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quinta-feira, 5 de junho de 2014

Pepe Danquart

Der Schwarzfahrer (1993)

[com legendas em inglês]


Peter Danquart (1993). Der Schwarzfahrer. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XFQXcv1k9OM (acedido a 5 de junho de 2014).

segunda-feira, 2 de junho de 2014

David Mourão-Ferreira

E por vezes

[poema lido por Elisabete Pedreira, no âmbito da iniciativa "Um Poema por Semana" - RTP2 (2011)]





E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos


Fontes:

David Mourão-Ferreira. «E por vezes». In: Obra Poética 1948-1988. Lisboa: Editorial Presença.

Vídeo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=xaNDpmn-J7A (acedido a 2 de junho de 2014).


quarta-feira, 28 de maio de 2014

Maya Angelou (1928-2014)

[Vídeo: Maya Angelou declama o poema "Still I rise"]


Fonte: Maya Angelou. Still I rise. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=JqOqo50LSZ0 (acedido a 28 de maio de 2014).

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Lula Pena

Fria Claridade


Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=UCrYkPgEkIM (acedido a 16 de Maio de 2014).

quinta-feira, 13 de junho de 2013

terça-feira, 11 de junho de 2013

Almada Negreiros
Luís, o Poeta, Salva a Nado o Poema
Era uma vez
um português
de Portugal.
O nome Luís
há-de bastar
toda a nação
ouviu falar.
Estala a guerra
e Portugal
chama Luís
para embarcar.
Na guerra andou
a guerrear
e perde um olho
por Portugal.
Livre da morte
pôs-se a contar
o que sabia
de Portugal.
Dias e dias
grande pensar
juntou Luís
a recordar.
Ficou um livro
ao terminar.
muito importante
para estudar:
Ia num barco
ia no mar
e a tormenta
vá d'estalar.
Mais do que a vida
há-de guardar
o barco a pique
Luís a nadar.
Fora da água
um braço no ar
na mão o livro
há-de salvar.
Nada que nada
sempre a nadar
livro perdido
no alto mar.
- Mar ignorante
que queres roubar?
a minha vida
ou este cantar?
A vida é minha
ta posso dar
mas este livro
há-de ficar.
Estas palavras
hão-de durar
por minha vida
quero jurar.
Tira-me as forças
podes matar
a minha alma
sabe voar.
Sou português
de Portugal
depois de morto
não vou mudar.
Sou português
de Portugal
acaba a vida
e sigo igual.
Meu corpo é Terra
de Portugal
e morto é ilha
no alto mar.
Há portugueses
a navegar
por sobre as ondas
me hão-de achar.
A vida morta
aqui a boiar
mas não o livro
se há-de molhar.
Estas palavras
vão alegrar
a minha gente
de um só pensar.
À nossa terra
irão parar
lá toda a gente
há-de gostar.
Só uma coisa
vão olvidar
o seu autor
aqui a nadar.
É fado nosso
é nacional
não há portugueses
há Portugal.
Saudades tenho
mil e sem par
saudade é vida
sem se lograr.
A minha vida
vai acabar
mas estes versos
hão-de gravar.
O livro é este
é este o canto
assim se pensa
em Portugal.
Depois de pronto
faltava dar
a minha vida
para o salvar.

Escrito em Madrid (Dezembro de 1931)
Publicado no Diário de Lisboa em 1931

Disponível em Project Gutenberg


Páginas Paralelas:

Luís, o Poeta, Salva a Nado o Poema, de Almada, dito por Mário Viegas in Humores II


Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=qE919A96q40

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Rainer Maria Rilke

Der Panther

Im Jardin des Plantes, Paris

Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe
so müd geworden, dass er nichts mehr hält.
Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe
und hinter tausend Stäben keine Welt.

Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte,
der sich im allerkleinsten Kreise dreht,
ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,
in der betäubt ein großer Wille steht.

Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille
sich lautlos auf -. Dann geht ein Bild hinein,
geht durch der Glieder angespannte Stille -
und hört im Herzen auf zu sein.

Rainer Maria Rilke, 6.11.1902, Paris



Páginas Paralelas:
Das Gedicht von Rainer Maria Rilke, gelesen von Gerhard Wagner (2010)

Der Panther - Animationskurzfilm frei nach Rilke, von Lena Oltman und Konrad Frank (2008)

On this page you’ll find six English translations of this poem
Aqui encontra a tradução do poema em várias línguas, incluindo português do Brasil

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Luis Sepúlveda

O Velho que Lia Romances de Amor
[excerto]
Antonio José Bolívar sabia ler, mas não escrever.
O mais que conseguia era garatujar o nome quando tinha que assinar qualquer papel oficial, por exemplo, na época das eleições, mas, como tais acontecimentos ocorriam muito esporadicamente, já quase se tinha esquecido.
Lia lentamente, juntando as sílabas, murmurando-as a meia voz como se as saboreasse, e, quando tinha a palavra inteira dominada, repetia-a de uma só vez. Depois fazia o mesmo com a frase completa, e dessa maneira se apropriava dos sentimentos e ideias plasmados nas páginas.
Quando havia uma passagem que lhe agradava especialmente, repetia-a muitas vezes, todas as que achasse necessárias para descobrir como a linguagem humana também podia ser bela.
Lia com o auxílio de uma lupa, o segundo dos seus pertences mais queridos. O primeiro era a dentadura postiça.
Vivia numa choça feita de canas de uns dez metros quadrados dentro dos quais arrumava o seu escasso mobiliário: a rede de dormir de juta, o caixote de cerveja com o fogão a querosene em cima, e uma mesa alta, muito alta, porque, quando sentiu pela primeira vez dores nas costas, percebeu que os anos lhe estavam a carregar e decidiu sentar-se o menos possível.
Construiu então a mesa de pernas compridas, que lhe servia para comer de pé e para ler os seus romances de amor.
A choça era protegida por uma cobertura de palha entrançada e tinha uma janela aberta para o rio. Era a ela que estava encostada a mesa alta.
Junto da porta estava pendurada uma toalha esfiapada e a barra de sabão renovada duas vezes por ano. Era um bom sabão, com penetrante cheiro a sebo, e lavava bem a roupa, os pratos, os cacos da cozinha, o cabelo e o corpo.
Numa parede, aos pés da rede, estava pendurado um retrato retocado por um artista serrano onde se via um casal jovem.
O homem, Antonio José Bolívar Proaño, vestia um fato azul de rigor, camisa branca e uma gravata às riscas que só existiu na imaginação do retratista.
A mulher, Dolores Encarnación del Santíssimo Sacramento Estupiñán Otavalo, vestia umas roupas que, essas sim, existiram e continuavam a existir nos recantos obstinados da memória, nos mesmos onde se põe de atalaia o moscardo da solidão.
[…]
Sepúlveda, Luis (2000). O Velho que Lia Romances de Amor
(17ª ed.). (Pedro Tamen, Trad.). Porto: ASA. Pp. 28-29.

Páginas Paralelas:
Filme de Rolf de Heer (2001), baseado no livro de Luis Sepúlveda (filme completo, dobrado em português do Brasil)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Gao Xingjian

Instantâneos
[excerto]
[…]
«Um pequeno chinês…», o velho negro canta em inglês sem lhe lançar um olhar. A velha negra acaricia o teclado, quase deitada sobre o piano, balança o corpo ao compasso, absorvida pela música, como se estivesse bêbeda ou apaixonada, também não olha. Ele está entretido a beber a sua cerveja. Sob a luz azul fluorescente do bar, ninguém olha para ninguém. A assistência, embalada pela música, parece um grupo de marionetas a mexer a cabeça.
O cavalo empinou as patas da frente. Patas cobertas de pêlos. «Vagabundeia pelo mundo…» O canto do velho homem negro recomeça.
A velha mulher dá o acorde, o sol ressoa nos cascos dos cavalos. «Vagabundeia pelo mundo… Vagabundeia pelo mundo…» O velho homem negro é acompanhado pela bateria e a assistência move a cabeça ao ritmo.
A corda desliza de mão em mão; em baixo, os pés calçados com sapatos de couro estão solidamente ancorados na relva verde.
A espuma voa no ar, as vagas batem no molhe. Em baixo, a maré sobe, a praia já desapareceu completamente. O sol continua brilhante, mas o céu e o mar parecem de um azul ainda mais forte.
A extremidade da corda acaba por aparecer. Um enorme peixe morto preso a um anzol vermelho é lançado sobre a erva verde. Tem a boca muito aberta como se ainda respirasse; de facto, está morto. O seu olho muito redondo já não tem brilho, mas ainda tem uma expressão de pavor.
A água do mar ultrapassa o molhe e espraia-se no dique molhado. O céu torna-se azul escuro e a luz do sol extraordinariamente transparente.
Uma grande barata de asas luzidias agita as antenas. Trepa pelo tapete felpudo de uma brancura leitosa. Avança sobre os fios entrançados. No círculo de luz do lustre suspenso sobre o tapete recorta-se a parte de trás de um cavalo esculpido em madeira de palissandro: as duas patas posteriores e a garupa lisas e brilhantes. Os cascos estão cobertos por uma lamela de cobre fixada por pequenos pregos delicadamente trabalhados.
«Vagabundeia… pelo mundo! Vagabundeia… pelo mundo!» O teclado recomeça a cantar sob as mãos negras cobertas de rugas. Abana incessantemente a cabeça ao ritmo da música. Em frente dele, no balcão, estão alinhadas três garrafas de cerveja vazias. Na mão tem um copo meio cheio. Uma mulher branca instala-se no banco ao lado do seu, coxas apertadas por uma saia de cabedal, tão lisas e brilhantes como a garupa de um cavalo.
A água do mar, como uma peça de cetim negro, espraia-se no dique; um peixe morto jaz na água que se estende. Nem um som. A maré e o vento quedaram-se subitamente. Parece que o tempo parou. Só a água do mar se espraia, negro cetim estendido. Talvez não se mova. É apenas uma impressão, uma sensação, uma imagem que se pressente.
[…]
Gao, Xingjian (2001). Instantâneos. In Uma Cana de Pesca para o Meu Avô (3ª ed.).
(Carlos Aboim de Brito, Trad.). Lisboa: Publicações Dom Quixote. pp. 100-101.


Páginas Paralelas:
Gao Xingjian’s Biography and Nobel Letcure
Gao Xingjian’s art work
«Prix Nobel de littérature 2000, poète, dramaturge, peintre, Gao Xingjian a choisi Marseille pour s'y installer durant une année. "L'Année Gao à Marseille" a été pour l'artiste un défi fou et osé : Art plastiques, Théâtre, Opéra, Colloque international, Cinéma, autant d'œuvres inédites d'une éthique métaphysique rare et présentées aux Marseillais comme une démarche volontaire d'Art Total, avec comme Commissaire général Salvatore Lombardo. La réalisation de Alain Melka nous révèle, tout en poésie et pudeur, une œuvre majestueuse et unique, mais surtout un homme, Gao Xingjian, épris de liberté artistique et humaine. "Un oiseau dans la ville", les ailes du langage absolu.»
Alain Melka (2003). "L'Année Gao à Marseille". Digital Media Production:
          Part 1
          Part 2

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Hanif Kureishi
Midnight All Day
[excerpt]

Ian lay back in the only chair in the room in Paris, waiting for Marina to finish in the bathroom. She would be some time, since she was applying unguents – seven different ones, she had told him – over most of her body, rubbing them in slowly. She was precious to herself.
            He was glad to have a few minutes alone. There had been many important days recently; he suspected that this would be the most important and that his future would turn on it.
            For the past few mornings, before they went out for breakfast, he had listened to Schubert’s Sonata in B Flat Major, which he had not previously known. Apart from a few pop tapes, it was the only music in Anthony’s flat. Ian had pulled it out from under the futon on their first day there.
            Now, as he got up to play the CD, he glimpsed himself in the wardrobe mirror and saw himself as a character in a Lucian Freud painting; a middle-aged man in a thin, tan raincoat, ashen-faced, standing beside a dying pot plant, overweight and with, to his surprise, an absurd expression of hope, or the desire to please, in his eyes. He would have laughed, had he not lost his sense of humour.
[…]
Kureishi, Hanif (1999). Midnight All Day. In Midnight All Day.
London: Faber and Faber. p. 157.

Páginas paralelas:
The official Hanif Kureishi web site (includes original writing)
Schubert: Sonata in B Flat D. 960, performed by Alicia de Larrocha (1923-2009)
Lucian Freud’s Art available here

quinta-feira, 16 de maio de 2013




Sand animation (vídeo)

Kseniya Simonova

 


 

Kseniya Simonova (2009). Sand Animation. Nazi invasion of Ukraine.

Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=-w3j4wNvcGY (acedido a 12 de Maio de 2013).



sexta-feira, 26 de abril de 2013

António Victorino d’Almeida
 
Um Caso de Bibliofagia

[excerto]


       […]
       Um relâmpago intensíssimo iluminou-lhe a porta do corredor. Abriu-a devagar e certificou-se de que todos dormiam. Do quarto do mano Lourenço saíam roncos bestiais. Era um cevado, mesmo a dormir! Ria-se com as anedotas, mas tinha inveja de quem as fazia, recalcava o despeito em ódios surdos que explodiam, tempestuosos, nas situações mais imprevistas. Ameaçava de morte os espanhóis que encontrasse, por causa do sino roubado e transformado em canhão; e participara numa espera a um palhaço andaluz que trabalhava num circo… O homem ficara belfo, sem dentes, os lábios abertos, apresentara queixa na polícia e confessara que era português, natural de Ovar, jamais passara a fronteira… O mano Lourenço sabia disso, mas tinha-lhe asco por fazer rir os outros! E por falta de testemunhas, o processo não fora avante, impunes os agressores… Era uma besta, o mano Lourenço! Ressonava como um porco! A mana Honorata ressonava em assobio, como as panelas de pressão ao lume… O mano Joaquim ressonava menos, mas rosnava frases, palavrões, queixumes, revolvia-se a noite inteira e chegava a cair da cama! A Aidinha parecia uma rola e dormia com uma boneca que businava [sic] quando lhe mexiam… Dormiam todos, apesar da trovoada, moídos pelo serão com as visitas, pelo álcool do espumante, dos licores e dos bagaços. Dormiam sempre que havia festa, cada um com os seus sonhos, cada um com os seus grunhidos… E de novo a luz de um relâmpago iluminou o caminho de Leonardo: já estava na sala onde havia uma estante pomposamente chamada – a biblioteca… Juntos com estatuetas e retratos, os livros alinhavam-se, lado a lado. Havia livros de todos os tamanhos, de todas as espessuras, de todas as cores… Eram belos, os livros! E ele, que era poeta, embora não soubesse fazer versos, deslizava a mão lasciva pela fieira das lombadas e sentia aquele estranho calor dos poentes cor-de-rosa, ou da espreita minuciosa de um canto de corredor onde a Aidinha tinha mil dedos…
       Detiveram-se os seus dedos na carícia de um livro amarelado, de capa já esgarçada pelo tempo, nunca pelo uso… Lás fora, a tempestade uivava num furor de invernia escabrosa. Na sala, abraçado à estante, Leonardo sorria e recordava, rendia-se ao prazer da memória, ouvia a voz do Professor chamar-lhe Poeta, revivia o longo diálogo em que falara e fora ouvido, as palavras justas e cuidadas que escolhera para dar de si a imagem saudável de um sôfrego devorador da Filosofia que é a base transcendente do moderno saber…
       E numa volúpia gestual de câmara lenta, levou o livro amarelado à boca e começou a trincá-lo, primeiro suavemente, mordiscando as folhas do prefácio, depois com mais intensidade, num mastigar vigoroso, até ao rasgar das páginas em golpes asselvajados de mandíbula gulosa e insaciável!
       Nessa noite devorou o seu primeiro livro.
………………………………………………………………………………………………………………….
[…]

D’Almeida, António Victorino (1985). Um Caso
de Bibliofagia. Lisboa: Edições Rolim. pp. 48-49.


Páginas Paralelas:
Biografia do autor disponível aqui

Quando eu for grande: “Maestro António Vitorino de Almeida realiza sonho de criança”(SIC, 18 de fevereiro de 2013). Disponível aqui