão inútil que só poderia vir de uma alma fútil. Tudo o que se diz de desnecessário é estúpido, é um sinal destes tempos estúpidos em que falamos mais do que entendemos. No deserto, não há muito a dizer: o olhar chega e impõe o silêncio. Mas, naqueles dias, eu estava sempre com pressa. Alguém tinha de estar sempre com pressa e coubera-me a mim, por função. Só não tinha pressa à noite, depois de montado o acampamento, cozinhado o jantar, revisto e arrumado o jipe e de ter passado para um caderno as notas do trabalho do dia e quando, enfim, me sentava com os outros à lareira a olhar as estrelas do Sahara.
Um dia, porém, depois de mais uma paragem para colher imagens, ao regressar ao jipe vi que tinhas ficado ao lado da pista, a olhar em frente, como se te tivesses desligado de tudo. Ia gritar-te, buzinar-te, quando qualquer coisa na maneira como tu estavas em pé a olhar o deserto, qualquer coisa na maneira como tinhas as mãos enfiadas nos bolsos, a cabeça ligeiramente inclinada de lado, o cabelo varrido pelo vento, me fez ficar quieto ao volante. E fiquei assim a observar-te até que tu te virasses e visses que estava à tua espera. Aprendi que é preciso dar tempo aos outros para olharem. Se não fosse para isso, porque teríamos nós vindo ao deserto?
Muitos anos mais tarde, neste ano em que escrevo esta história, estava num fim do mundo, junto ao rio Guadiana, num sítio tão vazio quanto deserto, lá em baixo, no Alentejo. Estava a recuperar o fôlego de uma longa caminhada e tinha-me sentado numa pedra a olhar o rio que corria no fundo do desfiladeiro. Creio que estaria como tu estavas naquele dia, o mesmo olhar perplexo perante a vastidão daquele cenário: há alturas em que a beleza é tão devastadora que magoa. Devia haver qualquer coisa na forma como eu olhava aquela paisagem, todo aquele despojamento humano, que fez com que o alentejano que estava comigo, e que antes tinha sido pastor naqueles vales, comentasse:
– A terra pertence ao dono, mas a paisagem pertence a quem a sabe olhar.
E era assim connosco naqueles dias, também. Éramos donos do que víamos: até onde o olhar alcançava, era tudo nosso. E tínhamos um deserto inteiro para olhar.
Desenho de Charles de Foucauld (1856-1916)

Miguel Sousa Tavares (2009). No teu deserto. Alfragide: Oficina do Livro. pp. 49-51

quinta-feira, 16 de junho de 2011

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Vinícius de Moraes, "Poema Enjoadinho"

Filhos...  Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos?  Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem shampoo
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!



In Vinícius de Moraes (1960). Antologia Poética. Rio de Janeiro: Editora do Autor. p. 195. Disponível em http://www.releituras.com/viniciusm_enjoado.asp.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Inês Snyckers, "The Cage"

I looked outside my window in the morning. It was a glorious day, with skies of endless blue and birds chirping happily and free, drifting on the breeze. It was beautiful and scary. I quickly closed the curtains. My room was small, dark, dusty and messy, but those walls that engulfed me gave me all the safety I needed. It was enough for me, and I hadn’t gone outside that room for ten long years. My books gave me freedom equivalent to that of the birds that flew outside my window in the mornings, and for me it was pure bliss. Every time I read one, it was as if the door to my cage had been opened.

One day, a huge storm rustled in the trees and bushes until dawn. When I woke up, the silence or absence of birds startled me and, despite my fear, I approached my window. I flung open the dark brown curtains, and before me there stood a young boy. He was perhaps an elementary student, and shouldn’t have been older than seven. His hair was messy and hid most of his freckled face, while water drops fell from his shorts onto his bare feet.

He did not mouth a single word. He just stood there silently, staring at me, as if he was beckoning me to follow him. He waited there and I stood as motionless as him. I wanted to leave, I really did, but the fear of that open field and endless skies kept me from doing so. We stared at each other for what seemed like hours and then, with a fast precise but gentle gesture, the little boy held his hand to me.

The walls suddenly felt tight, and the air was suffocating. I couldn’t breathe. I opened my window and held the hand stretched out towards me. From that moment I felt free.

(Inédito) Beja, 05.01.2011
Nota: Inês Snyckers é aluna do 1º ano do curso de Artes Plásticas e Multimédia do IPBeja.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fernando Pessoa, "Santo António"


Nasci exactamente no teu dia –
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir…
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!

Santo Antonio, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Catholico, apostólico e romano.

(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João…
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)

Adeante… Ia eu dizendo, Santo Antonio,
Que tu és meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demonio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma aureola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração –
Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um prègador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e anciosa,
Etcetera…
Mas qual de nós vae tomar isso à letra?
Que de hoje em deante quem o diz se digne
Deixar de dizer isso ou qualquer outra cousa.

Qual santo! Olham a árvore a olho nu
E não a vêem, de olhar só os ramos.
Chama-se a isto ser doutor
Ou investigador.

Qual Santo Antonio! Tu és tu.
Tu és tu como nós te figuramos.

Valem mais que os sermões que deveras prègaste
As bilhas que talvez não concertaste.
Mais que a tua longinqua santidade
Que até já o Diabo perdoou,

Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que – aos peixes ou não – a tua voz prègou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instincto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.

Nós somos todos quem nos faz a história.
Nós somos todos quem nos quer o povo.
O verdadeiro titulo de gloria,
Que nada em nossa vida dá ou traz
É haver sido taes quando aqui andámos,
Bons, justos, naturaes em singeleza,
Que os descendentes dos que nós amámos
Nos promovem a outros, como faz,
Com a imaginação que ha na certeza,
O amante a quem ama,
E o faz um velho amante sempre novo.
Assim o povo fez contigo
Nunca foi teu devoto: é teu amigo,
Ó eterno rapaz.

(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm belleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa?...
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a mangerico.

[…]

És este, e este és tu, e o povo é teu –
O povo que não sabe onde é o céu,
E nesta hora em que vae alta a lua
Num placido e legitimo recorte,
Atira risos naturaes à morte,
E cheio de prazer que mal é seu,
Em canteiros que andam enche a rua.

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós mereciamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei Antonio –
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?

In Pessoa (1986). Santo António São João São Pedro. Lisboa: A Regra do Jogo, Ed. Pp. 99-103. (Foi mantida a grafia do original)