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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Sophia de Mello Breyner Andresen

Meio-Dia

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo
Parece bater palmas.

Sophia de Mello Breyner Andresen (2010). "Meio-Dia". In: Obra Poética. Lisboa: Caminho, p. 18.


Terminado o semestre, a equipa de Uma Página por Dia deseja a todos/as boas férias! 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

David Mourão-Ferreira

E por vezes

[poema lido por Elisabete Pedreira, no âmbito da iniciativa "Um Poema por Semana" - RTP2 (2011)]





E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos


Fontes:

David Mourão-Ferreira. «E por vezes». In: Obra Poética 1948-1988. Lisboa: Editorial Presença.

Vídeo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=xaNDpmn-J7A (acedido a 2 de junho de 2014).


terça-feira, 27 de maio de 2014

Miguel Torga

Leiria, 10 de Abril de 1940.

Visita

Fui ver o mar.
Homem de pólo a pólo, vou
De vez em quando olhá-lo, enraizar
Em água este Marão que sou.

Da penedia triste
Pus-me o olhar aquele fundo
Dentro do qual existe
O coração do mundo.

E vi, horas a fio,
A sua angústia ser
Uma espécie de rio
Que não sabe correr.



Miguel Torga (2001). «Visita». In: Antologia Poética. Lisboa: Círculo de Leitores, p. 253.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Miguel Torga

Coimbra, 11 de Março de 1952

Retrato

O meu perfil é duro como o perfil do mundo.
Quem adivinha nele a graça da poesia?
Pedra talhada a pico e sofrimento,
É um muro hostil à volta do pomar.
Lá dentro há frutos, há frescura, há quanto
Faz um poema doce e desejado;
Mas quem passa na rua
Nem sequer sonha que do outro lado
A paisagem da vida continua.



Miguel Torga (2001). Antologia Poética. Lisboa: Círculo de Leitores, p. 292.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Bertolt Brecht

A QUEIMA DOS LIVROS

Quando o Regime ordenou que queimassem em público
Os livros de saber nocivo, e por toda a parte
Os bois foram forçados a puxar carroças 
Carregadas de livros para a fogueira, um poeta
Expulso, um dos melhores, ao estudar a lista
Dos queimados, descobriu, horrorizado, que os seus
Livros tinham sido esquecidos. Correu para a secretária
Alado de cólera e escreveu uma carta aos do Poder.
Queimai-me! escreveu com pena veloz, queimai-me!
Não me façais isso! Não me deixes de fora! Não disse eu
Sempre a verdade nos meus livros? E agora
Tratais-me como um mentiroso! Ordeno-vos:
Queimai-me!


Bertolt Brecht (1999). «A Queima dos Livros», trad. Paulo Quintela. In: Paulo Quintela. Obras Completas. Vol. IV. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, p. 50.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Álvaro de Campos

Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente reparei,
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? Serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente. 


Fernando Pessoa (1986). Obra Poética. Vol. II. Lisboa: Círculo de Leitores, p. 141.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Alexandre O'Neill

FALA!


Fala a sério e fala no gozo
fá-la p'la calada e fala claro
fala deveras saboroso
fala barato e fala caro

Fala ao ouvido fala ao coração
falinhas mansas ou palavrão

Fala à miúda mas fá-la bem
Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe

Fala francês fala béu-béu

Fala fininho e fala grosso
desentulha a garganta levanta o pescoço

Fala como se falar fosse andar
fala com elegância - muita e devagar.

Alexandre O'Neill (2004). «Fala!». In Poemário 2004. Lisboa: Assírio & Alvim.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Bertolt Brecht


PERGUNTAS DUM OPERÁRIO LEITOR

Quem construiu a Tebas das sete portas?
Nos livros estão os nomes dos reis.
Foram os reis que arrastaram os blocos de pedra?
E a várias vezes destruída Babilónia –
Quem é que tantas vezes a reconstruiu? Em que casas
Da Lima refulgente de oiro moraram os construtores?
Para onde foram os pedreiros na noite em que ficou pronta
A Muralha da China? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os levantou? Sobre quem
Triunfaram os Césares? Tinha a tão cantada Bizâncio
Só palácios para os seus habitantes? Mesmo na lendária Atlântida,
Na noite em que o mar a engoliu, bramavam
Os afogados pelos seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os Gálios.
Não teria consigo um cozinheiro ao menos?
Filipe de Espanha chorou, quando a Armada
Se afundou. Não chorou mais ninguém?
Frederico Segundo venceu na Guerra dos Sete Anos. Quem
Venceu além dele?

Cada página uma vitória.
Quem cozinhou o banquete da vitória?
Cada dez anos um Grande Homem.
Quem pagou as despesas?

Tantos relatos.
Tantas perguntas.

Bertolt Brecht, Poemas e Canções, selecção e versão portuguesa de Paulo Quintela,
Livraria Almedina, Coimbra, 1975.
Paulo Quintela, Obras Completas, vol. IV, Fundação Calouste Gulbenkian, 1999.

Poema transcrito a partir de:
Carlos Castilho Pais (2006). «NOITE e DIA na tradução dos poemas de B. Brecht». Jornadas sobre Bertolt Brecht, Universidade Aberta, 26 e 27 de outubro de 2006. Disponível em: http://www.univ-ab.pt/~castilho/noite%20e%20dia.pdf (consultado a 1 de maio de 2014).

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Vasco Graça Moura

sobre a minha cidade

sobre a minha cidade, falei-te ontem, mostrei-te
as esquinas do tempo, a imagem de fachadas
que ainda conheci, de outras que
eu próprio ignorava; sobre

a minha cidade e suas pedras, seus espaços
de árvores graves; e o que foi arrasado,
ou está a desfazer-se; as manchas do presente, a
poluição dos homens; e o que foi

violentamente arrancado por negócios sucessivos,
erros, brutalidades: o que era e o que foi
o que é dentro de mim o seu obscuro,
imaginário ser: costumes e conflitos,

maneiras de falar, a gente
e a confusão das ruas, as casas do barredo;
sobre a minha cidade achei que tu
tiveste gratidão, a viste.

que percorreste as pontes que da minha
cidade a ti me trazem, entre
gaivotas alastrando e músicas diferentes,
e foste nascer nela.


Vasco Graça Moura (1996). «sobre a minha cidade». In: Poemas Escolhidos. Venda Nova: Bertrand, p. 222.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Sophia de Mello Breyner Andresen

Revolução

Como casa limpa 
Como chão varrido 
Como porta aberta

Como puro início 
Como tempo novo 
Sem mancha nem vício 
 
Como a voz do mar 
Interior de um povo 
 
Como página em branco 
Onde o poema emerge 
 
Como arquitectura 
Do homem que ergue 
Sua habitação

27 de Abril de 1974



Sophia de Mello Breyner Andresen (2000). «Revolução». In: Cem Poemas de Sophia. Lisboa: Visão/Jornal de Letras, p. 94.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Sophia de Mello Breyner Andresen

Pranto pelo dia de hoje

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas



Sophia de Mello Breyner Andresen (2004). «Pranto pelo dia de hoje», in: Cem Poemas de Sophia. Lisboa: Visão/Jornal de Letras, p. 62.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Eugénio de Andrade

ALENTEJO

Agonia
dos lentos inquietos
amarelos, 
a solidão do vermelho
sufocado,
por fim o negro,
fundo espesso,
como no Alentejo
o branco obstinado.

Eugénio de Andrade (1987). «Alentejo», In: Poesia e Prosa, 3.ª ed. aumentada. Vol. II. Lisboa: Círculo de Leitores, p. 19.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Eugénio de Andrade

ARREDORES DE BEJA

Sentadas pelas portas as mulheres cantavam em segredo,
os olhos iam-se pela tarde lentos e molhados,
regressavam em chama pelos campos ceifados.


Eugénio de Andrade (1987). «Arredores de Beja», In: Poesia e Prosa 1940-1986, 3.ª ed. Aumentada. Vol. II. Lisboa: Círculo de Leitores, p. 19.

quinta-feira, 27 de março de 2014


Nuno Júdice
Carta de Orfeu a Eurídice
[excerto]



[…]

7

Iludia-me. A morte, que é o fim
do amor, corria à solta nos temporais
da alma. Eu podia ter uma consciência
da sua presença nalguns intervalos bruscos,
quando os teus passos me faltavam, e
só uma nova respiração, atrás de mim, me
restituía o ânimo da ascensão. Tu,
liberta dessa morte que te prendia os lábios,
dizias-me: não me deixes! Como se fosse
preciso dizê-lo! E não fosses tu a única
razão dessa viagem a que dei o nome
vida, sabendo que a sua única verdade é esse
amor. Porém, os nossos lábios não se
encontravam na certeza do tempo.
O futuro instalou a sua distância naquilo
que é o presente, com a sua duração inscrita
no destino dos que conheceram uma
coincidência de um e outro, o olhar uníssono
dos amantes, o brusco repouso de uma
ânsia de espaço. Aqui, a distância é o que não
separa; o medo da mudança dissipa-se;
e a recordação é o que está depois do que foi
vivido, como se fosse a memória a construir
o dia de amanhã.

Quis arrancar-te, assim, ao destino ― e
libertar-me, eu próprio, da sua sujeição. Quantos
rostos se fixaram no teu, para que em ti
eu visse cada uma das imagens por onde passei,
restituindo-lhes uma respiração humana. Procurei-te
enquanto imaginei que me procuravas ― e
cada passo que dava, na minha descida, afastava
tudo o que eu perdia enquanto descia. Nesse outro
mundo, em que nos reduzimos a nós, afastando
do que somos tudo o que nos opunha,
não dei por que um cansaço de ser me obrigava
ao regresso. Tê-lo-ei feito cedo demais? Por
que me voltei, então, como se soubesse que
as sombras não pedem que as olhemos,
e deixei que te prendessem com a sua
inquietação de fumo?

No entanto, um eco responde-me: estou
aqui. E por trás dele outros ecos se sucedem,
multiplicando os lugares, até ao fim
do caminho. No teu quarto, prendendo o cabelo,
esperas que um incêndio de poço entreabra
a noite, e rompa os muros que o silêncio
ergueu à tua volta. Mas o canto envolve-te: e
despe-te, com a solidão dos seus dedos, até
à nudez do caule.


Nuno Júdice (2009). «Carta de Orfeu a Eurídice». In: Pedro, Lembrando Inês. Lisboa: Publicações Dom Quixote, pp. 57-58.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Miguel Torga

Orfeu Rebelde

Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade do meu sofrimento.

Outros, felizes, sejam os rouxinóis...
 Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.

Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.

Miguel Torga (2002). «Orpheu Rebelde». In: Poesia Completa II. Lisboa: Círculo de Leitores, p. 555.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Dia Mundial da Poesia

António Ramos Rosa

Um poema é sempre escrito numa língua estrangeira
com os contornos duros das consoantes
com a clara música das vogais
Por isso devemos lê-lo ao nível dos seus sons
e apreendê-lo para além do seu sentido
como se ele fosse um fluente felino verde ou com a cor do fogo
O que de vislumbre em vislumbre iremos compreendendo
será a ágil indolência de sucessivas aberturas
em que veremos as labaredas de um outro sentido
tão selvagem e tão preciosamente puro que anulará o sentido das palavras
É assim que lemos não as palavras já formadas 
mas o seu nascimento vibrante que nas sílabas circula
ao nível físico do seu fluir oceânico


António Ramos Rosa (2001). «Um poema é sempre escrito numa língua estrangeira». In: Deambulações Oblíquas. Lisboa: Quetzal, p. 114.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Eugénio de Andrade

ELEGIA

Às vezes era bom que tu viesses.
Falavas de tudo com modos naturais:
em ti havia
a harmonia dos frutos
e dos animais. 

Maio trouxe cravos como outrora, 
cravos morenos, como tu dizias, 
mas cada hora
passa e não se demora
nas tristezas das nossas alegrias.

Ainda sabemos cantar, 
só a nossa voz é que mudou: 
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude,
tu quebraste o ritmo e o ardor,
ao partires um a um
os ramos todos da tua juventude. 

Não estamos sós:
setembro traz ainda
um fruto em cada mão. 
Mas os homens, as aves e os ventos
já não bebem em ti a direcção.


Eugénio de Andrade (1987). «Elegia». In: Poesia e Prosa. Lisboa: Círculo de Leitores, pp. 36-37.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Alexandre O'Neill

O PAÍS RELATIVO

País por conhecer, por escrever, por ler...

                        
País purista a prosear bonito,
a versejar tão chique e tão pudico,
enquanto a língua portuguesa se vai rindo,
galhofeira, comigo.

                         
País que me pede livros andejantes
com o dedo, hirto, a correr as estantes.

                         
País engravatado todo o ano
e a assoar-se na gravata por engano.

                         
País onde qualquer palerma diz,
a afastar do busílis o nariz:
-Não, não é para mim este país!
mas quem é que bàquestica sem lavar
o sovaco que lhe dá o ar?

                         
Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.

                         
País do cibinho mastigado
devagarinho.

                         
País amador do rapapé,
do meter butes e do parlapié,
que se espaneja, cobertas as miúdas,
e as desleixa quando já ventrudas.

                         
O incrível país da minha tia,
trémulo de bondade e de aletria.

                         
Moroso país da surda cólera,
de repente que se quer feliz.

                         
Já sabemos, país, que és um homenzinho...

                         
País tunante que diz que passa a vida
a meter entre parêntesis a cedilha.

                         
A damisela passeia
no país da alcateia,
tão exterior a si mesma
que não é senão a fome
com que este país a come.

                         
País do eufemismo, à morte dia a dia
pergunta mesureiro: - Como vai a vida?

                         
País dos gigantones que passeiam
a importância e o papelão,
inaugurando esguichos no engonço
do gesto e do chavão.

E ainda há quem os ouça, quem os leia,
lhes agradeça a fontanária ideia!

                         
Corre boleada, pelo azul,
a frota de nuvens do país.

                         
País desconfiado a reolhar para cima
dum ombro que, com razão, duvida.

                         
Este país que viaja a meu lado,
vai transido mas transistorizado.

                         
Nhurro país que nunca se desdiz.

                         
Cedilhado o cê, país, não te revejas
na cedilha, que a palavra urge.

                         
Este país, enquanto se alivia,
manda-nos à mãe, à irmã, à tia,
a nós e à tirania,
sem perder tempo nem caligrafia.

                         
Nesta mosquitomaquia
que é a vida,
ó país,
que parece comprida!

                         
A Santa Paciência, país, a tua padroeira,
já perde a paciência à nossa cabeceira.

                         
País pobrete e nada alegrete,
baú fechado com um aloquete,
que entre dois sudários não contém senão
a triste maçã do coração.

                         
Que Santa Sulipanta nos conforte
na má vida, país, na boa morte!

                         
País das troncas e delongas ao telefone
com mil cavilhas para cada nome.

                         
De ramona, país, que de viagens
tens, tão contrafeito...

                         
Embezerra, país, que bem mereces,
prepara, no mutismo, teus efes e teus erres.

                         
Desaninhada a perdiz,
não a discutas, país!
Espirra-lhe a morte pra cima
com os dois canos do nariz!

                         
Um país maluco de andorinhas
tesourando as nossas cabecinhas
de enfermiços meninos, roda-viva
em que entrássemos de corpo e alegria!

                         
Estrela trepa trepa pelo vento fagueiro
e ao país que te espreita, vê lá se o vês inteiro.

Hexágono de papel que o meu pai pôs no ar,
já o passo a meu filho, cansado de o olhar...

                                               
No sumapau seboso da terceira,
contigo viajei, ó país por lavar,
aturei-te o arroto, o pivete, a coceira,
a conversa pancrácia e o jeito alvar.


Senhor do meu nariz, franzi-te a sobrancelha;
entornado de sono, resvalaste para mim.
Mas também me ofereceste a cordial botelha,
empinada que foi, tal e qual clarim!

Alexandre O'Neill (1986). «O País Relativo», in: tomai lá do O'Neill! S.l.: Círculo de Leitores, pp. 153-156.