Mostrar mensagens com a etiqueta Em Português. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Em Português. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 12 de março de 2014

Alexandre O'Neill

PORTUGAL


Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!


Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

Alexandre O'Neill (1986). «Portugal», in: tomai lá do O'Neill! S.l.: Círculo de Leitores, p. 149.

terça-feira, 11 de março de 2014

VIAGEM PELA IDEIA DA CRISE
João de Melo

Não sei há quantos anos ouço falar de crise — a ideológica, a religiosa, a sentimental, a artística, a literária; e também a social, a económica, a financeira, a laboral, a política, a mundial ou a universal. Uma crise sem paredes que circula entre todos os espaços em branco – esta espécie invasora que já não se detém no limiar de nenhuma fronteira; que não precisa de passaporte nem de santo e senha para entrar, insinuar-se, insurgir-se e instalar-se sentada no meio de nós, ou erguida no pavor sombrio dos nossos sonhos, na roupa, na pele, na alma (para quem ainda a possua ou nela creia, obviamente!).
Nenhuma ideia de felicidade nos pertence (seria no mínimo ridículo que um escritor ousasse confessar-se uma pessoa feliz). Nascemos portugueses, mas para sobreviver a um permanente e absoluto estado de crise, em Portugal. Aqui mesmo ao lado, em Paris, a cidade do exílio e dos mitos ideológicos de outrora, Jean-Paul Sartre morreu com as mesmas dúvidas que o levaram a inventar uma teoria para a angústia do homem moderno, à qual chamou "existencialismo". Para mim, a única e verdadeira crise dá pelo nome de hiperidentidade — ao mesmo tempo individual e colectiva. Assistem-me portanto o direito e o dever de a invocar. Não sei que fazer de mim, do meu excesso de identidade. Sei muito bem quem sou, mas ignoro a minha missão e não sei em que morada deixei esquecida a chave do meu próximo destino.
Nenhuma possibilidade de se ser feliz em Portugal? Seja pelo facto de nada de bom ou de extremamente mau nos acontecer, seja porque em Portugal simplesmente já não acontece nada. Falamos pouco, mas ouvimos muito. Come-se mal, bebe-se melhor. O resto é uma chaga, uma deriva, um sentimento de que nada aqui nos pertence. Não sei quem veio de fora, nem por que motivo as coisas deixaram de ser nossas — mas voga por aí uma presença estranha, o rosto invisível e absoluto de um qualquer ocupante estrangeiro. Ele mudou o nome das coisas e a precisão doméstica dos nossos sítios. Tomou conta dos lugares públicos. Aquartelou-se nas casas, nas tribunas e nos templos. E agora impõe-nos uma ordem social e espiritual que nunca foi nossa: ou seja, uma religião sem princípios, a confraria da imoralidade, o coro, as matinas, as vésperas de um convento para as almas. E uma sabatina histórica que não nos deixa regras nem palavras. Mas se de facto não acontece nada, tudo porém se vai fazendo em nome de uma imensa maioria silenciosa, a mesma que dá sustento e legitimidade aos diques de que é feita a conjura, digo, a conjuntura do medo e do regime.
Hoje, em Portugal, é Deus quem parte e reparte com o Diabo, ficando este com a melhor parte. São populares e risonhos os amanuenses e os ditadores do país onde já não acontece nada. Basta-nos, para que isto ainda exista, haver lá no alto um cardeal primeiro-ministro, alguns bispos e curas nos ministérios e uns quantos noviços por secretários de Estado – mantendo-se assim a nossa ilusão acerca da existência do país. Bastam-lhe os lugares sentados no Parlamento e um talentoso orador a gritar ao povo; bastam-lhe dois escritores e meio para falar por todos; doze actores de teatro e cinema, dez polícias e um general, um maestro de batuta erguida ante as cinquenta e duas cabeças de uma orquestra, zero vírgula um arrependidos políticos confessos, dois vírgula zero seis professores e sindicalistas, três médicos e meio engenheiro, um cantor de fados e treze guarda-costas, um agricultor e oito industriais, um futebolista e três quartos de outro, um careca idoso e outro careca que ainda exibe o cartão jovem ou o título de novo empreendedor — e fica completo o comício.
Não posso nem devo queixar-me de um país que já não existe. Lamento tudo aquilo que aqui me cerca: este território de ocupação e de gente possuída, este novo “silêncio do mar” de que falou um dia o proscrito Vercors, e o tempo de agora que parece eterno enquanto dura, como diria o poeta Vinícius; o tempo em que, em silêncio oficial, vão morrendo (indignados, desgostosos) mulheres e homens de cultura, gente honrada que assistiu à nova invasão dos Hunos e à sua barbárie e que ainda assim permaneceu honrada. Vão-se os homens desta terra que em tudo deixou de valer a pena desde que sua alma se fez pequena. Vão-se os anéis e os dedos, os pomares e as vinhas, as searas de trigo e os pinhos, os pássaros e o milho — e calam-se pouco a pouco as vozes e os sinos. Já tudo foi dito e escrito, ó André Gide; mas, visto que a memória é tão breve, deve-se escrever e dizer tudo de novo. E aprender no vento os nomes de tudo aquilo que agora é e que dantes não estava aqui. Havia a agricultura e os campos, o canto e a lida (Fernando Pessoa), a poesia e o sonho, os barcos, as veredas e as sombras. Havia algo por que ainda fosse possível e preciso gritar. Não este silêncio e este sepulcro, nem este desmazelo prepotente, nem esta arte de que usam e abusam eles, os ocupantes, para nos fazerem calar a boca e ter paciência. O caso é que eu aprendi a revolução e a história na escola primária. Vivi-as no gesto largo dos heróis, colhi-as como as flores do mal e do vinho em Baudelaire. Não vim para assistir a isto de chegar uma gente sem idade nem memória de nada e obrigar-me a crer que tudo aquilo que vivi e amei não passou afinal de uma ficção ou de uma mentira. No meu tempo, havia livros escritos só para que os comessem os subalimentados do sonho, ó Natália Correia, e não esta gente que nos vira a cara, que cospe para o lado e diz entre dentes que a cultura é cega surda e muda como a pedra, como a “mula da cooperativa” (canção da ilha da Madeira, onde também vibram e morrem alguns dos sonhos que nos foram comuns).
Uma breve história de logros. A história súbita, devassada e oprimida dos meus logros portugueses. De pouco adianta escrevê-la: ninguém ma leria, querido Eça de Queirós. Não devo sequer contá-la: não há quem ouça. Fosse eu um príncipe com orelhas de burro (ou burro com orelhas de príncipe) e com mãos ou patas abriria a terra, a única confidente portuguesa, para a ela contar a longa relação dos logros lusitanos. Quem sou eu, porém, para duvidar da evidência e mesmo da certeza, da versão oficial e do comunicado semanal do conselho de ministros, das notícias do bloqueio e daquele que foi eleito para não ter dúvidas — no país onde já um dia vi passar ciências sociais e humanas como a Filosofia, a Geografia, a Historiografia, a Literatura, a História Universal da Infâmia, Jorge Luis Borges, a ditadura, a guerra colonial, o golpe de estado, a revolução; neste mesmo país onde hoje já não se é nem se está vivo pelos próprios meios da inteligência e da vontade; onde pouco ou nada vale a pena, e cuja consciência nos dói – mas onde já nem a consciência disso vale a pena ou a paixão?
 A crise é uma viagem pelo tempo acima – e esta a minha crónica dela. Penso-a e vivo-a com palavras. As sempre belas e amadas palavras. Amo-as tanto como às mulheres e às nuvens brancas que pairam sobre o azul plano e luminoso do mar. Porque eu gosto dos amores secretos que também a mim me escondem da evidência em pleno campo de batalha. Mas a minha guerra não defende o rei. Armei-me contra a crise que levou daqui a alma e trouxe consigo o exército estrangeiro. Atacar o ocupante, mandar prender o rei e o eleito na ilha mais distante de todas as ilhas, fora do coração do povo, para que um e outro vejam e provem deste mesmo exílio; e morram ambos, como nós morremos, do nosso desgosto de sabermos quem somos – e afinal termos perdido o navio do regresso a casa, à terra dos nossos pais, ao mar que um dia já foi só nosso e agora, definitivamente, não nos pertence. 
Escritor
Comunicação para o encontro literário Correntes d' Escritas 2014.

João de Melo (2014, 26 Fev.). «Viagem pela ideia da crise». Público. Disponível em:


segunda-feira, 10 de março de 2014

Mário de Sá-Carneiro

O recreio


Na minha Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar - 
Balouço à beira dum poço,
Bem difícil de montar...

- E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...

Se a corda se parte um dia
(E já vai estando esgarçada),
Era uma veza folia:
Morre a criança afogada...

- Cá por mim não mudo a corda,
Seria grande estopada...

Se o indez morre, deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...

- Mudar a corda era fácil...
Tal ideia nunca tive...


Paris - outubro  1915

Mário de Sá-Carneiro (2005). «O Recreio», in: Poemas Completos (3.ª edição). Lisboa: Assírio e Alvim, p. 113.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Adília Lopes


POETISA-FÊMEA, POETA-MACHO 
(cliché em papel couché)

1
Eu estou nua
eu estou viva
eu sou eu

Eu uso gravata
e, olhe, não foi barata

2
Sou uma poetisa-fêmea
falo do falo

Sou um poeta-macho
sacho

3
Sou um poeta-macho
sou um desmancha-prazeres
sou um empata-fodas

Sou uma poetisa-fêmea para mim
é tudo bestial

4
Sou um poeta-macho
sou arrogante
sou um pé de Dante

Sou um poeta-macho
sou um facto
sou um fato

5
Sou um poeta-macho
tenho um gabinete
sou uma poetisa-fêmea
escrevo na retrete

Sou um poeta-macho
sou um badalo
sou uma poetisa-fêmea
calo-me

6
A poetisa- fêmea
toca viola
o poeta-macho
viola-a


7
Senhora doutora,
os seus seios
são feios

o poeta-macho
assina o despacho


8
Não tenho culpa
não tenho desculpa
não tenho cuspo
não tenho tempo

9
Natália Correia, Mário Soares
antes me ponha
um cacto
mas não me mato

Adília Lopes (2009). «Poestisa-Fêmea, Poeta-Macho». In: Dobra. Poesia Reunida. Lisboa: Assírio e Alvim, pp. 462-463.

quinta-feira, 6 de março de 2014


Civilidade


não tussa madame
reprima a tosse

não espirre madame
reprima o espirro

não soluce madame
reprima o soluço

não cante madame
reprima o canto

não arrote madame
reprima o arroto

não cague madame
reprima a merda

e quando estourar
que seja devagarinho
e sem incomodar, ok madame?

ok, monsieur.


Alberto Pimenta (1990). «Civilidade». In: Obra Quase Incompleta. Lisboa: Fenda, p. 175.


quarta-feira, 5 de março de 2014

António Ramos Rosa

É por Ti que EscrevoÉ por ti que escrevo que não és musa nem deusa 
mas a mulher do meu horizonte 
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia 
Por ti desejo o sossego oval 
em que possas identificar-te na limpidez de um centro 
em que a felicidade se revele como um jardim branco 
onde reconheças a dália da tua identidade azul 
É porque amo a cálida formosura do teu torso 
a latitude pura da tua fronte 
o teu olhar de água iluminada 
o teu sorriso solar 
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte 
nem a túmida integridade do trigo 
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis 
para a oferenda do meu sangue inquieto 
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol 
que quer resplandecer em largas planícies 
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso 
António Ramos Rosa (2001). «É por ti que escrevo que não és musa nem deusa». In: Antologia Poética. Lisboa: Dom Quixote, p.340.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

José Luís Peixoto

Quando nasci

quando nasci. esperava que a vida.
me trouxesse. a terra. quando nasci.
esperava que a vida. me trouxesse.
as árvores. e os pássaros. e as crianças.
quando nasci. tinha o mundo. todo.
depois dos olhos. depois dos dedos.
e não percebi. não percebi. nada.
nunca imaginei. quando nasci. que a vida.
quando nasci. já era a escuridão. a escuridão.
em que estava. quando nasci.


José Luís Peixoto (2007). «quando nasci», in: A Criança em Ruínas (6.ª ed.). Vila Nova de Famalicão: Quasi, p. 37.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

José Luís Peixoto

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais 
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde 
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.


José Luís Peixoto (2007). «na hora de pôr a mesa, éramos cinco», in: A Criança em Ruínas (6.ª ed.). Vila Nova de Famalicão: Quasi, p. 13.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Mário Cesariny

aeroporto

a mala que segue viagem
assim como o avião
têm a grande vantagem
de não terem coração

só formas amplas - metais
de uma brancura de praia -
dentro vão sonhos a mais
é bom que a mala não caia

mala do sonho vais bem
assim deitada de lado?
chega-te a roupa que tens
ou chamamos o criado?

ou chamamos o fantasma
da queda livre no espaço,
vêrga do pássaro de aço
onde a poesia se espasma?

Mário Cesariny, «aeroporto», in: manual de prestidigitação. Lisboa: Assírio e Alvim, p. 75.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Mário Cesariny

manhã fresca...

Manhã fresca, reclinada
pela primavera crescente.
O mais pequenino nada
está como se fôra gente.

De um rapaz que finda
(na alameda) uma novela perturbada,
uma mulher ainda linda
esperou mas não foi olhada

E na folhagem também
certo desencontro corre:
a primavera que vem
na trovoada que morre

Mário Cesariny (1981). «manhã fresca...», in: manual de prestidigitação. Lisboa: Assírio e Alvim, p. 78.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Mário Cesariny

arte de inventar os personagens

Pomo-nos de pé, com os braços muito abertos
e olhos fitos na linha do horizonte
Depois chamamo-los docemente pelos seus nomes
e os personagens aparecem

Mário Cesariny (1981), «arte de inventar os personagens», in: manual de prestidigitação. Lisboa: Assírio e Alvim, p. 137.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

António Ramos Rosa

É aqui: talvez uma cidade

É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.

Mas insisto: é uma cidade.
Ou é, ela a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?

Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?

E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.

António Ramos Rosa (1975). «E aqui: talvez uma cidade». In Respirar a sombra viva. Lisboa: Plátano Editora, p. 39.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

António Ramos Rosa

O ignorante absoluto o imóvel nómada
no imponderável acorde da deriva da terra
com as velas do sangue voltadas para o mar
na incendiada inércia da sombra como um fruto
ouve o único canto que nunca se repete
e os lúcidos animais acaçapados
por detrás de arbustos invisíveis
A sua lucidez é o abandono às marés sem margens
e a sua sabedoria uma distracção que o conduz ao centro

António Ramos Rosa (1996). «O ignorante absoluto o imóvel nómada». In: Delta seguido de Pela Primeira Vez. Lisboa: Quetzal Editores, p. 23.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

António Ramos Rosa

No limiar

Uma qualidade nocturna e quase amante
talvez violenta e no entanto branca
desperta uma abóbada de arvoredo
um rumor lento uma nudez de sono
e grandes tufos de contornos negros

É um domínio aqui uma convergência de fluxos
Nenhuma imagem se abre na clareira igual
Uma palavra ou o silêncio a ligeireza do ar.

António Ramos Rosa (1983).  «No Limiar». In Gravitações. S.l.: Litexa, p. 55.


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

António Ramos Rosa

Não pensar
é mais difícil
do que pensar
e o pensamento
é tanto mais rico e fluído
quanto inclui em si
o vazio do não pensar

António Ramos Rosa (2012). Em torno do imponderável. S.l.: Edições Licorne, p. 29.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

António Ramos Rosa

Ninguém morre
como se chegasse
ao fim da vida
A morte é sempre um corte
extemporâneo


António Ramos Rosa (2012). Em torno do imponderável. S.l.: Editora Licorne, p. 23.


sexta-feira, 14 de junho de 2013

Mia Couto
No ano em que Mia Couto recebe o Prémio Camões, recordamos um dos seus primeiros poemas publicados em Raiz do Orvalho.
Recordemos o que nos diz o autor na introdução à reedição destes seus poemas iniciais:
            “Hesitei muito e muito tempo até aceitar republicar este livro de versos. A edição original foi publicada em Maputo, em 1983. Rapidamente o livro se esgotou e tenho, ao longo deste tempo, recebido várias sugestões para o reeditar. Desde então, porém, a minha escrita derivou para outros universos e hoje sou um poeta cuja prosa é muito distante daquilo que se pode pressentir em Raiz do Orvalho. Eu próprio não me reconheço em muitos desses versos. Alguns não resistiram ao tempo, outros adoeceram de serem tão íntimos. Assim, ao aceder a publicar a minha poesia inicial eu senti que devia escolher apenas alguns dos poemas da primeira versão de Raiz do Orvalho. Acrescentei outros versos inéditos, todos eles datados da década de oitenta. Assumo estes versos como parte do meu percurso. Foi daqui que eu parti a desvendar outros terrenos. O que me liga a este livro não é apenas memória. Mas o reconhecimento de que, sem esta escrita, eu nunca experimentaria outras dimensões da palavra.” (Mia Couto)

Identidade

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato
morro
no mundo por que luto
nasço

Setembro de 1977

Couto, Mia (2001). Raiz de Orvalho e Outros Poemas
(3ª ed.). Lisboa: Editorial Caminho. p. 13.

Também disponível em Citador


Terminamos com a epígrafe de Cada Homem é uma Raça, de Mia Couto:

            Inquirido sobre a sua raça, respondeu:
            – A minha raça sou eu, João Passarinheiro.
Convidado a explicar-se, acrescentou:
            – Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor polícia.

                               (Extracto das declarações do vendedor de pássaros.)

Couto, Mia (1992). Cada Homem é uma Raça (2ª ed.). Lisboa: Editorial Caminho. p. 9.


A equipa de “Uma página por dia” deseja-vos Boas Férias!

quinta-feira, 13 de junho de 2013

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Onésimo Teotónio Almeida
A Ilha desconhecida
[excerto]
       Ou a Bela Adormecida. Hoje apetece-me falar de algo que a quase totalidade dos leitores conhece apenas de nome. Vou meter-me na contradição de fazer alarde da quinta-essência da ilha – São Jorge – esperando que poucos ou nenhuns queiram ir verificar a fonte do meu entusiasmo, porque esse seria o fim dela como museu, não sei se do Tempo, do Silêncio, do Verde ou da Paz.
       Raul Brandão, quem melhor viu os Açores de fora e quem ajudou as gerações de dentro, que vieram depois dele, a olhar o arquipélago, não parece ter lá estado muito tempo. Nesse belo livro de viagens As Ilhas Desconhecidas, chamou-lhe “ilha fúnebre”. “Pastagens, pastagens… Terra triste, impressão severa.” Confessava que lhe falavam do nobre pitoresco, mas tudo perdera para si o interesse desde que topara com um pastor, cara de estranho, a falar-lhe inexpressivamente da vida. Com indiferença. O isolamento comunicara-lhe a mudez.
       Por São Jorge caí de amores à primeira vista há um quarto de século. A ilha ficou-me um vício a matar periodicamente, mas tem piorado com o remédio da cura.
       São Jorge não se escreve, embora alguns poetas tenham experimentado. Da sua Lisboa, Carlos Faria, o mais antigo e mais fanático jorgense de coração que conheço, por lá ia em serviço e não se cansava de tentar: “Sentado no ponto mais alto da Ilha, (…) toda a paz me acontece. (…) Nenhuma altitude nos tira do pé do mar. (…) Longe do mar, aqui no mar?” Ou: “A Costa Norte rebenta de silêncio.” “ Um silêncio / corre dos meus ouvidos…”. “Salto verde entre o céu e o mar”. Ou ainda: “São asas estes dias de bruma, este / cobrir de distância a viagem / que nos cerca!”
       […]
       Em São Jorge, só a conversa não é ruído. Por isso aquele rapaz da Beira, povoação de umas escassas centenas de pessoas, me dizia no seu falar arrastado: “ Eu já não podia com o barulho e mudei-me para a Fajã de João Dias”. Desce-se também só a pé e a caminhada não é fácil. Dizem, porque eu nunca fui, nem me devem querer lá. Ou deve, no singular, pois resta saber se morará mais alguém ao fundo daqueles quatrocentos metros de rocha íngreme, diante do mar Atlântico que se estende até ser Árctico.
       O leitor dirá que escrevo tocado pela nostalgia da distância. Alguns amigos açorianos dizem-me que sim, que da América a insularidade é mais romântica. E o meu amigo Daniel de Sá deve ter pensado em gente como eu quando escreveu no seu Ilha Grande Fechada (já lhe leram esse belo romance?) que emigrar é a pior maneira de ficar na ilha.
       Ponto de vista dele, claro. Do meu, se calhar diria que emigrar é, afinal, a melhor maneira de lá ficar.

Almeida, Onésimo Teotónio (1997). Rio Atlântico.
Lisboa: Edições Salamandra. pp. 175-178.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Almada Negreiros
Luís, o Poeta, Salva a Nado o Poema
Era uma vez
um português
de Portugal.
O nome Luís
há-de bastar
toda a nação
ouviu falar.
Estala a guerra
e Portugal
chama Luís
para embarcar.
Na guerra andou
a guerrear
e perde um olho
por Portugal.
Livre da morte
pôs-se a contar
o que sabia
de Portugal.
Dias e dias
grande pensar
juntou Luís
a recordar.
Ficou um livro
ao terminar.
muito importante
para estudar:
Ia num barco
ia no mar
e a tormenta
vá d'estalar.
Mais do que a vida
há-de guardar
o barco a pique
Luís a nadar.
Fora da água
um braço no ar
na mão o livro
há-de salvar.
Nada que nada
sempre a nadar
livro perdido
no alto mar.
- Mar ignorante
que queres roubar?
a minha vida
ou este cantar?
A vida é minha
ta posso dar
mas este livro
há-de ficar.
Estas palavras
hão-de durar
por minha vida
quero jurar.
Tira-me as forças
podes matar
a minha alma
sabe voar.
Sou português
de Portugal
depois de morto
não vou mudar.
Sou português
de Portugal
acaba a vida
e sigo igual.
Meu corpo é Terra
de Portugal
e morto é ilha
no alto mar.
Há portugueses
a navegar
por sobre as ondas
me hão-de achar.
A vida morta
aqui a boiar
mas não o livro
se há-de molhar.
Estas palavras
vão alegrar
a minha gente
de um só pensar.
À nossa terra
irão parar
lá toda a gente
há-de gostar.
Só uma coisa
vão olvidar
o seu autor
aqui a nadar.
É fado nosso
é nacional
não há portugueses
há Portugal.
Saudades tenho
mil e sem par
saudade é vida
sem se lograr.
A minha vida
vai acabar
mas estes versos
hão-de gravar.
O livro é este
é este o canto
assim se pensa
em Portugal.
Depois de pronto
faltava dar
a minha vida
para o salvar.

Escrito em Madrid (Dezembro de 1931)
Publicado no Diário de Lisboa em 1931

Disponível em Project Gutenberg


Páginas Paralelas:

Luís, o Poeta, Salva a Nado o Poema, de Almada, dito por Mário Viegas in Humores II


Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=qE919A96q40