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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Sophia de Mello Breyner Andresen

Meio-Dia

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo
Parece bater palmas.

Sophia de Mello Breyner Andresen (2010). "Meio-Dia". In: Obra Poética. Lisboa: Caminho, p. 18.


Terminado o semestre, a equipa de Uma Página por Dia deseja a todos/as boas férias! 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

David Mourão-Ferreira

E por vezes

[poema lido por Elisabete Pedreira, no âmbito da iniciativa "Um Poema por Semana" - RTP2 (2011)]





E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos


Fontes:

David Mourão-Ferreira. «E por vezes». In: Obra Poética 1948-1988. Lisboa: Editorial Presença.

Vídeo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=xaNDpmn-J7A (acedido a 2 de junho de 2014).


terça-feira, 27 de maio de 2014

Miguel Torga

Leiria, 10 de Abril de 1940.

Visita

Fui ver o mar.
Homem de pólo a pólo, vou
De vez em quando olhá-lo, enraizar
Em água este Marão que sou.

Da penedia triste
Pus-me o olhar aquele fundo
Dentro do qual existe
O coração do mundo.

E vi, horas a fio,
A sua angústia ser
Uma espécie de rio
Que não sabe correr.



Miguel Torga (2001). «Visita». In: Antologia Poética. Lisboa: Círculo de Leitores, p. 253.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Miguel Torga

Coimbra, 11 de Março de 1952

Retrato

O meu perfil é duro como o perfil do mundo.
Quem adivinha nele a graça da poesia?
Pedra talhada a pico e sofrimento,
É um muro hostil à volta do pomar.
Lá dentro há frutos, há frescura, há quanto
Faz um poema doce e desejado;
Mas quem passa na rua
Nem sequer sonha que do outro lado
A paisagem da vida continua.



Miguel Torga (2001). Antologia Poética. Lisboa: Círculo de Leitores, p. 292.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Lula Pena

Fria Claridade


Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=UCrYkPgEkIM (acedido a 16 de Maio de 2014).

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Gonçalo M. Tavares

O homem mal-educado

O mal-educado não tirava o chapéu em nenhuma situação. Nem às senhoras quando passavam, nem em reuniões importantes, nem quando entrava na igreja.
Aos poucos a população começou a ganhar repulsa pela indelicadeza desse homem, e com os anos esta agressividade cresceu até chegar ao extremo: o homem foi condenado à guilhotina.
No dia em questão colocou a cabeça no cepo, sempre, e orgulhosamente, com o chapéu.
Todos aguardavam.
A lâmina da guilhotina caiu e a cabeça rolou.
O chapéu, mesmo assim, permaneceu na cabeça.
Aproximaram-se, então, para finalmente arrancarem o chapéu àquele mal-educado.  Mas não conseguiram.
Não era um chapéu, era a própria cabeça que tinha um formato estranho.


Gonçalo M. Tavares (2004). O homem mal-educado. In: O Senhor Brecht. Lisboa: Caminho, p. 16.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Álvaro de Campos

Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente reparei,
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? Serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente. 


Fernando Pessoa (1986). Obra Poética. Vol. II. Lisboa: Círculo de Leitores, p. 141.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Vergílio Ferreira

Aparição
[excerto]

Subitamente à beira de um monte, um homem de pelico ergueu a mão ao carro. Eram três ou quatro casas apinhadas num terreiro. Moura parou e reconheceu o homem:
― Você outra vez? Então o que é que há de novo?
― Eu sabia que o senhor doutor ia ali à dona Alzira e pus-me aqui à espera.
― Mas então o que é que há?
O homem olhou-me para ver até que ponto eu 'podia participar do seu segredo.
― Se é preciso, eu saio ― declarei.
― Não, acho que não ― disse Moura. ― O senhor doutor pode ouvir? ― perguntou.
― Ele também é doutor? - adiantou o homem raiado de esperança.
― É doutor, mas não é médico. Diga lá então.
E o homem contou uma história incrível. Moura já a conhecia, porque fez referência a uma consulta na cidade. Mas de nada lhe valeu, porque o homem queria contá-la outra vez desde o princípio. Receava decerto que lhe tivesse falhado algum pormenor e que isso lhe destruísse a esperança. Contava-a agora de novo:
― Quando foi da sementeira, o patrão Arnaldo dis­se-me: «Ó Bailote, tu já não tens a mesma mão para semear.» Porque eu, senhor doutor, tive sempre uma mão funda, assim grande, como um cocho de cortiça. Eu metia a mão ao saco e vinha cheia de semente. Ati­rava-a à terra e semeava uma jeira num ar.
Conta, bom homem, conta o teu sonho perdido. Tinhas, pois, uma boa mão de semeador bíblico. Atiravas a semente e a vida nascia a teus pés. Eras senhor da cria­ção e, o universo cumpria-se no teu gesto. E, enquanto o homem falava, eu olhava-lhe a face escurecida dos séculos, os olhos doridos da sua divindade morta. Ima­ginava-o outrora dominando a planície com a sua mão poderosa. A terra abria-se à sua passagem como à pas­sagem de um deus. A terra conhecia-o seu irmão como à chuva e ao sol, identificado à sua força germinadora.
― Agora o patrão diz que eu já não tenho mão.
E mostrava a sua desgraçada mão, envelhecida, car­bonizada de anos e soalheira. Moura olhou-me e sor­riu-me numa cumplicidade.
― Olhe. Faça ginástica aos dedos. Assim.
E exemplificava. De olhos escorraçados, o homem lamentou-se:
― Tenho feito, senhor doutor. Mas o patrão Ar­naldo diz que eu já não tenho mão. Veja, senhor doutor, então isto não será ainda uma mão de homem?
E tentava cavá-la fundo, com os dedos gretados no ar.
― Então que quer que eu lhe faça?
― Dê-me um remédio, senhor doutor. Um remédio que me ponha a mão como a tinha. Assim grande, assim funda, assim, assim...
E moldava no ar a capacidade de uma mão de Jeová. Fios de sol escorriam de uma azinheira perto da estrada. Os campos repousavam no grande e plácido Outono. E pelo vasto céu azul, sem a mancha de uma nuvem, ecoava levemente a última memória de Verão. Moura pôs o motor a trabalhar.
― Então passe muito bem ― disse ao semeador.
E o carro arrancou, erguendo o pó do caminho.
Mas a visita à doente foi breve. Era uma casa fidalga perdida no descampado. Espectros de um ou outro ho­mem ou mulher olhavam-me no carro parado, olhavam o silêncio em redor. Regressámos enfim pelo mesmo caminho. Quando, porém, chegámos ao monte do se­meador, saltou-nos à frente um grupo de pessoas numa sarilhada de gritos, de imprecações, braços no ar, braços apontados para uma loja. Moura saiu do carro e o ma­gote de gente seguiu-o. Fiquei só. Mas o médico regres­sava daí a pouco, pálido, transtornado.
― Que aconteceu?
Ele não respondeu logo, conduzindo o carro aos tro­peções. E só quando o monte se não via já me declarou:
― O homem enforcou-se.



Vergílio Ferreira (1994). Aparição, 41.ª edição. Lisboa: Bertrand Editora, pp. 60-63.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Alexandre O'Neill

FALA!


Fala a sério e fala no gozo
fá-la p'la calada e fala claro
fala deveras saboroso
fala barato e fala caro

Fala ao ouvido fala ao coração
falinhas mansas ou palavrão

Fala à miúda mas fá-la bem
Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe

Fala francês fala béu-béu

Fala fininho e fala grosso
desentulha a garganta levanta o pescoço

Fala como se falar fosse andar
fala com elegância - muita e devagar.

Alexandre O'Neill (2004). «Fala!». In Poemário 2004. Lisboa: Assírio & Alvim.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Bertolt Brecht


PERGUNTAS DUM OPERÁRIO LEITOR

Quem construiu a Tebas das sete portas?
Nos livros estão os nomes dos reis.
Foram os reis que arrastaram os blocos de pedra?
E a várias vezes destruída Babilónia –
Quem é que tantas vezes a reconstruiu? Em que casas
Da Lima refulgente de oiro moraram os construtores?
Para onde foram os pedreiros na noite em que ficou pronta
A Muralha da China? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os levantou? Sobre quem
Triunfaram os Césares? Tinha a tão cantada Bizâncio
Só palácios para os seus habitantes? Mesmo na lendária Atlântida,
Na noite em que o mar a engoliu, bramavam
Os afogados pelos seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os Gálios.
Não teria consigo um cozinheiro ao menos?
Filipe de Espanha chorou, quando a Armada
Se afundou. Não chorou mais ninguém?
Frederico Segundo venceu na Guerra dos Sete Anos. Quem
Venceu além dele?

Cada página uma vitória.
Quem cozinhou o banquete da vitória?
Cada dez anos um Grande Homem.
Quem pagou as despesas?

Tantos relatos.
Tantas perguntas.

Bertolt Brecht, Poemas e Canções, selecção e versão portuguesa de Paulo Quintela,
Livraria Almedina, Coimbra, 1975.
Paulo Quintela, Obras Completas, vol. IV, Fundação Calouste Gulbenkian, 1999.

Poema transcrito a partir de:
Carlos Castilho Pais (2006). «NOITE e DIA na tradução dos poemas de B. Brecht». Jornadas sobre Bertolt Brecht, Universidade Aberta, 26 e 27 de outubro de 2006. Disponível em: http://www.univ-ab.pt/~castilho/noite%20e%20dia.pdf (consultado a 1 de maio de 2014).

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Vasco Graça Moura

sobre a minha cidade

sobre a minha cidade, falei-te ontem, mostrei-te
as esquinas do tempo, a imagem de fachadas
que ainda conheci, de outras que
eu próprio ignorava; sobre

a minha cidade e suas pedras, seus espaços
de árvores graves; e o que foi arrasado,
ou está a desfazer-se; as manchas do presente, a
poluição dos homens; e o que foi

violentamente arrancado por negócios sucessivos,
erros, brutalidades: o que era e o que foi
o que é dentro de mim o seu obscuro,
imaginário ser: costumes e conflitos,

maneiras de falar, a gente
e a confusão das ruas, as casas do barredo;
sobre a minha cidade achei que tu
tiveste gratidão, a viste.

que percorreste as pontes que da minha
cidade a ti me trazem, entre
gaivotas alastrando e músicas diferentes,
e foste nascer nela.


Vasco Graça Moura (1996). «sobre a minha cidade». In: Poemas Escolhidos. Venda Nova: Bertrand, p. 222.

terça-feira, 29 de abril de 2014

JORGE MARMELO
MÁQUINAS DE SONHAR
Quem tenha lido o D. Quixote de la Mancha, o engenhoso romance de Miguel de Cervantes, recordará que, após o primeiro regresso a casa do cavaleiro da triste figura, bastante amachucado por sinal, um padre e um barbeiro, de conluio com a governanta, se dedicam a deitar fogo à biblioteca do fidalgo. Convencidos de que os romances de cavalaria tinham sido os responsáveis pelo desatino que acometeu Quixote e o levou à insana aventura de ser cavaleiro andante pelas terras de Espanha, barbeiro e cura chegam ao ponto de emparedar a biblioteca, para que não ficasse rasto nenhum daquela máquina de sonhar e imaginar que, pelos vistos, são os romances impressos.
Queimar livros é, aliás, uma prática quase tão antiga como a própria existência dos livros. A Biblioteca de Alexandria, após séculos de incidentes menores, acabou reduzida a cinzas no ano de 391, às ordens de um bispo cujo nome não quero recordar, o qual fez questão de guardar para si o prestígio de inaugurar a era de intolerância e trevas que reinaria pelos séculos seguintes.
Durante a época medieval, a Inquisição dedicou especial atenção à queima dos livros proibidos e tidos por pecaminosos. Queimaram-se uma boa quantidade deles, quase sempre reunidos, segundo ficou escrito, em canastras cheias para os autos-de-fé em que, ainda assim, a atracção principal era o sacrifício às chamas de gente viva que, por exemplo, praticasse o suspeitíssimo hábito da higiene pessoal ou atentasse contra Deus através de palavras, actos ou omissões.
Na Alemanha de 1933, os nazis empenharam-se igualmente na queima de livros, juntando aqueles que tivessem sido escritos por autores inconvenientes e chegando-lhes o fogo purificador em grandes pilhas armadas nas praças públicas das cidades. Impunha-se, afinal, eliminar os elementos estranhos que pudessem "alienar a cultura alemã". E daí ao Holocausto foi, como se sabe, um ápice.
De volta à literatura, Ray Bradbury imaginou também, em Fahrenheit 451, uma sociedade do futuro, extremamente bem comportada (como alguns políticos gostam), na qual todos os livros estariam proibidos - e, com eles, a opinião individual e o pensamento crítico. Para garantir o bem-estar da nação, um corpo de bombeiros dedica-se exclusivamente à queima dos perversos volumes impressos, à temperatura de 451 graus Fahrenheit. É uma parábola eficaz, mas peca por falta de ambição ou de espírito visionário.
Ray Bradbury não imaginou, por exemplo, que o futuro, seja lá o que venha a ser, talvez não conte sequer com livros impressos, mas antes com dispositivos digitais de leitura. Nessas maquinetas se poderão ler ficheiros adquiridos virtualmente, os quais, pelos vistos, terão morada numa espécie de nuvem de éter (cloud), a partir da qual podem ser descarregados. Daí que, correndo-lhes as coisas de feição, os inquisidores do porvir já não precisarão de recorrer ao fogo. Basta-lhes soprar a nuvem de liberdade, loucura e sonho que, eventualmente, ainda ajude o Homem a pensar pela sua cabeça.

Fonte: Jorge Marmelo (2011). «Máquinas de Sonhar». Público. Disponível em: http://www.publico.pt/opiniao/jornal/maquinas-de-sonhar-22673043 (consultado a 28 de abril de 2014).











sexta-feira, 25 de abril de 2014

Sophia de Mello Breyner Andresen

Revolução

Como casa limpa 
Como chão varrido 
Como porta aberta

Como puro início 
Como tempo novo 
Sem mancha nem vício 
 
Como a voz do mar 
Interior de um povo 
 
Como página em branco 
Onde o poema emerge 
 
Como arquitectura 
Do homem que ergue 
Sua habitação

27 de Abril de 1974



Sophia de Mello Breyner Andresen (2000). «Revolução». In: Cem Poemas de Sophia. Lisboa: Visão/Jornal de Letras, p. 94.

quinta-feira, 24 de abril de 2014


Zeca Afonso

Filhos da Madrugada

 

Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor no ramo
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de manhã clara
Lá do cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
[C]á do cimo de uma montanha
Onde o vento cortou amarras
Largaremos p’la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca, brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca.

Fontes: 
Música: Zeca Afonso. «Filhos da Madrugada». Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=CbVQV1XNOCY (acedido a 24 de abril de 2014).

Letra: Zeca Afonso. «Filhos da Madrugada». Disponível em: http://www.animaramalta.com/musica-portuguesa-tuga/zeca-afonso-canto-moco (acedido a 24 de abril de 2014).

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Sophia de Mello Breyner Andresen

Pranto pelo dia de hoje

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas



Sophia de Mello Breyner Andresen (2004). «Pranto pelo dia de hoje», in: Cem Poemas de Sophia. Lisboa: Visão/Jornal de Letras, p. 62.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Gabriel García Márquez
Cem Anos de Solidão
[excerto]

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e cana, construídas na margem de um rio de águas transparentes que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas ainda não tinham nome e para as mencionar era preciso apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de Março, uma família de ciganos andrajosos montava a sua tenda perto da aldeia e, num grande alvoroço de apitos e timbales, davam a conhecer as novas invenções. Primeiro levaram o íman. Um cigano corpulento, de barba ferina e mãos de pardal-dos-telhados, que se apresentou com o nome de Melquíades, fez uma truculenta demonstração que ele próprio denominava de oitava maravilha dos sábios alquimistas da Macedónia. Foi de casa em casa a arrastar dois lingotes metálicos, e toda a gente ficou espantada ao ver como as caldeiras, os tachos, as tenazes e os fogareiros caíam dos seus lugares, e as madeiras rangiam pelo desespero dos pregos e dos parafusos que tentavam despregar-se, e até os objectos perdidos há muito tempo apareciam por onde mais se procurara e arrastavam-se em debandada turbulenta atrás dos ferros mágicos de Melquíades. «As coisas têm vida própria», apregoava o cigano com um sotaque áspero, «é tudo uma questão de lhes acordar a alma.»




Gabriel García Márquez (2000). Cem Anos de Solidão, 15.ª ed. (trad. Margarida Santiago). Lisboa: Dom Quixote, p.9.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Eugénio de Andrade

ALENTEJO

Agonia
dos lentos inquietos
amarelos, 
a solidão do vermelho
sufocado,
por fim o negro,
fundo espesso,
como no Alentejo
o branco obstinado.

Eugénio de Andrade (1987). «Alentejo», In: Poesia e Prosa, 3.ª ed. aumentada. Vol. II. Lisboa: Círculo de Leitores, p. 19.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Eugénio de Andrade

ARREDORES DE BEJA

Sentadas pelas portas as mulheres cantavam em segredo,
os olhos iam-se pela tarde lentos e molhados,
regressavam em chama pelos campos ceifados.


Eugénio de Andrade (1987). «Arredores de Beja», In: Poesia e Prosa 1940-1986, 3.ª ed. Aumentada. Vol. II. Lisboa: Círculo de Leitores, p. 19.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

José Luís Peixoto

Prefiro dizer o título no fim

Deitado sobre a colcha da cama do meu quarto, eu tinha quinze, dezasseis anos e sabia a importância do livro que estava a ler.
Nas aulas de português da escola secundária, o professor era um padre que chegava sempre composto e penteado, cabelo moldado com brilhantina. Tinha um anel no dedo mindinho e lia passagens desse livro com uma solenidade que me deixava a adivinhar o eco das suas missas. Depois, quando falava sobre o livro, entusiasmava-se e emocionava-se ao ponto de fechar os olhos. A sinceridade desses sentimentos era evidente e enchia a sala. Sem sair da sua postura, deixava escapar um sorriso discreto que cativava.
Li esse livro durante um verão. Julho, agosto, setembro. A seu tempo, anos antes, tinha sido lido pelas minhas irmãs. Habituara-me a ver a sua lombada numa prateleira do quarto delas e a saber que me esperava.
Eu passava esses verões a ajudar na carpintaria do meu pai. Sob o cheiro da madeira, o interior das árvores, fazia toda a espécie de pequenos trabalhos enquanto o meu pai e os outros homens montavam portas e janelas.
Essas horas eram diferentes porque eram muito lentas. As manhãs e as tardes pareciam intermináveis. Os homens estendiam os assobios pelo ar. Essas melodias atravessavam nuvens da serradura fina que se colava ao suor, atravessavam a luz que entrava pelas janelas do pátio, esbarravam no barulho ensurdecedor das máquinas e, depois, regressavam à sua liberdade virtuosa, com a pontuação de marteladas.
Quando chegava a casa, as roupas lavadas depois do banho eram um alívio para a pele. Sentia o descanso até nos pensamentos. Era nesses fins de tarde que me deitava sobre a colcha da cama do meu quarto e lia o livro. Pela janela, chegava o som dos sinos da vila e a claridade branda que o céu refletia, claridade rasa sobre a terra da tapada, a recortar as copas das oliveiras.
Então, diariamente, voltava àquele mundo. Tão diferente do meu e, no entanto, a puxar-me para o seu interior e, afinal, a pertencer-me também. O livro não me pesava nas mãos: as capas forradas a plástico e as anotações à margem, feitas a lápis, com a caligrafia da minha irmã Alzira.
Li a última página em setembro, já tinha feito dezasseis anos e, logo depois da última palavra, caí no silêncio. Nesses dias, falava menos ao carregar aros de portas. Ao serão, enquanto jogava bilhar na Casa do Povo, ficava mais calado do que o habitual, ouvia-se mais o barulho das bolas a baterem umas nas outras.
Quando a escola começou, ainda me adaptava a ser um ano mais velho, mas sentia-me preparado para o décimo primeiro ano. Na aula de português, quando o professor perguntou quem tinha lido o livro, levantei o braço o mais alto que consegui, como se crescesse ao fazê-lo. Ao meu lado, também de braço no ar, estavam outros que, sabia bem, não o tinham lido.
Começámos por Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano. O professor falava como se o seu rosto refletisse a devastação do campo de batalha. Lembro-me bem do modo longo, articulado, como pronunciava "Hermengarda". Depois, atravessámos o inverno com Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco. A seguir, por fim, o título do livro surgiu nos sumários que o professor ditava no início da aula.
O livro. Ninguém notava, havia muitas outras coisas em que reparar, mas as palavras do professor encontravam um caminho até ao meu centro. Quando o professor escrevia algo no quadro, fazia-o com uma caligrafia muito certa. Cada frase, escrita ou falada, lançava luz sobre a minha memória do livro. Só o toque de saída interrompia essa homilia. Entre o som de vozes e cadeiras arrastadas, olhava para o professor a arrumar a pasta.
Um dia, quase no fim do segundo período, o professor não veio. Passou uma semana e continuou sem vir. Então, soubemos que estava doente. Passaram as férias da Páscoa e continuámos sem aulas de português. A meio do terceiro período, soubemos que o professor tinha morrido. Ficámos com a nota do segundo período e não chegámos a fazer qualquer teste com matéria de Os Maias, o livro que eu tinha lido no verão anterior.
Deitado sobre a colcha da cama do meu quarto, eu tinha quinze, dezasseis anos e sabia que aquele livro estava a mudar a minha vida para sempre.

José Luís Peixoto (2013). «Prefiro dizer o título no fim». Visão, 13 de junho. Disponível em: http://visao.sapo.pt/jose-luis-peixoto=s25419 (acedido a 8 de abril de 2014).